Decidiu escrever uma crônica. Aproveitando-se da situação nada lisonjeira em que se encontrava, permitiu-se sentir o que nem sabia que sentia, mas estava lá. O último dos nove namorados que tivera até então, despediu-se dela com palavras duras de adeus e “esse mal eu não quero mais”. Arranjou-se com outra em uma semana, depois mais outra, depois sabe-se lá quantas; e encerrou o assunto.
Como ficasse sozinha, tratou de alimentar fantasias pueris e falsos desejos, apenas para ter com o quê ocupar a mente e o coração. Quase que por brincadeira – e um pouquinho de vingança -, escolheu um rapaz a quem só conhecia de vista e ouvir dizer. Sabia que tinha todas as qualidades que qualquer um aprovaria. E estava solteiro. Decidiu instantaneamente que, sem dúvida, aquele era um bom partido.
Mas a solidão é traiçoeira e tratou logo de espetar-lhe o coração com o veneno sem antídotos do amor. Apaixonou-se pelo tipo escolhido a dedo e para que o estrago ficasse bem feito, não tardou em se obcecar. Virou noites buscando-lhe o passado e o presente, invadiu a privacidade frágil de seus amigos, suspirou notes a fio por fotos e até tentou certificar-se de que suas orientações sexuais eram compatíveis. “Nos dias de hoje, nunca se sabe”, justificou-se. Em seu delírio de amor, acreditou possível que o moço viesse a se interessar por ela, se é que já não cultivava algum interesse, por que não?
De sua parte, ele sabia-lhe o nome e conhecia-lhe o rosto, mas isso era tudo. Já tinha o suficiente.
Ardia de desejo toda vez que lhe via a cara e amigo nenhum se atreveu a dizer que estava delirando. “Vai, tenta”, empurravam-na para a cova dos leões. Pôs-se a consultar os astros, os números e as cartas e esses, mais frios e sensatos, lhe diziam “vai com calma, pera lá”.
Leu tantas dicas e pensou em tantas formas de seduzir e conquistar, que acabou sentindo preguiça. Na única vez em que, por inciativa própria, o moço foi ter com ela, agiu como se em nada estivesse impressionada. Travaram falsa amizade e logo ele se recolheu no seu canto e na sua vida animada de pessoas interessantes, festas e belas modelos.
Não se pode dizer que não foi bem-sucedida: logrou esquecer o outro, mesmo que metendo-se em confusão sentimental ainda maior. Esquecida e ignorada como estava, não sabia se devia expor-se ao ridículo de uma vez ou prosseguir em silêncio com essa paixão não correspondida. Ainda não se decidiu. Não sabe como a crônica termina.
Sem Graça
Um abismo / você e eu / Uma angústia / você e eu / Inalcançável / você e eu
Apenas existo eu / nesse amor unilateral / Sem rima / e sem graça
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| Composição (Figura Só) - Tarsila do Amaral |
Esta crônica é integrante do livro "Um ou Mais Graus de Separação" (Independente, 2012).

6 pensamentos
Renata,
ResponderExcluirVou contrariar: não achei sem graça. Leitura agradável!
Abs!
Hehehe obrigada!
ResponderExcluirEscrevi para a coletânea de uma amiga, na tentativa de ser leve mesmo. Escrevo coisas muito depressivas, mas não mostro pra ninguém. :)
Tenho curiosidade em saber: como achou o blog?
Hum...très bon!
ResponderExcluirSempre leituras interessantes e agradáveis.
=]
Curiosidade: você é jornalista?
Sim, de cultura. E novata.
ResponderExcluirNossa, não esperava a essa altura da noite encontrar um blog tão legal pra passar o resto da semana viajando. Amei o texto, parabéns pelo talento. Virei fã.
ResponderExcluir(caso interesse, eu encontrei seu blog em uma pesquisa de imagens sobre Andrea Doria- Navio e música)
Beijos =)
Oi, Isabele!
ResponderExcluirPoxa, que bom que você gostou! Fco feliz de verdade. :)
Eu acho interessante mesmo, saber como as pessoas encontraram..acho que às vezes não tenho tanta noção do alcance da internet, para coisas tão pessoais. No meio de tanta coisa, a gente se sente só mais um na multidão.
Esse post é um dos mais lidos aqui, e eu coloquei por um motivo bem pessoal...mas que já passou!
Obrigada pela visita ^^