![]() |
| Foto Chris von Ameln |
Regina Navarro é uma psicanalista moderna, cujas ideias são polêmicas: o pacto de exclusividade nos relacionamentos só serve para gerar sofrimento; casamento não é confessionário: "o que o outro faz quando não está comigo, não é da minha conta"; acredita que o cavalheirismo é uma forma de dominação; defende o poliamor e ainda diz que mesmo entre as mulheres liberais pagar a conta do motel ainda é tabu. Regina reconhece que seus colegas de profissão não costumam concordar com ela quando o assunto é relação extraconjugal: "são um bando de caretas, sabia? Todos, sem exceção, justificam a traição dizendo que o casamento vai mal ou que o amor acabou ou porque um deles quer se afirmar. Gente, não é nada disso! As pessoas têm relação extraconjugal porque variar é bom, não porque o amor acabou!", declarou em entrevista de três páginas à Marie Claire em 2011. Regina talvez se assemelhe à Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir nas ideias sobre amor livre (amores necessários X amores contingentes, definições de Sartre) e assim como à época dos filósofos, suas declarações - e estilo de vida - provocam muitas reações agressivas, principalmente entre os mais conservadores.
É interessante observar os comentários preconceituosos no site, e um em especial chamou a minha atenção: "Regina Navarro é bizarra, para chamar atenção destrói os afetos, as relações, os compromissos e pricipalmente o amor. Qdo a vejo falar, gordota, flácida, ácida,oralzona, fico imaginando a intensa sexualidade que diz viver...Regina, você é fake!". Assinado por um homem? Não, uma mulher. Uma mulher que parece acreditar que uma outra, gorda e fora dos padrões que revistas como a própria Marie Claire nos empurram goela abaixo, não são capazes de ter uma vida sexual intensa e prazerosa. Talvez nem mesmo de serem amadas (sim, existe isso). E é bom que esta reação agressiva venha das próprias mulheres: Regina mexe no vespeiro ao se dirigir especialmente à nós, destruindo todas as crenças dos contos de fadas e comédias românticas que consumimos desde que nascemos e, tal qual Beauvoir, ser a prova viva de que funciona. É o tipo de coisa que coça, incomoda, mexe com a cabeça.
A ideia que Regina realmente defende por trás de suas declarações, é que o grande mal dos relacionamentos hoje seria a crença no amor romântico. Veja bem, não no amor. Mas no amor romântico, aquele que nos faz idealizar o ser amado e passar o resto da vida nos frustrando por não conseguirmos nem adaptar o outro à nossa fantasia, nem nos sentir "completos" como acreditamos que aconteceria. E ainda mostra dados: segundo ela, 80% das pessoas se declaram insatisfeitas e decepcionadas no casamento, pelo modelo fechado e idealizado que nos acostumamos a acreditar. A alternativa natural e já em processo, é que nos voltemos menos para a renúncia de nossos desejos e projetos pessoais e mais para relações consensualmente livres. Vendo as reações, surge a dúvida: estaríamos preparados?
"A história das mentalidades nos permite perceber como as mudanças ocorrem. Se você afirmasse na década de 50 ou 60 que dentro de algum tempo as moças não se casariam virgens, diriam que você estava louca. Diriam que a sociedade não estava preparada para isso. Perder a virgindade era uma coisa terrível. Se você dissesse que dentro de algumas décadas, a separação seria comum, iriam dizer que você estava louca. Mulher separada era discriminada. Hoje é a mesma coisa. Muita gente pode resistir a isso, sempre há os conservadores e as mentalidades não mudam ao mesmo tempo."
Dentro do contexto da individualidade, acredito que funcione e, até mesmo, seja saudável. Cada vez mais casais buscam morar em casas separadas, entrar sites de encontros (e há os exclusivos para pessoas casadas), casas de swing, relacionamentos abertos e por aí vai. Há de ter espaço para todos e a própria Regina reconhece isso: "Não seria certo que a regra fosse 'agora todo mundo vai ter de transar com todo mundo' e que os casais que optaram pela monogamia ficassem excluídos. O importante é que cada pessoa escolha sua forma de viver e não reproduza um modelo por inércia nem medo de sofrer preconceito". Ufa!
Publicado no Bordel Bordado
Sobre isso, extraí um trecho importante da entrevista, mas vale a pena ler a íntegra publicada em três partes lá no site da revista (links abaixo).
MC Feministas mais radicais não gostam que os homens paguem a conta. É o seu caso?
RNL Hoje eu pago, amanhã ele paga e depois dividimos. Prefiro assim. Cansei de ouvir mulher dizendo: “Ah, só me faltava essa: pagar motel!” ou “Não me incomodo de dividir restaurante, cinema, mas motel quem paga é ele”. Isso me revolta. Se os dois vão ter prazer, não há qualquer problema em dividir a conta. A mulher não é uma prostituta que está ali para servi-lo e por isso cabe a ele pagar por tudo.
MC Mas e se o homem quiser pagar? Qual o problema?
RNL A questão que eu quero colocar é chega de que “homem deve pagar a conta do motel simplesmente por ser homem”. As mulheres querem os benefícios da liberação feminina — tipo casar dez vezes, transar na primeira noite, ganhar bem —, mas não querem o ônus. Se os direitos são iguais, são iguais também os deveres. Isso é puro machismo! Não conheço homens que sustentem a mulher e não usem isso contra ela. O dinheiro confere poder, faz com que a gente se sinta superior. Tanto que eu, se só tivesse duas opções, sustentar ou ser sustentada, ficaria com a primeira. Deus me livre ter de pedir dinheiro para comprar minhas coisas (risos).
MC Condena o cavalheirismo?
RNL Não, mas sei que ele é uma herança da cultura patriarcal da Idade Média que se disfarça de gentileza para atestar a força masculina e a fragilidade feminina. Gentileza é uma via de mão dupla. A mulher também pode mandar flores, assim como o homem pode ser gentil cozinhando. É tudo convenção. Que tipo de homem deseja proteger uma mulher? Certamente não um que a veja como uma igual, mas aquele que se sente superior a ela. Grifos meus.
MC Por isso o homem está em crise?
RNL Sem dúvida. Para os que não se libertaram do mito da masculinidade (ou seja, a maioria), as mulheres que combatem o cavalheirismo são uma afronta. Eles se sentem ameaçados, pois não conhecem outro papel senão o de guardiões, protetores. Para eles, essa mudança é muito nova. No século 19, o marido tinha o direito de bater na mulher com uma vara do tamanho do seu antebraço e da grossura do seu dedo médio. Parece piada, mas é verdade! Depois me perguntam se eu sou feminista. E dá para não ser? Só não é feminista quem quer continuar vendo a mulher ser oprimida.


0 pensamentos:
Postar um comentário