Durante a adolescência, Antonio Adolfo fez um amigo na escola. Um dos poucos amigos que tinha feito em anos, ele chamava Antero Bevendes e compartilhava com Adolfo o gosto pelo hard rock e pelas mulheres. Com os hormônios à flor-da-pele, o virtuosismo da música e suas letras recheadas de sexo e diversão excitavam os dois jovens que experimentavam através da música uma compensação para a realidade frígida de suas vidas.
Um dia Antero resolveu se confessar. Eram amigos há bastante tempo, conheciam bem um ao outro e, bem, amigo é para essas coisas mesmo. Retirando o peso do segredo e da vergonha nas costas, decidiu que seu melhor amigo Adolfo seria o confidente ideal e este sendo tão desinteressante para as mulheres quanto Antero, entenderia seu dilema.
-...
-que foi, cara?
-pô, cara...
-...
-...é que eu nunca beijei uma mulé. eu sou BV.
-que foi, cara?
-pô, cara...
-...
-...é que eu nunca beijei uma mulé. eu sou BV.
"Eu sou BV". Ao ouvir frase tão sincera e inusitada, a vontade de Adolfo foi a de soltar uma sonora gargalhada. Como assim "eu sou BV"? Que tipo de pessoa dizia aquele tipo de frase? Só mesmo um fresco fracassado como o Bevendes, que ainda por cima gostava de frequentar o Theatro Municipal! Adolfo se conteve:
-tudo bem, cara, isso é comum. é difícil mesmo encontrar uma mulé legal esses dias, elas só querem saber de cara com carro e dinheiro. tu num viu aquele maluco da escola que apareceu com um carro e apareceu um monte de mulé em cima? uma hora tu sai dessa.
Mais tarde, se sentindo um pouco melhor, Antero foi esperançoso para casa e não pensou mais no assunto.
Assim que seu melhor amigo saiu, Adolfo explodiu em gargalhadas e tratou logo de ligar o computador e abrir o MSN para compartilhar a última com seus outros poucos amigos. Partidário do humor, desde que não se tratasse da sua inevitável e aparente careca, do seu penteado ou seu peso, Adolfo pensou com razão que aquela era uma grande piada que não poderia passar em branco. "Eu sou BV"! Mal posso esperar pra ver a reação do Carlos ao ouvir isso!
No dia seguinte, algo parecia estranho. Os colegas da escola olhavam para ele e prendiam o riso. Ele chegou mesmo a ouvir a palavra "azeite" seguida por gargalhadas mas não entendeu direito do que se tratava. Bevendes passou a ser o assunto do momento da escola.
Chegando para conversar com Antonio Adolfo sobre a súbita atenção que vinha atraindo para si na escola, Antero perguntou se o amigo sabia o motivo. Este explodiu em gargalhadas: "'Eu sou BV!' Como é que você fala uma merda dessa, cara? Tá parecendo azeite: extra virgem." e saiu gargalhando ao encontro com seus outros poucos amigos.
Em pouco tempo, montagens com azeite e Bevendes circulavam pelos chats do MSN e scrapbooks do Orkut - Antero chegou a ganhar uma comunidade em homenagem à sua falta de proeza. Motivo de chacota, Antero decidiu ignorar a existência triste de Adolfo e seguir a sua vida.
Hoje em dia a fama de Bevendes o precede.
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Mas e Antonio Adolfo?
Antonio Adolfo seguiu sua vida. Fazendo pouco sucesso entre as mulheres, ocupava seu tempo aprendendo a tocar baixo, indo a shows de hard rock, cuidando do cabelo e assistindo filmes. Muitos filmes. Todo tipo de filmes. Para Antonio Adolfo os filmes eram o escape da realidade, onde podia encontrar pessoas com quem se identificava, pessoas que o entendiam, pessoas que o faziam sonhar com uma vida roteirizada de família feliz com esposa e filhos - mesmo que ele estivesse mais para um tipo sociopata como Travis Bickle.
Antonio Adolfo deixou de viver a realidade para viver através de filmes.
Antonio Adolfo chegou aos 21 anos ainda virgem, sem nunca ter tido uma relação sexual com uma mulher ou homem ou trans que não fosse através da pornografia, que consumia compulsivamente. Até arranjar a sua primeira namorada, nenhum amigo ou familiar havia visto Antonio Adolfo com alguém. Só ouvido falar.
Sua primeira namorada tinha baixa auto-estima e acabara de sair de um longo relacionamento sufocante, seguido de um caso extra-conjugal que não dera certo. Antonio Adolfo estava no momento certo e na hora certa e não desperdiçou a sua chance! Transaram logo no primeiro dia e nas semanas seguintes decidiram namorar. Antonio Adolfo disse que a amava depois da sua terceira transa, ainda com menos de um mês de relacionamento, mas não conseguiu aceitar que sua namorada não gostasse de cebola e tomate depois de ele ter acordado cedo para lhe preparar um café da manhã surpresa no dia seguinte. Como se atrevia?!
Antonio Adolfo dizia o que era e o que não era bom na cama, o que ele considerava um bom sexo oral e como satisfazer uma mulher. Mas não dizia que sabia disso apenas porque assistia e fantasiava. Ele só contou à mulher que tanto amava que ela lhe tirara a virgindade depois que já estavam separados. Para ela, foi como uma revelação. Explicava e muito as atitudes de Antonio Adolfo até ali.
Mas este não era o único segredo de Antonio Adolfo.
Antonio Adolfo gostava de ser dominado. De ser dominado por transsexuais. E de dominá-las.
Nas suas fantasias.
Com dificuldades em aceitar sua bissexualidade, Antonio Adolfo recorria aos contos eróticos e à pornografia para satisfazer os desejos que não gostava de admitir nem para si mesmo. Talvez até tivesse experimentado alguma vez. Em público, Antonio Adolfo era o primeiro a rir de homens que assumidamente alugavam filmes do gênero, mesmo que ninguém estivesse falando do assunto.
No dia em que sua ex-namorada descobriu que ele havia se registrado em um fórum de pornografia trans, ela riu. Mas é claro!
Quem teria tanta crueldade em se divertir às custas dos segredos dos outros se não se envergonhasse dos seus?
Antonio Adolfo não era BV na adolescência, mas não confiou a ninguém sua virgindade sexual e seus desejos ocultos. Não que devesse.
Mas não deixo de pensar no que seria de Bevendes se estes fossem seus segredos. E no que ele acharia quando descobrisse.
