Clarice Lispector - Entrevistas


Conhecida por ser arredia a revelar mais de si mesmo, neste livro de entrevistas realizadas por Clarice Lispector é possível ter alguns vislumbres dos pensamentos íntimos da escritora a respeito de seu ofício, da sua geração e das artes em geral. Segundo comenta em várias de suas conversas, a impressão que dá não era de que Clarice evitava lidar com momentos difíceis de sua biografia (inclusive Clarice chega a incentivar a pintora Djanira, que resistia a falar sobre sua infância: "Mas você sabe que só relembrando de uma vez, com toda violência, é que a gente termina o que a infância sofrida nos deu?") ou buscava manter o mito a seu redor, mas a de que o sucesso para Clarice era uma invasão e ter sua vida invadida simplesmente a impediria de escrever. A celebridade lhe incomodava: "Uma das coisas que me deixam infeliz é essa história de monstro sagrado: os outros me temem à toa, e a gente termina se temendo a si própria. A verdade é que algumas pessoas criaram um mito em torno de mim, o que me atrapalha muito: afasta as pessoas e eu fico sozinha. Mas você sabe que sou de trato muito simples, mesmo que a alma seja complexa", disse à escultora Maria Martins.

Ainda que fique claro que não estamos lidando com material jornalístico comum, antes com material sensível que funciona quase como um bônus não apenas à obra da escritora mas também a de todos os seus entrevistados, geralmente pegos em momentos de baixa guarda seja por amizade ou admiração por Clarice, é possível notar, com um certo alívio, que nem sempre Clarice foi infalível. Ao ler suas entrevistas, percebemos que nem mesmo ela conseguiu fugir de lugares-comuns, como quando despende um tempo considerável perguntando sobre a beleza de Tônica Carrero ou pede a algum entrevistado que dê um conselho para novos artistas. Curiosamente, Iberê Camargo levou a pergunta tão a sério que precisou de um copo d'água depois de pensar longamente e finalmente ofereceu uma resposta precisa, em um conselho que serve para iniciantes de quase todas as áreas: "não se persuadirem de que inventaram a pintura". Por sua vez, Clarice não se furtou de oferecer o seu próprio, quando a pergunta lhe foi devolvida por Iberê: "trabalhar, trabalhar, trabalhar". O pintor não foi o único a devolver perguntas à Clarice - todos os seus entrevistados o fizeram em algum momento -, o que acaba presenteando o leitor com os já citados vislumbres do pensamento da escritora, em coisas como: "Eu me considero amadora, porque só escrevo quando tenho vontade", "Não sou inteligente, sou sensível", "Sofro se isto acontecer, que alguém me leia apenas no método de vira-página dinâmico. Escrevo com amor e atenção e ternura e dor e pesquisa, e queria de volta, como mínimo, uma atenção e um interesse" ou "Também posso lhe dizer que se viver é beber no Antonio's, isso é pouco para mim. Quero mais porque minha sede é maior que a sua."

Em outros momentos, as entrevistas podem ser um pouco desinteressantes pela falta de respostas elaboradas, como com Tarcísio Meira ou a própria Tônia Carrero, que chega a perguntar a Clarice o motivo desta estar estranha ("não dormi", foi a resposta). Uma das mais curiosas é a tensa entrevista realizada com um aparentemente amargurado José Carlos Oliveira, em um bate-papo que quase virou uma briga entre amigos, onde em determinado momento o escritor arremata: "Mas aqui não estávamos falando de amizade, e sim mostrando que uma escritora como Clarice Lispector, em vez de comer e beber comigo, tem que pensar em entrevistas para poder sobreviver". Um dado interessante sobre esta entrevista, como muitas outras realizadas pela escritora, é que apesar de ter sido feita pessoalmente, ela foi realizada por escrito, com Clarice escrevendo as perguntas e José Carlos Oliveira, as respostas. Segundo Clarice, ela optava por esse método com medo de perder a matéria, como ocorrera uma vez com uma entrevista feita com Roberto Marinho que foi completamente perdida pela incapacidade de Clarice de entender a própria letra. O recurso, porém, não foi tão eficaz na famosa entrevista de Pablo Neruda (aqui, na íntegra), que acabou decepcionando por suas respostas curtas, quase monossilábicas, embora bem humoradas; "Tão frustrador receber resposta curta a uma pergunta longa", escreveu Clarice.

