trechos de emails perturbadores


(Grifos meus, exceto quando sinalizado por *)

Olá.

Perdoe o incômodo.

Hoje recebi pela primeira vez uma notificação do facebook avisando que algo "upado" por mim havia sido excluído da minha página.

Aparentemente alguém considerou que o conteúdo de alguma foto feria a privacidade do mesmo ou da mesma.

Achei estranho pois isso nunca havia acontecido comigo. Fui pesquisar e vi que a única foto que desapareceu foi uma da Alanis ao lado de um Papai Noel que postei no natal. Se vc requereu a exclusão da foto, peço encarecidamente que reconsidere, não sei o que possa ter achado, mas de antemão esclareço que estava ao lado do C enquanto ele via as atualizações quando apareceu a foto da Alanis na timeline, como não possuo absolutamente nenhum registro dela com a idade atual pedi para que salvasse a foto e me enviasse. Postei a mesma no dia 24, afirmando minha saudade e a tristeza por passar outro natal sem ela. Em nenhum momento invadi ou bisbilhotei seu perfil ou algo do tipo. Se o problema foi o fato de eu postar a foto, novamente peço para que reconsidere, é algo muito importante para mim e não enxergo nenhum possível dano fruto desse ato.

Se o fato não possui relação alguma com vc, aceite minhas sinceras desculpas pelo constrangimento e por favor ignore o conteúdo desde e-mail.

***

Perdoe o inconveniente. O fiz por impulso, vi a foto, pedi e postei no espaço de um minuto.
Não houve má fé de nenhuma parte, minha ou do C. Meus amigos sabem dos meus sentimentos em relação a Alanis e o que passei com ela, deve ser difícil para eles entenderem que não há mais relação alguma, logo a questão não deve ter passado pela cabeça dele. Quanto a mim, agi pela emoção mesmo, vê-la crescida e a realidade de que não acompanhei ou poderei acompanhar esse processo me dói profundamente. Peço sinceramente desculpas por isso, para mim é bastante complicado. Todavia, por mais dolorosas que sejam, acato suas decisões em relação a Alanis, jamais passarei por cima delas.

Sobre bloqueio no facebook, o mesmo existe por um questão de saúde da minha parte. As coisas em relação a vc sempre abalaram não apenas meu estado emocional mas também o físico, como vc talvez lembre.  É uma questão séria a ponto de me fazer decidir não mais tocar aquelas músicas. Preciso me resguardar o máximo possível.

Espero que tenha entendido o ocorrido e já que estamos conversando sobre o assunto de alguma forma, haveria alguma possibilidade de vc enviar algumas fotos mais recentes da Alanis para mim?
Como disse anteriormente, jamais passarei por cima das suas decisões, serão para uso exclusivamente* pessoal, gostaria imensamente de tê-las em meu quarto ao lado das mais antigas (sinta-se livre para negar).

Fique bem e novamente peço desculpas pelo ocorrido, não se repetirá.

***

.
.
.

se não tivesse me mudado com o xxx, eu não teria conseguido, já teria feito alguma besteira. Sempre fui sozinho e meio triste, mas com esse peso todo de ter terminado com vc eu não iria aguentar.

***
Não entendi, falei a palavra "besteira" em algum momento? Não estou achando, mas nunca converseeeei por e-mail com ninguém, to achando isso meio confuso, estou perdido e não consigo achar as conversas direito. rs

***

Não, tudo bem, nem liguei, é normal pensar essas coisas, está tudo bem, sou sensível, mas também não é para tanto! rs

***

.
.
.

Fico sempre sozinho, não é muito divertido, também não vou muito com a cara dele. Como profissional fique atenta (...) mas por trás da fofice infantilizada rola um poço de falsidade, (...) já o XXX é outro esquema, cuidado com promessas e sei lá o que, o XXX é que é bem mais humilde e verdadeiro.

***

Não houve nada de mais, isso está estampado na cara dele, uma vez era pra rolar um show com eles e o ..., foi tudo bem estranho e acabou não rolando.

