A Evolução das Princesas da Disney



Acabei de ler um post de 2009 no blog Escreva, Lola, Escreva e gostei tanto que decidi publicá-lo aqui também.


Como feminista, mais interessada em me esclarecer sobre as questões femininas e entender as diversas análises e políticas das questões femininas do que engajada politicamente, esse assunto me desperta o interesse ainda mais por ser algo que consumi durante toda a minha infância e que agora sendo mãe, minha filha também consome. Sempre observei essas fábulas pelo viés dos relacionamentos: a mocinha que espera encontrar o príncipe, que sabemos não existir. Mas nunca tinha analisado suas personalidades e a evolução, natural, que sofreram com a evolução da sociedade. Nem as diversas entrelinhas, como a frase desta ilustração "Não há nada de estranho em beijar garotas enquanto estão inconscientes." - não só pela bizarrice deste ato, por si só, como também lembra os casos de estupro de meninas inconscientes por excesso de álcool ou drogas. 

O mais interessante disso tudo é que é verdade que as histórias das princesas podem sim nos influenciar mais do que gostariamos. Recentemente publiquei a crônica de Fabrício Carpinejar, "A Megera", e não foi à toa que escolhi a imagem da madrasta da Cinderela. Por que vivo um inferno doméstico parecido com o de Cinderela, com a diferença de que não aceito passivamente. Mas a maioria das pessoas me diz que deveria. E às vezes desconfio de que elas tenham razão. Da mesma forma, muitas vezes quando criança achei que a maneira "correta" de se portar era sendo passiva e submissa, como as referências femininas que eu tinha e que no final eram "felizes para sempre". Mas talvez tal personalidade não fizesse parte da minha essência, porque não funcionou. E não deve ter sido à toa que com 11 anos de idade minha heroína tivesse sido a Pocahontas. Lendo o post da Mirella Nogueira fez todo o sentido até pra mim, que nunca havia relacionado as coisas. Vamos a ele:

Obs: Fiquei tentada em copiar integralmente, inclusive a diagramação, porque achei fantástica! Desculpem a falta de originalidade.


