Doze lendas brasileiras - Como nasceram as estrelas, Clarice Lispector

Sereia Yara, em ilustração de Suryara

Como nasceram as estrelas surgiu de uma encomenda feita pela distribuidora de brinquedos Estrela à Clarice Lispector para um calendário. Acabou se transformando em um belo livro, que ficou ainda mais bonito com as ilustrações lúdicas, cheias de cores, vida e movimento da talentosa Suryara, para a nova edição em capa dura, lançada no ano passado pela editora Rocco.

As histórias, uma para cada mês do ano, são recriações de histórias e lendas que, vindas de diversas culturas diferentes, fazem parte do imaginário brasileiro. Estão lá as festas no céu e na selva, as lendas da sereia Yara, do Saci e do Curupira, Malazarte, o Negrinho do pastoreio, entre outras, recontadas da maneira Clariceana de escrever histórias infantis: com um narrador opinativo, que conversa com o leitor de maneiras muitas vezes bem humorada, sem jamais subestimar a inteligência da criança ou se furtar a abordar determinados assuntos que hoje talvez fossem considerados inadequados para um certo grupo de pais superprotetores. Em "Do que eu tenho medo", que aborda a lenda do Saci Pererê, a história gira em torno das travessuras que a personagem apronta quando lhe negam fumo, mas a narradora dá o troco: "Mas uma vez eu me vinguei. Quando ele me pediu fumo, dei. Mas misturei ao tabaco...um pouco de pólvora (não demais porque eu não queria matá-lo). E quando ele tirou a primeira tragada, foi aquele estrondo", conta ela. Em "O Negrinho do pastoreio", ela não suaviza a situação, contando coisas como "O homem ruim tinha raiva até do sono do Negrinho e mandou um outro escravo dar chicotadas no garoto e colocá-lo junto de um formigueiro, só para chatear o menino". Como já comentei antes, é sempre importante abordar certos temas com as crianças de maneira honesta e direta, e nada melhor que a boa literatura como ferramenta para enriquecer esse diálogo, fugindo do lugar-comum dos sermões e do moralismo ou do silêncio emburrecedor.

Cada conto do livro ocupa quatro páginas, de maneira que pode ser uma boa porta de entrada para apresentar lendas folclóricas de maneira sucinta e instigante para as crianças até 12 anos, que vão reconhecer ali as personagens abordadas em aula sem o rótulo muitas vezes desinteressante do "educativo obrigatório". É um oportuno combo duplo: uma bela porta de entrada para histórias já esquecidas do interior do Brasil e também para a literatura de Clarice Lispector.

Uma lenda é verossímil? Sim, porque assim o povo quer que seja. De pai para filho, de mãe para crianças, é transmitida uma fabulação de maravilhas que estão atrás da História. Como ao redor de uma fogueira em noite escura, conta-se em voz sussurrante um ao outro o que, se não aconteceu, poderia muito bem ter acontecido nesse imaginoso mundo de Deus. E assim oralmente se escreve uma literatura plena e suculenta, em que o espírito secreto de todo um povo vira criança e brinca de “faz de conta”. Brinca? Não, é muito a sério. Pois o que é que pode mais do que um sonho?
A começar por nós mesmos que todas as noites no travesseiro vivemos de uma realidade quase intraduzível por palavras, mas que ninguém pode negar, realidade livre, sem freios e que nos pertence quase mais do que o dia a dia que vivemos. O dia a dia que se torna às vezes mais pobre que o sonho.
O grande sonho acordado de um povo é um símbolo de seu vigor íntimo. As lendas são uma potência. Elas procuram nos transmitir alguma coisa importante que se passa na zona penumbrosa e criativa popular. E o que não existe passa a existir por força mesmo de seu encantatório enredo. [A força do sonho]

Doze lendas brasileiras - Como nasceram as estrelas
Clarice Lispector
Ilustrações de Suryara
60 páginas
Editora Rocco/Rocco Pequenos Leitores
 

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