Também tinha o lance de que eu não tinha - não tenho na verdade - guitarra que preste até hoje, precisava de uma pra gravar o disco, ele tinha ficado de emprestar, sempre rolava uma clara falsidade na hora de falarmos e tal. Mas nem é esse o ponto mesmo, uma vez jantei com ele e uns colegas, era tudo ridículo, tipo eu sei como ele é pq sou amigo do XXX, ele me conta as coisas, ele vive humilhando os outros indiretamente, tenho pena do XXX coitado, vi uma falsidade sem precedentes em todas as vezes que estive com ele, nada concreto não, mas enfim, ele não é uma das pessoas com quem eu não me relacionaria.

***

Também peço desculpas por não ter te incentivado mais a sair do nosso casulo, mas como sempre fui sozinho, acabei aceitando um pouco daquilo como normalidade, seu normal era outro.
Devia ter prestado atenção nisso, talvez tivesse te ajudado.

***

Dolorido ler isso.

Mas entendo, se era dessa forma, entendi o que vc dizia sobre a realidade e vc tem razão.
Ainda vou demorar para digerir tudo o que escreveu. 

...

Sei e pensei bastante nos meus problemas, hoje me assumo uma pessoa problemática.
Quando disse que era simples, referia-me aos meus desejos, que não são tão hiperbólicos quanto minhas palavras. Agora estou confuso, mas devo ter visto essa tirinha no seu blog então, lembro de te-la visto e pensado a mesma coisa, lembrei de vc falando essas coisas, quando disse que me deixava levar por coisas que hoje seriam diferentes, falava exatamente disso. Sou sensível, as coisas me afetam, mas sempre tentei te ajudar muito de todas as formas que eu podia, é realmente injusto apenas colocar como se eu não me importa-se com vc. Mas te entendo e te dou toda razão, falhei em muitos pontos e me arrependo muito por isso.

***

Sei desses traços, não a toa me identificava com esses personagens, quando novo lia e me interessava muito por assassinos em série (calma! rs) , te contei que gostava bastante de escrever e criar histórias e meu primeiro conto mais longo fora um sobre assassino em série. Porém como disse antes não entendo violência, fujo de pessoas que fazem mal aos outros deliberadamente, sei que o conceito de mal é amplo, mas ficamos juntos 4 anos, imagino que saiba ao que me refiro.

Disse que acho triste pq era o que eu te dizia, vc concordava e depois agia como se nada daquilo houvesse sido dito ou conversado, sempre arranjava alguma desculpa para mudar de atitude, culpava algo sem muito sentido e terminava comigo, isso aconteceu incontáveis vezes, por incontáveis motivos, sempre algo era a bola da vez, nunca vc mesma.

Não tenho muita empatia pelas pessoas, porém padeço muito com o sofrimento alheio, nesses dias alguém veio brincar comigo de que eu era o maluco que iria querer salvar todo mundo, acho que numa alusão a recente enchente, não lembro direito, nada mais verdadeiro! Aprendi a lidar com as pessoas com o tempo é verdade, quando era mais novo era mais isolado, hoje não, apenas evito as pessoas cujo os ideais me enojam como disse no outro e-mail. 

Estou falando sobre a realidade, não buscava algo impossível, nunca busquei perfeição no sentido real da palavra. Por exemplo, sempre vi que vc era meio egoísta, mas tudo bem, todo mundo tem problemas, também nunca soube, talvez nem vc saiba até que ponto isso é um mecanismo de defesa também devido ao meio onde vc cresceu ou se é mais um traço da sua personalidade, era egoísta, mas tudo bem, isso não era um problema que abalasse meio suposto ideal de perfeição, isso é normal, todos tem defeitos, problemas, eu sou assim, todo mundo é assim, as poucas pessoas de quem eu gosto também são assim e eu sou ciente disso, a "perfeição" a qual sempre me referi é isso, ser normal. Sempre te disse, desde o início que eu era diferente das outras pessoas. Da mesma maneira que vc não tolera certo tipo de gente, eu também não, só que sou menos social que vc e a maioria, mas como disse aprendi a lidar com isso sem problemas, não me sentiria mal em sair com vc encontrar seus amigos e te acompanhar nas coisas que vc fazia antes da depressão, pq como eu sempre disse, eu estaria do seu lado, isso pra mim bastava, sempre bastou. 

