Com o sucesso de Cícero após o lançamento do bem sucedido Canções de Apartamento, muitos ficaram curiosos para conhecer seu trabalho na extinta Alice. Em texto de 2007, [Decodificando Ruído], o jornalista Jorge Wagner explica o que era a banda então:
"Alice teve seu início no ano de 2003, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, como um exemplo típico de banda com tudo para dar errado. A começar pelo nome. Formada inicialmente pelos amigos Cícero Lins (guitarra e voz), P.V. (guitarra), Rodrigo Abud (baixo) e Higor (bateria), que tinham em comum a média de 16 anos e o gosto por grupos como Nirvana, Silverchair, Offspring e congêneres, a banda passou um ano atendendo pelo péssimo nome de Mary Jane e tocando canções toscas calcadas no grunge e no punk.
Após a gravação de Demo I, registro dessa primeira fase, a história começa a mudar. Com as primeiras composições gravadas, o grupo percebe que o nome Mary Jane não serviria para representar o novo direcionamento musical pretendido e, na busca por um nome simples, decidem mudá-lo para Alice. É também nesse momento que a banda volta a atenção para grupos como Pixies, Radiohead e Interpol (algo fácil de se constatar através da citação nada sutil de Obstacle 1 na música O Fim, parte da primeira demo da banda), fortes influências no amadurecimento da recém-batizada Alice.
A medida em que a adolescência dos músicos ia chegando ao fim, o grunge da fase Mary Jane e Demo I era definitivamente posto de lado. E foi dessa forma que a banda chegou ao lançamento deAnteluz, em 2005, repleto de bons momentos, tanto nas músicas, quanto nas letras. Cícero, responsável pelas composições, passa a citar nomes de poetas como Carlos Drummond de Andrade e Pablo Neruda, além de compositores como Chico Buarque e Moska (cuja letra de Um e Outro foi assumidamente parafraseada em A Casa Vazia, dos versos “eu falo, você escuta / eu calo, você me culpa / desculpa, desculpa…”) entre suas influências."
(...)
No início de 2007, depois de duas pequenas mudanças na formação (primeiro a adição de mais um guitarrista, Gilson Abud, e a substituição do baterista Higor por Paulo Marinho), Alice lança Ruído, aquele que pode ser considerado seu primeiro registro definitivo e – por que não? – “adulto”.
Gravado no Limongi Stúdio, no Rio de Janeiro, entre fevereiro e maio desse ano, Ruído é a prova do quanto uma banda pode alcançar a maturidade com o passar do tempo. Já nos primeiros minutos 8h00min, música de abertura do novo trabalho, percebe-se que, finalmente, Alice encontrou o seu caminho, a sua cara – impressão confirmada ao longo dos pouco mais de trinta minutos de duração do álbum, diga-se de passagem."
Quase todo o material existente foi deletado, o que sugere que Cícero decidiu virar de vez essa página - apesar de amigos saudosos insistirem na campanha "TOCA ALICE".
Seja como for, o blog independente Hominis Canidae resgatou o primeiro CD, Anteluz (2005) e Jorge Wagner contribuiu subindo Ruído (2007), segundo e último álbum da banda, que encerrou suas atividades por volta de 2008 mas ainda concedeu uma entrevista ao blog Isto É Música em 2010, que reproduzo mais abaixo. Baixe e descubra esta faceta ainda pouco conhecida de Cícero:
Anteluz (2005, Independente)
Download: CD + Capa (aqui)
Ruído (2007, Independente)
"Ruído – Toda fonte de distúrbio ou deformação de fidelidade na transmissão de uma mensagem visual, escrita ou sonora. Ruído, tempo, espaço, café, cigarros, ruído."
[Decodificando Ruído] pode ser lido aqui.
Download: CD, encarte e making of [.flv] (aqui)
Entrevista
Em meio as mudanças a banda crescia em popularidade mesmo sem contar com divulgação ostensiva, muito pelo contrário, a impressão é que a pouca divulgação por parte da banda e a grande divulgação boca a boca entre os sues admiradores e talvez tenha como maior símbolo o fato dos nomes das música do segundo álbum serem horários do dia, realmente é algo que foge do comum e tira o foco das músicas passando ele para o conjunto, o álbum. Na entrevista a seguir, Cícero fala sobre a situação atual da banda, as mudanças em seu som e outros assuntos.
Isto é Música: Como está a situação da Alice no momento?
Cícero: Tem mais de 1 ano que a banda está parada. Não demos status nenhum pra isso. Apenas paramos. Forrest Gump. Paramos de correr.
IEM: Houve uma mudança muito grande no som da banda desde a “demo 1″ até o “Ruído”, essa mudança foi natural e saiu sem pensar muito no assunto ou foi algo pensando, tipo “vamos mudar”?
Cícero: A gente sempre foi inquieto. Acabava um cd compondo o outro. Passávamos às vezes um ensaio inteiro fazendo barulhos com a guitarra pra descobrir timbres, acordes… a parte de criação sempre foi nosso barato. Muito mais do que shows, matérias em jornais ou até mesmo cultivar um público. Os melhores momentos da banda eram os de criação, então os cds iam saindo…
IEM: Como você vê a relação Interpol, Gram e Alice? Definitivamente, essa bandas influenciaram a som da Alice, principalmente no Anteluz.
Cícero: Em Anteluz e Ruído a gente ouvia muito essas bandas. Estávamos numa fase bem post-rock e isso influenciou muito também. Mas essas referências já são mais difíceis de pescar porque são bandas muito pouco conhecidas aqui. Mogwai, Explosions In The Sky, Elbow, Longwave, Pedro The Lion… mas Interpol e Gram foram influências sim.
IEM: Do show no CTUR, passando por shows na Cinéfila, até chegar a uma matéria no Globo. Como você viu esta progressão de popularidade da banda? Você acha que a banda quase chegou a um estágio em que vocês viveriam dela?
Cícero: A Alice sempre foi uma banda de pequenas proporções. Nunca fomos de arrastar multidões. Sempre soubemos que esse seria o caminho da banda, pelo som que fazemos. Sempre soubemos e sempre gostamos disso. Por isso paramos sem estardalhaço. Víamos muita gente que dividia as músicas com a gente, entendia, e aquilo fazia diferença pra elas. Não queríamos ser “consumidos”, uma banda que tem um show “dançante”, ou “tendência”… queríamos fazer arte, encaramos a música assim, como acho que todo músico deveria encarar… assim as músicas fizeram um público. Porque o público é delas, não nosso.
IEM: Uma música que gostaria de recomendar e a justificativa da escolha.
Cícero: Elbow – I’ve got your number. São 03:17 da manhã e é o
que estou ouvindo agora. Essa é uma música que eu adoraria ter feito. Tudo nela tem uma função, sentido, uma cor. Às vezes eu ouço essa música e meu dia fica diferente. É o que sempre quisemos fazer com a Alice.
E também:
Entrevista com Cícero (aqui)
Cícero e Marcelo Camelo no Circo Voador (aqui)



1 pensamentos
É A ÚNICA COISA AINDA ME SALVA...
ResponderExcluirME SALVA DE ME MATAR...