Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.
Clarissa Pinkola Estés
Originalmente publicado em 1992, o livro da analista junguiana e contadora de histórias Clarissa Pinkóla Estes ainda é referência em estudos sobre a feminilidade, com base no que ela chamou do arquétipo da Mulher Selvagem. Em 20 anos de pesquisa, Clarissa reuniu mitos, contos de fadas, lendas do folclore e outras histórias e observou as semelhanças entre as mulheres e os lobos. Acreditando que o desenvolvimento da civilização, baseado em mais de cinco mil anos de patriarcado, domesticaram a alma feminina e sufocaram os instintos das mulheres, o trabalho da pesquisadora é uma tentativa ambiciosa de "identificar a essência da alma feminina, sua psique instintiva mais profunda e propor o resgate desse passado longínquo, como forma de atingir a verdadeira libertação", como resume a quarta capa.
Até aqui, li a introdução, em que a autora procura explicar o que é a Mulher Selvagem, como o afastamento dos instintos naturais têm deixado as mulheres doentes e como o resgate das histórias é fundamental para a cura e o reencontro, e o primeiro capítulo, intitulado "O uivo: A ressurreição da Mulher Selvagem", em que é explicada a lenda da Mulher-Loba (La Loba), que seria uma espécie de "caracterização" da Mulher Selvagem. Na histórias, a mulher é sempre uma velha gorda que recolhe ossos de lobos no deserto e, quando consegue reunir um esqueleto completo, decide a música que irá cantar e canta, fazendo com que os ossos passem a ser derramados por carne e pele, fazendo com que o lobo retorne à vida e em sua corrida para a liberdade, se transforme em mulher. A analista explica a simbologia:
Na história de La Loba, a velha no deserto é uma recolhedora de ossos. Na simbologia arquetípica, os ossos representam a força indestrutível. Eles não se prestam a uma fácil redução. Por sua estrutura, é difícil queimá-los e praticamente impossível pulverizá-los. Nos mitos e histórias, eles representam a alma/espírito indestrutível. Sabemos que a alma/espírito pode ser ferida, até mesmo mutilada, mas é quase impossível eliminá-la. (p. 49)
As metáforas dessa história exemplificam o processo completo para devolver a mulher aos seus plenos sentidos selvagens instintivos. Dentro de nós, vive a velha que recolhe os ossos.(...)Dentro de nós está o potencial de readquirir nossa carne, como a criatura que um dia fomos. Dentro de nós estão os ossos para que nos modifiquemos bem como ao nosso mundo. (p. 50)Ela ainda usa a parábola dos quatro rabinos para alertar para os perigos de não se estar suficientemente preparado para adentrar no terreno deste estado psíquico. Na história, os quatro homens são levados ao Paraíso por um anjo, Em seu retorno, um ficou louco e raivoso, o outro cínico e descrente, o terceiro se tornou um pregador fanático e o quarto, que era poeta, resolveu fazer arte. Foi o que conseguiu viver melhor.
Jung adverte em seu magnífico ensaio "A função transcendente" para o fato de algumas pessoas, em busca do Self, exagerarem na estetização da experiência de Deus ou do Self; de algumas pessoas subestimarem essa experiência, de algumas a supervalorizarem e de outras que, não estando preparadas para ela, saem feridas. (p. 46-47)
O resumo de tudo isso está em buscar dentro de si, através da meditação, da criatividade e das artes o caminho para a restauração do próprio eu. "A grande tarefa diante de nós consiste em aprender a compreender à nossa volta e dentro de nós exatamente o que deve viver e o que deve morrer".
A escrita de Clarissa é um pouco floreada demais e cheia de efeitos dramáticos às vezes desnecessários, mas isso não enfraquece o conteúdo (um tanto autoajuda, é verdade) do que é dito até aqui.