Sei que falei muito de vc, mas saiba que sei que errei muito também, me arrependo de vários caminhos que acabei tomando, me deixando levar por certas coisas, hoje seria diferente, é a tal da experiência.

Nunca tinha juntado as peças dessa forma, mas talvez vc tenha matado a charada.
Talvez eu tenha sido depressivo desde sempre, não sei o que isso significa, mas faz bastante sentido.
Sobre amor, eu já tinha pensado nisso, mas sei que esse fez-se falta na minha infância, hoje não, sei dosar as coisas. Posso querer muito mas entendo os limites dos outros. Se não fosse essa parte do egoísmo que com o tempo cresceu e transformou-se num monstro eu ainda estaria com vc - digo por minha vontade, vc pode ter motivos para não estar comigo tb - mesmo com todos os defeitos ainda te via bela e te amava, era minha perfeição, estava tudo bem, estava feliz, vc uma pessoa normal e nós vivendo a realidade, me fazia feliz, por isso não concordo sobre esse tal medo da realidade não corresponder minhas expectativas, sei que acabo usando expressões e palavras que as vezes assustam pela intensidade e grandiosidade, mas sou muito simples, não é preciso muito para me fazer feliz e eu era, até isso torna-se muito maior do que eu era capaz de carregar.

Não tenho medo da vida, nunca tive, o que acontecer, aconteceu, eu tenho medo é do nosso amor.

***

Acho normal essa confusão, eu mesmo tentei explica-la a vc diversas vezes, sempre discordando dessa sua visão sobre mim, buscava sim perfeição, mas era o meu* ideal de perfeição, que pode perfeitamente ser traduzido como normalidade, a qual nunca tive muito acesso. Creio que esteja enganada, era vc que ofendia-se quando eu a classificava como "normal", talvez pq associasse ao "cidadão de bem", não sei ao certo. 

Sei que enxergo sim as coisas com um olhar cinematográfico, mas minha referência de cinema sempre foi pessimista, o normal já me alegrava, era perfeito.

Não quero que pareça que estou escrevendo para "rebater" suas opniões, é apenas a forma como eu lido com as coisas, sei que as vezes pareço "querer estar com a razão", mas é pq não sei muito bem guardar as coisas para pensa-las melhor, quem sempre soube faze-lo era vc, nunca tive muito talento para tal, gosto de debater as idéias na hora, ouvir, expor minha opnião e ser confrontado.
Sei que nem todos entendem e muitas vezes sou mal interpretado, mas espero que vc entenda.

Bom que não sinta raiva, não nutri esse sentimento em relação a vc, aliás acho que senti raiva verdadeiramente poucas vezes na vida, logo apesar das minhas semelhanças nada terminará em banho de sangue como no filme do Scorcese, fique tranquila.

***

Conheci a T naquele dia da festa, que fui devido a insistencia, estava muito deprimido havia várias semanas, tinha perdido muito peso

Foi estranho pq nos demos asustadoramente bem, tenho dificuldades para conversar e sempre tenho que fazer esforço para falar com mulheres, nunca é muito natural.

Acabei bebendo muito, não o fazia há bastante tempo, não lembrava de foto alguma, nem fazia idéia da existência daquilo, nunca permitiria tal exposição.

Porém foi tudo muito estranho para mim, acabei sumindo e sequer falei com ela novamente por mais de um mês. Ela é parecida comigo, não tem empatia com a maioria das pessoas, tem até uma síndrome que esqueci o nome, que a afasta das pessoas, nos damos muito bem, mas conto nos dedos as vezes que nos vimos pessoalmente. 

Vc está viajando nessa história do F. Não achei que vc estivesse incomodada e não sei como é entre as mulheres mas entre os homens isso não é visto como uma atitude muito certa, não sei também, ao menos entre as pessoas com quem eu me relaciono, mas posso estar enganado.

