encontrando alanis morissette


Publicado em 11/11/2012*

Há 14 anos eu sou fã da Alanis, foi quando ouvi o segundo CD dela que eu passei a prestar atenção em letras, a gostar de rock, a realmente gostar e ter um relacionamento afetivo com a música. Ouvir Alanis naquela época foi tão importante pra mim que em 2004, quando tive minha primeira e única filha, coloquei o nome dela de Alanis. Queria que a pessoa que mais eu iria amar e me importar pelo resto da minha vida carregasse um nome que significava muito pra mim. Passei grande parte da minha adolescência e juventude fazendo das músicas delas a minha trilha sonora. Eu sempre dizia "existe uma música da Alanis para tudo" e era verdade. Eu podia estar triste, ou com raiva, ou em um momento reflexivo; Alanis tinha algo pra mim. Podia ser um problema com a família, os amigos ou o namorado; podia ser o trabalho, os sentimentos, a religião ou a política: lá saltavam as letras dela como minha autoajuda musical e particular. Alanis não era apenas o modelo do que, adolescente, queria ser mas também um ser humano complexo com o qual eu me identificava. Talvez tenha aprendido a gostar de ler entrevistas por causa dela - nas entrevistas, sempre podemos entender melhor como funciona a mente das pessoas e o que as leva a fazer o que fazem. Por isso as entrevistas de emprego, os interrogatórios, as sessões de terapia, as conversas de bar. Sonhava um dia poder conversar com ela, ou entrevistá-la. Ainda não cheguei lá, mas cheguei o mais perto que podia.

Com ajuda de alguns amigos, consegui chegar lá - quase atrasada. Antes, estava em uma reunião de família em ocasião do aniversário d minha avó. Era a última vez que a veria e eu recalquei o choque de tristeza que quase me fez desabar chorando naquele quarto. Nada indicava que aqueles eram seus últimos dias, eu ainda poderia lhe fazer outras visitas, eu achava. Então me animei com a possibilidade de enfim conhecer Alanis de verdade, como um ser humano, não apenas uma atração em um palco. Tanta ansiedade me fez passar mal, mas nada que um chá de boldo não curasse.

Ainda viriam contratempos como lugares distantes, direções erradas, atrasos alheios e filas. Mas consegui chegar a tempo - a tempo de ficar tensa porque a produção da Time 4 Fun é extremamente desorganizada, ninguém se entenda e alguns nomes que eram certos acabaram ficando de fora. Esta foi outra alegria particular: estávamos vários lá. Katherine e Gustavo - que também a veria pela primeira vez depois de tanto tentar e me deu um apertado e emocionado abraço. E Caio e Wagner e Éslon e Aline e Fernando. Alguns que eu conhecia de perto, outros de longe. Alguns não entraram, mas mesmo assim, o backstage naquele dia era nossa festa.

Então chegou a hora e fomos. Ficamos esperando em fila, atrás do palco. E ela chegou. Simpática, sorridente, linda. Você não diz pelas fotos, mas Alanis é linda. Não por ter as feições bonitas, mas por ser carismática. Por estar visivelmente se sentindo bem e feliz. Os olhos brilhavam e o sorriso era radiante. Do pedestal do palco, da imprensa, do vídeo para ali, na minha frente, uma mulher comum, pequena, com um longo cabelo que eu só havia visto antes em comercial de shampoo. E as mãos, aqueles mãos características, se moviam o tempo todo, como um tique nervoso.

Mas foi estranho. Ouvir a voz dela e saber que era comigo que ela falava, foi estranho. Primeiro foi o Fernando, eu estava logo atrás. Quando ele foi pegar caneta pra ela autografar o seu vinil do Supposed Former Infatuation Junkie, eu aproveitei para dizer "Oi" e ela virou pra mim sorrindo, como quem diz "desculpe, não tinha te visto" e disse "Oiii, já me abraçando. Ela gosta dessa coisa brasileira de abraçar, então abraça com vontade. Nossa conversa foi breve e tosca, já que não conseguia pensar em nada: Eu falei que havia esperado14 anos por aquele momento e ela fez "aww". Falei que tinha uma filha chamada Alanis, ela me olhou interessada e disse "oh, really?" e eu mostrei a foto da minha filha. Uma foto antiga, Alanis tinha quatro anos e estava vestida de Branca de Neve em um ímã de geladeira feito por sua madrinha. Ela pegou da minha mão toda sorridente, ficou olhando e falou com sinceridade "ohhh she is sooo cute", então eu disse à ela que quis dar um nome que significasse muito pra mim e termine com um dramático "obrigada". Ela ficou sem jeito e riu pra mim como quem diz "para com isso".

Então foi atender as outras quatro pessoas e mesmo com a orientação da produção para não pedir foto individual e autógrafo, eu resolvi arriscar. Puxei a capa do meu "Supposed..." - o disco que me apresentou à Alanis - e a caneta, mas ela já tinha cumprimentado o resto do pessoal e estava entrando para o abraço da foto. Cheguei a dizer "Alanis, would you sign..." mas o pessoal se juntou tão rápido que tive que sorrir logo pra câmera e esconder as coisas e saí péssima. Saí rindo de felicidade e comédia e nervoso e sem graça. E este foi um momento lindo: no mesmo segundo em que olhei para a câmera, vi na minha frente um conhecido, que me ajudou a chegar lá, e ele estava sorrindo de alegria por mim. Percebi que ele entendia.

Quando a foto acabou, pensei que oportunidade tinha passado e já estava guardando as coisas quando ela voltou e veio até mim e pediu pra eu dar à ela pra que autografasse. Eu brinquei falando para ela tocar mais músicas desse CD quando estávamos nos despedindo e ela disse "ok", aí se tocou e olhou pra mim e deu uma enorme gargalhada.

Foi um momento especial poder ter entrado lá com amigos queridos que fiz por causa dela. Foi lindo poder sair do backstage direto para a pista premium - pela qual eu não tinha pago originalmente - e ficar pertinho do palco, para cinco minutos depois ela começar o seu show. O melhor show dela que eu pude assistir. Onde ela estava solta, enérgica, com seus cabelos característicos, tocando todas as suas músicas mais famosas e as melhores do último CD e eu cantando todas a plenos pulmões, chegando a precisar parar de cantar e me mexer para não desmaiar, morrendo de calor e me perdendo dos amigos para curtir o meu momento sozinha.

Foram as horas que ficaram suspensas entre a tristeza de ver a minha vó em seu leito de morte e encontrar um ex-amor mal resolvido na volta para casa. Estava tão anestesiada que demorei a compreender tudo, a sentir tudo. Mas valeu a pena.

*Sinto necessidade de pedir para que relevem o texto, que foi escrito quando o blog ainda funcionava no esquema diário-que-só-meus-amigos-leem e que eu não me dei ao trabalho de reler e revisar. Se você leu até aqui, obrigada.

Meus textos sobre Alanis:
Discografia comentada
20 anos de Jagged Little Pill
Há quase 20 anos na minha vida

 

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