Alguns trechos da introdução:
"Minha própria geração, posterior à Segunda Guerra Mundial, cresceu numa época em que as mulheres eram infantilizadas e tratadas como propriedade. (...) Embora o que escrevessem fosse desautorizado, elas insistiam assim mesmo. Embora o que pintassem não recebesse reconhecimento, nutria a alma do mesmo jeito. As mulheres tinham de implorar pelos instrumentos e pelo espaço necessário às suas artes; e, se nenhum se apresentasse, elas abriam espaço em árvores, cavernas, bosques e armários" (p.17)
"A psicologia tradicional é muitas vezes lacônica ou totalmente omissa quanto a questões mais profundas importantes para as mulheres: o aspecto arquetípico, o intuitivo, o sexual e o cíclico, as idades das mulheres, o jeito de ser mulher, a sabedoria da mulher, seu fogo criador." (p. 18)
"Não importa a cultura pela qual a mulher seja influenciada, ela compreende as palavras mulher e selvagem intuitivamente." (p.19)
"Portanto, o termo selvagem neste contexto não é usado em seu atual sentido pejorativo de algo fora do controle, mas em seu sentido original, de viver uma vida natural, uma vida em que a criatura tenha uma integridade inata e limites saudáveis. Essas palavras, mulher e selvagem, fazem com que as mulheres se lembrem de quem são e do que representam. Elas criam uma imagem para descrever a força que sustenta todas as fêmeas." (p. 21)
"Mesmo a mulher mais reprimida tem uma vida secreta, com pensamentos e sentimentos ocultos que são exuberantes e selvagens, ou seja, naturais. (...) A verdade é que houve pouca descrição dos hábitos e das vidas psicológicas de mulheres talentosas, criativas, brilhantes. Muito foi escrito, porém, a respeito das fraquezas e defeitos dos seres humanos em geral e das mulheres em particular." (p. 23)
"Quais os sintomas associados aos sentimentos de um relacionamento interrompido com a força selvagem da psique? (...) extraordinária aridez, fadiga, fragilidade, depressão, confusão, de estar amordaçada, calada à força, desestimulada. (...) Sentir-se impotente, insegura, hesitante, bloqueada, incapaz de realizações, entregando a própria criatividade para os outros, escolhendo parceiros, empregos ou amizades que lhe esgotam a energia, sofrendo por viver em desacordo com os próprios ciclos, superprotetora de si mesma, inerte, inconstante, vacilante, incapaz de regular a própria marcha ou de fixar limites.
"Não conseguir insistir no seu próprio andamento, preocupar-se em demasia com a opinião alheia, afastar-se de seu Deus ou dos seus deuses, isolar-se da sua própria revitalização, deixar-se envolver exageradamente na domesticidade, no intelectualismo, no trabalho ou na inércia, porque é esse o lugar mais seguro para quem perdeu os próprios instintos." (p. 24)
"E então, o que é a Mulher Selvagem? Do ponto de vista da psicologia arquetípica, bem como pela tradição das contadoras de histórias, é a alma feminina. No entanto, ela é mais do que isso. Ela é a origem do feminino." (p.26)
"Às vezes, várias camadas culturais superpostas desorganizam os esqueletos das histórias. Por exemplo, no caso dos irmãos Grimm(...), existe forte suspeita de que os informantes(...)daquela época às vezes 'purificavam' as histórias em consideração aos irmãos religiosos. Também suspeitamos de que os famosos irmãos tenham continuado a tradição de cobrir antigos símbolos pagãos com outros cristãos, de tal modo que uma velha curandeira num conto passava a ser uma bruxa perversa; um espírito transformava-se num anjo; um véu ou coifa iniciática tornava-se um lenço(...). Os elementos sexuais eram omitidos. Animais e criaturas prestimosas eram transformados em demônios e espíritos do mal. (...) Da maioria das coletâneas de contos de fadas e mitos hoje existentes foi expurgado tudo o que fosse escatológico, sexual, perverso, pré-cristão, feminino, iniciático, ou que se relacionasse com as deusas; que representasse a cura para vários males psicológicos e que desse orientação para alcançar êxtases espirituais." (p. 29-30)
Pode soar um pouco místico e hippie demais, mas conseguiu minha atenção até aqui.
correndo com lobos
— Pitty (@pittyleone) July 29, 2013
Em tempo:
A música "Um Leão", presente no álbum SETEVIDAS, de Pitty, me remete bastante a essa história de Mulher Selvagem. Pelo o que ela disse para mim na matéria com o faixa a faixa do disco (leia aqui), acredito que haja influência:
04. Um Leão
Sentei com o violão no colo na intenção de fazer uma música dançante. E saiu esse 5/4. Podem até dizer que ritmo composto não é necessariamente um convite à dança, mas eu discordo. Acho que estava numa fase de reconhecer e tentar traduzir nosso lado animal e instintivo, porque essa letra também tem a ver com isso. Pro refrão eu tinha uma imagem: a natureza da relação de dependência, confiança e um certo sadomasoquismo entre um atirador de facas e sua assistente. E isso aplicado ao contexto de quaisquer outras relações na nossa vida cotidiana.
