Frutos Estranhos, Florencia Garramuño



Partindo de obras artísticas do Brasil e da Argentina, a pesquisadora argentina Florencia Garramuño apresenta uma série de quatro de ensaios sobre o que a autora chama de arte inespecífica, ou seja, obras que, ultrapassando o já anacrônico pós-modernismo, dialogam com várias expressões artísticas resultando em uma coisa única, sem a possibilidade de rótulos. Um dos exemplos recentes citados é o livro de estreia da escritora e artista plástica carioca Laura Erber Esquilos de Pavlov (Alfaguara; 2013) — considerado em muitas listas como um dos melhores daquele ano — que faz uso da fotografia como instrumento que complementa a narrativa e ainda cria uma estrutura de maneira não convencional, de modo a permitir uma multiplicidade de sentidos e interpretações possíveis.

O título é emprestado da obra homônima de uma instalação de Nuno Ramos no MAM do Rio de Janeiro em 2010, e nada tem a ver com a canção famosa na voz de Billie Holiday — Garramuño batiza assim tais obras cujo único ponto em comum seria uma certa "unidade do não-pertencimento", se identificando pela não identificação: "Frutos estranhos e inesperados , difíceis de ser categorizados e definidos, que, nas suas apostas por meios e formas diversas, misturas e combinações inesperadas, saltos e fragmentos soltos , marcas e desenquadramentos de origem, de gêneros — em todos os sentidos do termo — e disciplinas, parecem compartilhar um mesmo desconforto em face de qualquer definição específica ou categoria de pertencimento em que instalar-se", explica a autora em sua escrita um quê prolixa.

O título faz parte da coleção Entrecríticas, lançada no ano passado pela editora Rocco, coordenada por Paloma Vidal, inspirada pela emblemática crítica de Flora Sussekind, "A crítica como papel de bala", publicada em 2011 no jornal O Globo (menciono a crítica de Sussekind na entrevista feita com o crítico de cinema Pablo Villaça, no mesmo ano, que pode ser lida aqui), onde Flora aponta a decadência da crítica literária, cada vez mais próxima da publicidade, funcionando como guia de consumo, do que do pensamento crítico e analítico sobre uma obra. Já foram lançados outros três títulos da série, que também visa fazer um recorte, funcionando como ponto de partida no diálogo entre o fazer artístico entre Brasil e Argentina.


Frutos Estranhos — Sobre a inespecificidade na estética contemporânea
Florencia Garramuño
128 páginas
Editora Rocco

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