A Evolução das Princesas da Disney

Pegando o gancho sobre personagens femininas marcantes no cinema, vou falar sobre algo que li esses dias e que tem a ver com personagens feminimos da ficção. Li um artigo de Carolina Lanner Fossatti, da PUC-RS (leia em pdf aqui), onde a autora faz uma análise das categorias de gênero sobre as princesas e heroínas disney, e como me interessei pesquisei um pouco mais, encontrando também no site G1 a evolução das personagens Disney.
Desde pequena sempre gostei muito dos desenhos Disney e não tinha me dado conta, até agora, do quanto eles nos influenciam. Não é de se estranhar algumas atitudes e pensamentos que povoam o universo infantil, que vão desde o estereótipo imposto como ideal de beleza e de comportamento (branca, magra, submissa, casta) àqueles relacionados a questões sociais (o ideal e aceito pela sociedade é a mulher casar com homem rico).
Pensando agora sobre esses filmes e sua trajetória conseguimos enxergar mudanças e avanços, mas que estão ainda longe de serem totais. As princesas foram se modificando em seu comportamento, nas atitudes, pensamentos, etnias. No desenho mais recente da Disney, a princesa é uma garçonete negra que vive no subúrbio.
Partindo do que eu li nesses links e nas reflexões que tive, já que tenho todos os vídeos dos desenhos e os conheço de cór e salteado, vou citar a evolução dessas personagens:
- Branca de Neve, de 1937, protagonista do primeiro clássico da Disney. Ela inaugura o ideal de princesa que se mantém há mais de sete décadas: uma mulher bonita, dócil, pura e de bom coração. Ao comer a maçã envenenada, Branca de Neve é traída por sua ingenuidade e derrubada pela competição feminina, a Rainha Má. E as únicas pessoas que têm compaixão por ela e a ajudam são homens, os anões e o caçador que a liberta, ao invés de matá-la. Além disso, a salvação de Branca de Neve está na passividade: ela deve esperar deitada e casta até que o príncipe encantado apareça e resolva o problema.
- Cinderela, de 1950, também bela, pura, casta e bondosa, é submetida pela madrasta e pelas irmãs a uma rotina de servidão e humilhações (já que a competição e a maldade feminina imperam), e aceita o sofrimento com doçura. Mais uma vez, a princesa tem uma atitude passiva diante dos problemas, mas desta vez é a Fada Madrinha que traz a salvação, num passe de mágica. Porém, com uma advertência e uma punição para as mulheres que desobedecerem a hora de voltar pra casa. Mulheres de respeito não podem ficar na rua a partir da meia noite. A salvação de sua rotina de humilhações está novamente num homem, ou precisamente, no casamento.
- Aurora, a bela adormecida de 1959. Entre as princesas, é certamente a que tem o papel mais passivo na trama, já que só aparece acordada em menos de 20 minutos de filme. Está sempre preocupada em agir de acordo com o que os outros querem e não reafirma suas próprias opiniões. E claro, é salva por um homem e pelo casamento.
- A pequena sereia, de 1989. A sereia deseja ter pernas para tentar conquistar o príncipe e não hesita em modificar sua aparência física para estar de acordo com o padrão estético imposto, mesmo que para isso tenha que sacrificar também sua voz, ou seja, sua liberdade de expressão. Desse modo, vai conseguir o que toda mulher deseja, casamento. E novamente, a personagem má da história é uma personagem feminina (a bruxa do mar) e que não atende a nenhum estereótipo de beleza ― não é branca, não tem cabelos compridos e é bem gorda. Quando a bruxa do mar lhe diz que ela terá que perder a voz, a sereia lhe pergunta como conseguirá conquistar o príncipe. Ao que a malvada lhe diz: "Você terá sua aparência, seu belo rosto, e não subestime a linguagem do corpo". E ainda canta uma música pra ela que diz assim (versão dublada brasileira): "O homem abomina tagarelas; garota caladinha ele adora. Se você ficar falando, o dia inteiro fofocando, o homem se zanga, diz adeus e vai embora. Não vai querer jogar conversa fora, que os homens fazem tudo pra evitar. Sabe quem é mais querida? É a garota retraída. E só as bem quietinhas vão casar." É mole? Porém, aqui a princesa mostra algum avanço, ao desafiar o poder patriarcal e sair um pouco da passividade, já que ela toma a iniciativa perante o homem.
- Bela, de A Bela e a Fera, de 1991. A heroína que se apaixona pela Fera e enxerga além de sua aparência monstruosa inova ao esnobar o rapaz mais desejado do povoado e demonstrar seu amor pela literatura. Aliás, no começo Bela nem pensa em casamento, apenas almeja sair da cidade pequena e progredir. O interessante é que ela é vista na cidade como uma mulher muito estranha. Todos se perguntam por que ela não quer casar e não se interessa por vaidade, apenas por leitura. E é legal também que colocam um personagem masculino bem boçal e machista, mostrando como ele é grotesco. Também foi a primeira vez que a Disney mostrou uma princesa na posição de salvadora do príncipe, e não o contrário, como de costume.
- Jasmin, de Aladin, de 1992. A filha do sultão é uma das princesas mais avançadas em termos de representação da mulher moderna. Rebelde frente ao poder patriarcal e à ordem da realeza, ela desafia a estrutura social ao assumir o amor por um rapaz de classe bem mais baixa. Diferentemente da maioria das princesas, ela tenta fazer seu próprio destino, sem esperar passivamente pela ajuda dos outros. E é também a primeira vez que a heroína não é branca com características européias. O personagem mau do filme é um homem, porém feio, que não atende a nenhum estereótipo de beleza. Até porque os bonitos são bons.
- Pocahontas, de 1995. Ela é também um marco da visão mais feminista nos desenhos Disney. Desafia o poder patriarcal, não aceita o noivo que o pai lhe impõe, não pensa em casamento, e também não é passiva. Ela é que toma a iniciativa e ― pasmem! ― beija um homem (e aqui é beijão de lingua, ha ha), sem pensar em casamento. No final, é ela quem salva o homem e toda a sua tribo e ainda discursa com propriedade e sabedoria.
- Mulan, de 1998. Quando o imperador ordena que um homem de cada família seja convocado para servir ao exército, Mulan, sabendo que seu pai está velho e doente e, portanto, não resistiria à guerra, decide assumir seu lugar. Disfarça-se de homem e se apresenta no exército, de armadura, espada e tudo. É legal a parte em que é mostrada indignada com a condição das mulheres, que têm de se enfaixar, se entupir de maquiagem e andarem retidas, com aqueles tamancos altíssimos. Ela odeia isso tudo. E, quando se disfarça de homem, cortando os cabelos, tirando a maquiagem, tirando os vestidos apertados e colocando calças, ela se sente muito mais confortável e feliz. E ainda se dá melhor do que os homens! Se torna o melhor, mais persistente e mais inteligente soldado. Mesmo com menos força, ela se sai melhor, o que é uma vergonha para os homens. No final é ela quem salva um país inteiro! Mulan torna-se a protagonista atual mais feminista da Disney.
- Tiana, de A Princesa e o Sapo. Este ano(2009), a Disney lançou a personagem Tiana, a primeira heroína negra da história do estúdio. Pelo que eu li, Tiana é a primeira do panteão de princesas a trabalhar fora, como garçonete, mas acaba servindo a uma branca rica. Apesar de sua beleza, Tiana passa a maior parte do filme transformada em um sapo, ao lado de um príncipe boêmio, falido e amaldiçoado, longe de estereótipos anteriores.
É bom acompanhar essa trajetória dos desenhos Disney, pois suas mensagens, tanto diretas, indiretas e subliminares, são absorvidas pelas crianças.


Ilustrações "Princesas da Disney, desconstruídas" do Sociological Images


Veja também:

O que houve com as princesas depois do “felizes para sempre”- Fallen Princesses


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