Quase de verdade, Clarice Lispector



Quase de verdade é um dos cinco livros infantis que Clarice Lispector escreveu ao longo de sua prolífica carreira. A narrativa é contada por Ulisses, um cachorro "com olhar de gente" que late as suas histórias para Clarice, sua dona. Logo no início Ulisses declara que sua história até parece de mentira e até parece de verdade, explicando (em uma frase que ecoa Manoel de Barros) que "só é verdade no mundo de quem gosta de inventar", criando uma cumplicidade direta com o universo infantil.

A história que Ulisses conta se passa em outro quintal, no de Onofre e Oniria, esta que, segundo o cãozinho, se torna meio mágica ao entrar na cozinha. Imagine, ela consegue fazer explodir um bolo misturando ovo, farinha de trigo, manteiga e chocolate! O enredo é padrão: no quintal de Oniria vivem galos e galinhas liderados por Ovidio e Odissea e uma figueira. Incapaz de dar frutos, a figueira se torna invejosa e resolve procurar uma nuvem-bruxa má (Oxélia) para tomar todos os ovos produzidos pelas galinhas e ficar rica. Mas como toda magia (e injustiça) tem seu preço, logo as galinhas exaustas de botar ovo noite e dia se uniram e bolaram um plano que desse bastante prejuízo à árvore exploradora. Livres da exploração, as galinhas ainda procuram a poderosa nuvem-bruxa boa (Oxalá) para redimir Oxélia e perdoar a figueira arrependida.

E não será preciso um leitor mais observador para notar a metáfora sobre a exploração do trabalho e direito dos trabalhadores. Para que não reste dúvidas da sagacidade de Clarice ao introduzir temas complexos em um livros infantis, retiro dois trechos:

"Enquanto isso, a figueira juntava ovos que não era vida e tudo para vender e virar milionária. E nada pagava às galinhas, nem com milho, nem com minhoca, nem com água. Era só aquela escravidão." (p 26) 
"O resultado foi esperteza daquelas.
 Não havia dúvida: eles iam contra a figueira ditadora, iam exigir os seus direitos, pôr ovos para eles mesmos, reclamar comida, água, dormida e descanso." (p 28)
Bebendo da fonte de Monteiro Lobato, de quem era fã confessa, Clarice utiliza muito da linguagem tipicamente infantil da criadora de neologismos Emília (homens homenzavam, mulheres mulherizavam, etc), para estabelecer uma aproximação com o pequeno leitor, evitando soar forçada ou didática. Pelo contrário: como era de se esperar, a linguagem em Quase de Verdade é rica e bem trabalhada, abusando das onomatopeias (também influência de Lobato) para criar um ritmo divertido e instigante, capaz de divertir crianças e encantar adultos.



Ritmo, aliás, é uma característica que permeia toda a obra de Clarice e em tempos de debates sobre facilitação de leitura, resgatar a obra infantil de Clarice é uma excelente ferramenta para preparar futuros apreciadores de obras complexas, seja a própria Clarice, seja Machado de Assis.

A nova edição lançada pela editora Rocco vem em capa dura e traz charmosas ilustrações de Carla Irusta, que dão vida ao texto de Clarice.

Quase de Verdade
Clarice Lispector
Ilustrações: Carla Irusta
50 páginas
Editora Rocco/Rocco Pequenos Leitores
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