Ele com certeza sabe que namoravamos, eu sempre postava foto com vc, falava com vc, fazia declarações de amor pelo facebook, ele era amigo de ambos no facebook, duvido muito que não soubesse. Mas como disse no e-mail, fiquei reticente, aceitei a condição. É estranho ver esse tipo de coisa pq isso explicita o fim do nosso relacionamento, como disse não fico vendo suas redes, não tenho forças para tal, logo não estou acostumado com essas coisas.  Mas que fique claro que vc pode e deve relacionar-se com quem bem entender, mas acharia muito estranho te ver com algum colega ou algo parecido, ficaria muito desconfortável, nunca teria nada com alguém que te conhece por exemplo, mas isso é uma questão pessoal minha, vc faz o que bem entender, como vc disse não somos mais namorados, tristemente.
E como falei para vc um sem número de vezes no tempo em que estivemos juntos ninguém sabe de nada, eu não exponho minha vida para os outros, que dirá a sua. Nossa história é só nossa. 

Infelizmente tragédias afetam as pessoas drastricamente para o resto de suas vidas, elas seguem adiante mas traumas e cicatrizes ficam pra sempre.

Muito do que vc sentia em relação ao nosso namoro era fruto da sua estagnação, não se esforçava em mudar nada, por isso ficava magoado. Entendo que vc tinha muitos problemas que iam além do seu poder de controle, mas vc sabe que muitas coisas vc tinha sim o poder de mudar mas não o fazia e isso me devastava.

Fico triste que se sinta traída, te entendo, mas saiba que talvez isso seja supervalorizado, vc me conheceu profundamente, nunca escondi quem eu era, esse era apenas um detalhe de como cheguei lá, mas acho que o mais importante era quem eu era, o que houve para chegar a tal é segundo plano, mas entendo perfeitamente, sinto não saber lidar com isso e ter omitido para vc, pensei em falar inúmeras vezes, mas me acovardei, tive medo de te perder.

***

(sob estranha chuva forte e relâmpagos)

Há muito não me permitia contatos mais profundos com seus escritos.

Desde novo nunca fui afeito a diversas amizades, meu contato com outras pessoas geralmente resumia-se as mesmas de sempre, lembro-me como detestava a entrada de "novas crianças" nas brincadeiras na rua com meu irmão e primos (que eram meus vizinhos morando no apartamento de baixo), imagino que a religião seguida por minha mãe contribuiu para o fortalecimento desse traço, não era aconselhada a companhia de pagãos, ou seja quase todo mundo, não me dava bem com a maioria das outras crianças, me sentia mal, descer para jogar bola no campinho ao lado do meu prédio significava a possibilidade de outras crianças quererem jogar também, lembro dos embrulhos no estômago ao olhar o tal campo pela janela na iminência de enfrentar a descida até o outro lado do rio e a possível abordagem dos desconhecidos. Com a separação dos meus pais tornei-me um garoto triste com as coisas, chorava por motivos desconhecidos, lembro-me vagamente de uma ida ao psicólogo acompanhado pelos pais (sim, já fui a um também rs) e a pergunta feita por ele, "pq vc é/está triste?", respondida com choro e soluços, chegou-se a conclusão de que era pela separação dos progenitores  e encerram-se minhas sessões de terapia. Só aos 10 anos tive amigos na escola, principalmente T, foi meu primeiro amigo de verdade, conversávamos sobre tudo, meninas, a vida, problemas, coisas divertidas. Ainda assim houveram turbulências pq ele não era da minha religião, lembro-me de um dia decidir parar de falar com ele pq estava indo contra as leis de Deus e da bíblia.

