
A obra-prima de Clarice Lispector não possui uma trama e se concentra muito mais em questões filosóficas sobre do que somos feitos nós seres humanos. O ambiente é o comum em Clarice: mulher da classe média alta, com uma vida comum. Até que se depara com um ponto de ruptura: a barata no armário - velha, antiga, pré-histórica. O próprio quarto onde ela encontra a barata, o quarto da empregada, um lugar onde ela nunca vai e imagina estar entulhado de bagulhos (comentando aí o preconceito de classe) é o local que está "suspenso da realidade", metaforicamente um portal que a leva para o desconhecido, em busca do seu eu primitivo, em um processo de autoconhecimento através do sacrifício. Toda a epifania está distribuída em 33 capítulos - aludindo aos 33 anos de Cristo.
A passagem em que GH de fato come da barata (e não a barata) é rápida, indolor e mostra o ápice da desconstrução de si mesma em busca de descobrir sua verdadeira essência para chegar a uma conclusão em nada decepcionante. Ainda que seja o melhor de Clarice, onde a autora atinge a excelência no método que era apenas promissor em Perto do Coração Selvagem, o livro não é indicado para o leitor médio que nunca teve contato com a obra de Clarice e a melhor ilustração de que isto é verdade vem de um comentário feito no grupo de leitura onde uma moça disse ter achado o livro "estranho e difícil" e estava decepcionada porque tinha "muitas expectativas sobre esta escritora" por ter gostado de diversas frases que lera nas redes sociais.
A Paixão Segundo G.H.
Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Ano: 2008
♦♦♦♦♦Editora: Rocco
Ano: 2008

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