É instigante se deparar com um livro de fantasia voltado para jovens que mistura tecnologia, mitologia oriental, religião islâmica e política escrito por uma premiada autora de quadrinhos americana, já que se são poucas as escritoras de fantasia que ganham notoriedade, menos ainda é a oferta de livros escritos por mulheres que fogem do senso comum ocidental em uma trama que se passa no Golfo Pérsico e trata de islamismo. E não pense que G. Willow Wilson o faz em nome de certo exotismo ao tentar assumir o lugar do outro: a autora é casada com um egípicio, mantém um apartamento no Cairo e se converteu-se ao islã - inclusive lançou um livro de memórias intitulado A Leitora do Alcorão, em que fala sobre sua conversão. Mergulhada na cultura oriental, Willow apresenta seu primeiro romance, Alif, o Invisível, sobre um jovem e amoral hacker que cria um código capaz de identificar uma pessoa através do seu padrão de digitação unicamente para poder espionar as ações de sua ex-namorada. Como suas atividades enquanto hacker o levaram a ajudar grupos diversos - de comunistas ao Estado Islâmico, passando por feministas e até mesmo pornógrafos -- em nome da liberdade de expressão, Alif acaba sendo localizado pelo governo e se torna um foragido. Mas a situação fica um pouco mais complicada que isso: o hacker recebe a incubência de proteger um livro misterioso chamado Alf Yeom ou O livro dos mil e um dias e precisa descobrir do que realmente se trata a publicação e porque não querem caia nas mãos erradas. Para isso, o rapaz conta com a companhia de sua vizinha e amiga de infância Dina e a ajuda de seres mágicos e acaba se embrenhando em uma longa fuga que vai envolver uma americana convertida ao islã, um xeque idoso da Al Basheera, outros hackers, a realeza, um governo autoritário, uma prisão de segurança máxima, seres mitológicos, um mundo invisível a olhos humanos, e desaguar na Primavera Árabe. E se tudo isso parece muito confuso, pode apostar que é mesmo.
Com tantos elementos e personagens no enredo, fica fácil imaginar que a autora corria um grande risco de se perder e G. Willow Wilson se perde. Embora consiga amarrar as pontas das subtramas que apresenta, muitas situações acontecem do nada, de uma hora para a outra, de maneira a resolver os problemas criados na trama, mas nunca muito bem justificados ou trabalhados. Além disso, muito tempo é gasto em cenas que não têm função e personagens são introduzidos e ganham importância para logo depois serem abandonados e não ouvirmos mais falar deles e ainda que Willow seja hábil na composição dos personagens, permitindo que o leitor se importe com eles, a função de quase todos é, em última análise, salvar a pele de Alif nos momentos em que tudo parece perdido -- e estes são vários, já que a autora cria seguidas tensões que se resolvem de maneira conveniente, para logo passar para a próxima.
Ainda a respeito dos personagens, vale mencionar que a americana convertida ao islã é desnecessária e parece deslocada todo o tempo, sendo apenas uma maneira forçada de a própria autora se incluir na história -- e a forma como a personagem, que nem mesmo ganha um nome, sendo chamada somente de "a convertida", o que soa quase pejorativo, aparece na trama é uma amostra da confusão armada pela autora: em um primeiro momento, a convertida é amiga e interesse amoroso do perigoso Vikram, ser mágico que é convencido a ajudar Alif. Ela não acredita que ele seja mesmo um ser mágico e sua função é jogar alguma luz a respeito do livro mágico que o hacker carrega. Mais à frente, vamos descobrir que Vikram também conhece outro ser mágico que vive no mundo invisível, Sakina, que sabe tudo sobre o livro e auxilia muito mais Alif a esse respeito que a convertida. Porém, a convertida agora vai desempenhar um papel mais importante ao engravidar (como a autora, que teve sua filha durante a Primavera Árabe) de Vikram e ser protegida por um gênio da lâmpada, além de conseguir ajuda para Alif por sua ligação com o ser mágico. E se isso parece um spoiler, não é totalmente verdade: é apenas mais uma amostra do malabarismo que Willow faz para conseguir tirar Alif de enrascadas e, ao mesmo tempo, incluir informação desnecessária demais. Corte todo o arco da convertida e o livro não perderia nada com isso.
Durante a leitura de Alif é possível perceber um certo tempero de outros livros de fantasia, mas a fonte da qual Willow bebeu para a sua trama de fantasia envolvendo mitos e religião é mesmo As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis e, intencionalmente ou não, é possível encontrar alguns fatos análogos, principalmente entre Vikram e o leão Aslam, o mundo visível/invisível de Alif e o mundo real/Nárnia nas Crônicas e toda a questão da fé.
A autora apresenta boas reflexões religiosas e políticas e não poupa o leitor de tratar de maneira realista e direta temas adultos como perseguição política, violência, tortura, linchamento, diferença de classes, sexo e a situação das mulheres, o que provavelmente irá agradar os leitores mais jovens. Mas apesar de se mostrar atenta às questões femininas (a certa altura, Alif reflete "Era preciso muito poucompara destruir uma mulher."), decepciona um pouco que a mesma criadora da Ms. Marvel -- a primeira super-heroína muçulmana do estúdio -- tenha se mantido no local seguro da literatura, aquele em que autoras assinam com suas iniciais para não afastar o público masculino e escrevem sobre um protagonista masculino dedicado a grandes feitos, enquanto as personagens femininas, embora cheias de qualidades admiráveis, existam em função dos homens, seus problemas e tais feitos.
Tratando se mitos e culturas diferentes das que o jovem leitor provavelmente está acostumado, em Alif, o Invisível G. Willow Wilson peca pelo excesso e deixa a impressão de que seus temas e personagens poderiam ter sido melhor trabalhados se se tratasse de uma série, por exemplo. É notável que Willow é uma boa escritora, perspicaz, reflexiva e cheia de boas ideias; é uma pena que a execução tenha deixado a desejar.
"Parecia absurdo que tentando consertar algumas coisas simples ele pudesse cometer erros de cálculo tão astronômicos. Uma menina que ele amava decidiu que não o amava – pelo menos, não o bastante. Como abordar um problema desses? Certamente não com trocas clandestinas de livros, vigilâncias de computador e buscando a ajuda dos djins."
Alif, o Invisível
G. Willow Wilson
Tradução de Ryta Vinagre
352 páginas
Editora Rocco/Fantástica