No ano seguinte a turma mudou e me vi só novamente, foi um ano muito difícil, vi minhas idéias como indivíduo aflorarem e com elas iniciou-se a até hoje péssima relação com minha mãe, não me dava bem com ninguém da escola, nem do curso de inglês, era alvo de perseguição e chacotas de todos os tipos.
Acabei até repetindo de ano devido a falta de concentração e foco, mesmo com meu pai aparecendo na minha porta (coisa que nunca fazia) após o saída do resultado final das provas mostrando e afirmando sua decepção e vergonha (a escola era de amigos da maçonaria, na qual ele havia entrado pouco antes e claramente queria impressionar a todos em todos os aspectos), tenho certeza que o álcool ajudou-o a fazer todo aquele discurso perante a mim, mas calei-me e omiti os verdadeiros motivos do fracasso.
No mesmo - talvez por causa da solidão - descobri a arte, apaixonei-me por cinema, lia e assistia tudo a respeito, encontrara algo que me dava prazer, me levava para longe dos problemas e não carecia de outra pessoa, podia aproveitar só. E finalmente sentia real empatia por outras figuras humanas - ainda que ficcionais - os personagens solitários, andarilhos, que pensavam demais e quase sempre com algum tipo de distúrbio psicológico nos filmes americanos dos anos 70, principalmente o Travis Bickle de Taxi Driver, sem muito traquejo social, pensando e analisando tudo ao redor, sozinho, tentando ajudar os outros da sua própria maneira, nem sempre a mais correta.

Acho que encontro muitos ecos desse personagem até hoje, na minha personalidade adulta.

Raríssimas vezes consegui de fato me conectar com alguém, eram quase sempre todos com ideais que me enojavam.

Aos doze anos veio uma mudança radical, numa nova cidade, com novas pessoas, tenho a imagem clara, daquele menino parado em frente a porta fechada da sala de sua nova turma no primeiro dia de aula, dando um profundo suspiro com a mão na maçaneta da porta, tomando fôlego para enfrentar outra fase de testes e provações, vários problemas continuaram, mas ao menos fiz amizades duradouras pela primeira vez na vida, A, A, "D" e posteriormente M e M, seriam meus únicos amigos durante os vários anos que viriam. 

Paralelamente minha casa transformava-se num ambiente de constante tortura psicológica da qual eu procurava manter-me o máximo de tempo afastado. Na mesma época passei a nutrir um imenso desejo de constituir família no futuro. Ansiava pela paternidade e o matrimônio, possível reflexo do rompimento familiar ainda na infância, o que me leva diretamente ao 29 de setembro de 2007, dia em que iniciamos nosso relacionamento e comecei enfim a vida pela qual tanto esperei, de uma só vez não estava mais só e encontrava alguém que não me cansava com o tempo, que admirava, a qual adorava ouvir as idéias e visões do mundo, que era minha melhor amiga, confidente, companheira e a quem amo amava intensa e verdadeiramente desde então, apesar do nosso término há pouco mais de um ano. No primeiro mês não conseguia cortar o "contato", sempre dava um jeito de olhar suas redes sociais que eram suas janelas para o mundo, apesar de sentir o mesmo embrulho no estômago antes das idas ao campinho quando menino, insistia e acompanhar sua vida mesmo de longe, mesmo entre lágrimas, até o dia quando li que vc "precisava de uma festa", apesar de hoje enxergar a normalidade daquela afirmação, no meu momento de dor absoluta na época aquilo me atingiu profundamente, percebi que era hora de me desligar do seu dia-a-dia e tentar seguir em frente, apenas consegui a primeira apesar de ter fraquejado  visitado novamente uma ou duas vezes após isso.

Passei os vários meses seguintes em tristeza profunda, parei de tocar, tive de adiar a conclusão das gravações do meu disco, por razões óbvias não consegui lidar com tudo aquilo naquele momento. Encontrei um pouco de alívio nas manhãs na academia, onde conseguia ficar sozinho com a cabeça vazia por um par de horas de segunda a sábado (domingo quando a mesma fechava era sempre um problema). Fora isso chorava. Chorava muito. No trabalho, na academia, em todo trajeto mais longo de ônibus, no caminho da portaria até minha casa, a cada vez que via uma criança com idade próxima as que convivi com, o ralo da pia do meu banheiro viu muito mais água vinda de mim do que da torneira, mesmo lugar onde meu meu pai veio me buscar inúmeras vezes, pois de lá não saia, mas foi obrigado a acompanhar de longe meu sofrimento pois não entendia minhas razões e por isso havia optado por não compartilha-las. Não conseguia pensar em mais nada, remoía nossas discussões o tempo inteiro, inteiro, inteiro. Meses depois cheguei a conversar isso com um amigo, não trouxe solução, mas me senti amparado de alguma forma pela primeira vez desde então, senti finalmente alguma melhora no meu sofrimento. Mas nada aplacava a dor do cotidiano. E como foi dolorido entrar sozinho pela primeira vez na minha própria casa (que divido com o mesmo amigo), o dia que havia planejado para ser apenas nosso e da    foi feito só, não havia   correndo pelo corredor, explorando sua nova moradia, nem vc para entrar comigo no que seria nosso quarto e chorar de felicidade por em enfim realizarmos nosso sonho. Chorei de tristeza, compulsivamente, por dias, em todos os cômodos, "aproveitando" a ausência temporária inicial do futuro companheiro de casa que viajara na época.

