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| Manet |
Cheguei por volta das 22h de sábado e a fila era algo que poucas vezes eu havia visto de perto na minha vida. Pensando rápido, creio que tenha perdido apenas para a imensa fila que tomou as ruas do Catete em 2001 quando estudantes foram em peso fazer na hora suas carteirinhas da UNE e comprar ingressos meia-entrada para o Rock in Rio. Resolvi encarar até onde o meu pé aguentasse. Foram seis horas exatas de uma longa mas nada modorrenta fila composta em dua maioria por casais, grupos de jovens estudantes, boêmios vindos da Lapa, grupos de meia idade, famílias e inclusive algumas crianças.![]() |
| E mais duas ruas atrás |
Voltando à fila, de hora em hora era possível ouvir um coro entusiasmado em um grande ÊÊÊÊ e demoramos a entender o motivo: eram as pessoas que finalmente recebiam seus bilhetinhos para entrar no local da exposição. Um grupo de 20 ou 30 pessoas de cada vez. Pisamos no CCBB exatamente às 4 da manhã de domingo.
Na entrada, o grupo se reunia e recebia as instruções: nada de fotos e etc. Passamos direto por um corredor onde um vídeo sobre Impressionismo era exibido e fomos para o que interessava: as telas. Enormes. Emocionantes. Abundantes. Cada sala tinha suas paredes pintadas de forma a harmonizar com os quadros: a ala Paris é uma Festa, por exemplo, com telas sobre a boemia parisiense, estava toda vermelha, reforçando o contraste das cores quentes das telas.As luzes ficavam dispostas no alto e às vezes refletiam nas maiores telas de modo a atrapalhar a visão quando vistos de perto, mas de longe o efeito era tal que cada quadro parecia estar aceso, como se houvessem luzes ocultas por trás de cada um. Reprodução nenhuma de livro, jornal ou internet consegue traduzir.

Respeitando a linha evolutiva, a mostra começava com as obras de Manet e assim seguia com nomes como, entre outros, Renoir, Monet, Morisot, Pizarro, Cézanne até chegar a Degas, Toulouse-Lautrec, Gaugin, Van Gogh e terminar com o Pontilhismo de Seurat. Todos lá, vivos em suas pinceladas e assinaturas. Brilhando devido aos cuidados do Museu D'Orsay. Tangíveis. Não era a primeira vez que eu via uma obra de arte legítima e importante de perto, mas essas, ou pelo dessa vez, eu me emocionei de verdade. Nunca estive em Paris ou nenhum outro país do mundo, e me senti tão puerilmente maravilhada como quem vê o mar pela primeira vez. Talvez o passado tenha se tornado cada vez mais caro pra mim com o tempo, de modo a ser quase assombroso estar diante de paisagens, pessoas, objetos de um outro tempo, um outro mundo quase como uma conexão, uma aproximação com esses artistas através das suas obras. O passado se comunicando com o futuro. As técnicas brilhantes, que comovem de longe e assombram de perto.
Meu maravilhamento só não durou mais e com mais intensidade porque meu companheiro estava quase a desmaiar de sono, e a situação me obrigou a apertar o passo. É verdade que o meu corpo também já estava castigado o bastante; em certo momento cheguei a ficar literalmente plantada e minha perna resistiu tanto quando tentei me mover que me senti como um astronauta tentando dar um passo na lua.
Quando saímos, percebi que havia ainda uma segunda parte no andar de cima, com linha do tempo e vídeos, mas não tínhamos mais forças para continuar. Às 5:30 eu já estava do outro lado da Presidente Vargas procurando o ponto certo do ônibus. Cheguei em casa já eram quase sete horas, sem conseguir andar direito e acabada de sono. Mas valeu cada segundo que estive naquela atmosfera silenciosa, com aquelas pessoas com quem passara toda a madrugada fazendo aquela viagem solitária e pessoal no tempo. Uma noite que vai permanecer comigo durante um bom tempo.
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| Van Gogh/O GLOBO |




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