Talvez por este motivo, alguns entrevistados perdem a mão e respondem com floreios e academicismos desnecessários, como é o caso de Nélida Piñon, que oferece uma entrevista com pouca fluidez mas que, apesar disso, forneceu uma das melhores respostas sobre a divisão literatura feminina/literatura masculina:

-- A linguagem é produto do exercício de poder, que entre nós é masculino. Estas divisões clássicas estão a serviço da sociedade masculina, responsável pelo ato de nominar "feminina" a produção da mulher de sensibilidade exacerbada, diariamente contrariada e diminuída pela lista de haveres domésticos. Deste modo, mesmo a mulher de escritura "masculina" (máximo de elogio), nada mais fez que adotar o ponto de vista cultural da sociedade masculina, de que se origina. Pensamos segundo cânones masculinos, o que ironicamente determina que mesmo as escritoras pejorativamente chamadas de "femininas" expressem também sentimentos masculinos, ainda que reprimidos, e sejam pois a contrafação daquela literatura. Ignoro como virá a ser uma sociedade cultural realmente contaminada pelo ponto de vista da mulher, após conquistar ela plena e absoluta igualdade. Até o momento, somos uma das regras do decálogo masculino, razão de se tornar ingrata a tarefa de defender a escritora que escreve como homem, e lamentar a que escreve como mulher. Seria uma injustiça e terrível luta de classe.

Sempre atenta, Clarice perguntava desde assuntos banais a questões políticas (incluindo aí o feminismo), ora buscando saber como seus entrevistados responderiam a perguntas que ela mesma não sabia responder, ora simplesmente buscando pela verdade e conseguindo arrancá-la de pessoas como Nelson Rodrigues, que afirmou estar fazendo um "abnegado esforço para não trapacear". Em uma das melhores entrevistas do livro, Nelson fala sobre sua visão política (ainda muito atual mesmo depois de 34 anos de sua morte, já que ainda hoje vemos esquerda e direita reivindicando seus escritos e declarações), afirmando não ser de esquerda nem direita ("Eu me recuso absolutamente a ser de esquerda ou de direita...Verifiquei então o óbvio ululante: de parte a parte todos eram canalhas...Eu não quero ser nem canalha de esquerda nem canalha da direita") e sua solidão, em um (longo) trecho particularmente tocante:

"Uma vez fiquei gravemente doente, doente para morrer. Recebi em três meses de agonia três visitas, uma por mês. Note-se que minha doença foi promovida em primeiras páginas. Aí, eu sofri na carne e na alma esta verdade intolerável: o amigo não existe.

-- Nelson, como consequência de meu incêndio, passei quase três meses no hospital. E recebi visitas até de estranhos. Eu não sou simpática. Mas o que é que eu dei aos outros para que viessem me fazer companhia? Não acredito que não se tenha amigos. É que são raros.

-- Ou eu dou muito pouco ou os outros não aceitam o que eu tenho para dar. 

-- Mas você tem sucesso real -- e sucesso vem quando se dá alguma coisa aos outros. Você dá.

-- Eu tenho o que eu chamaria de amigos desconhecidos. São sujeitos que eu nunca vi, que cruzam comigo numa esquina, numa retreta, num velório. Certa vez fui a uma capelinha ver um colega morto. Eram duas horas da manhã. Uma mocinha saiu do velório ao lado com um caderninho na mão. Fez uma mesura para mim e disse: 'Quero ter a honra de apertar a mão do autor de A vida como ela é.' E me pediu o autógrafo. Eu senti que estava vivendo um momento da pobre ternura humana. Eis o que eu queria dizer: o amigo possível e certo é o desconhecido com que cruzamos por um instante e nunca mais. A esse podemos amar e por esses podemos ser amados. O trágico na amizade é o dilacerado abismo da convivência."

***

O maior trunfo de Clarice Lispector - Entrevistas é reunir este encontro entre ícones da cultura brasileira com suas carreiras no auge, seja na literatura, nas artes plásticas, na música ou no esporte, em um total de quarenta e duas entrevistas cujo único padrão são as clássicas perguntas de Clarice (a saber: "Qual a coisa mais importante do mundo?", "Qual a coisa mais importante para uma pessoa, como indivíduo?" e "Que é o amor?") e uma outra que a escritora costumava reservar a seus pares escritores: "Você se sente realizado/a?". Obviamente nenhum deles se sentia (Érico Veríssimo se declarou, no máximo, "satisfeito") mas a melhor resposta de todas ficou a cargo de Jorge Amado: "Quanto a ser realizado, penso que o escritor que um dia se considere realizado, se não for um idiota (e deve ser) tem o dever de deixar de escrever, pois já se realizou."

Com prefácio de Claire Williams, também organizadora, o livro é indicado não apenas para fãs de Clarice Lispector mas para todos amantes de entrevistas e interessados em cultura brasileira. Não que se trate de grandes entrevistas reveladoras de métodos, focadas em reflexões filosóficas e declarações políticas ou grandes debates - são entrevistas muitas vezes confessionais, com alguns vislumbres políticos, sociais e existenciais, mas que funcionam como bate-papo entre amigos ou personalidades em pé de igualdade, de mútua admiração ou respeito, onde é possível pinçar pequenas pérolas em cada uma delas e que transmitem a sensação de estarmos testemunhando a intimidade de grandes artistas enquanto tomam café na sala e falam sobre a vida. Um livro nos obriga a marcar diversas passagens para reler e levar para a vida.

Clarice Lispector - Entrevistas
232 páginas
Organização: Claire Williams
Editora Rocco

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