Ao menos a nova companhia e rotina diárias traziam alguma distração, não sei se teria conseguido sozinho no quarta da casa de meu pai. Um par de meses depois voltei-me ao disco e consegui trabalhar com música novamente, porém as gravações foram muito difíceis, tive de parar várias vezes devido a emoção, mas precisava seguir em frente e registrar para sempre aquela época da minha vida. Numa das voltas para casa após trabalhar com sonorização em uma apresentação do C, desci do ônibus me deparei com sua amiga D, rapidamente meu cérebro associou ao show da      que ocorria paralelamente ao show que fiz, olhei para o lado e lá estava vc, apesar de já ter te visto no dia do show do       no circo voador (na hora em que vc entrou na casa, numa daquelas coincidências estranhas), naquela ocasião ambos desviamos o olhar imediatamente, confesso que o fato de estar com colegas ajudou a tentar ignoram o fato. Porém fora diferente dessa vez, fiquei paralisado em frente o ponto onde vcs estavam e fui tomado por uma dor fortíssima no corpo. Foi necessário um esforço muito grande para seguir adiante em direção ao ponto da minha condução. Mas a falta de notícias da    falou mais alto e fui perguntar sobre ela, não consegui falar direito e aconteceu aquilo.

Mais choro compulsivo na volta para casa e madrugada adentro.

Posteriormente vc me mandou um e-mail sobre o ocorrido, num tom conciliatório que me surpreendeu, porém não estava nem de longe pronto para o sugerido por vc.

Veio o disco finalmente e uma colega no trabalho me mostrou um resenha que havia saído da qual não tina tomado conhecimento. "... e termina em saudade.", aqui vc me atingiu fortemente tive que me ausentar da loja pelo resto do dia

O que me trás ao dia de hoje, após ver no e-mail que voltou a seguir a banda no twitter e após voltarmos a ter uma conversa depois de tanto tempo, cedi e olhei seu perfil na rede, resignei-me ao te ver novamente recebendo cantadas baratas do tal jornalista que me conhece e por fim acabei no seu blog que não via desde o término, que ainda leva o nome do trecho roubado da Clarisse e que tomei posse para te oferecer em forma de música no início do nosso namoro.

Nele me vi ao seu lado novamente, acompanhando fragmentos da sua vida.

Chorei de felicidade ao vê-la realizando o sonho de conhecer pessoalmente aquela a quem vc tanto admira e que fez parte da sua vida, de tristeza por não poder te amparar na despedida de sua queria "vó", pela perda ao ver as fotos das letras das músicas que fiz com tanto amor para vc, de orgulho ao ver os relatos das suas realizações profissionais e por não estar presente em cada uma das coisas que passou durante o ano descritas no recente texto sobre a virada.

E mesmo sem acreditar nessas coisas me pergunto (presunçosamente) se isso seria uma espécie de provação. Pq é um sofrimento que não tem medida, não consigo colocar em palavras. Por que? Por que? Não tenho respostas e talvez vc também não.

Não sei o que quero com isso, ou se fez algum sentido. Mas precisava desabafar com vc.

(segue a chuva)


Entre e 28/12/2012 E 24/01/2013. Apenas os dois primeiros e o último foram reproduzidos integralmente. Cada carta foi separada por três asteriscos. Nem sempre na ordem cronológica.

My Instagram