Há uma marca do
slogan feminista “o pessoal é político” perpassando os seus romances, você se
considera feminista? Como você descreveria a diferença entre o feminismo
norte-americano e o italiano?
Eu devo tanto a esse slogan. A partir dele eu aprendi que
até as preocupações mais íntimas, aquelas que são mais inadequadas à esfera
pública, são influenciadas pela política; através daquela coisa complicada,
perversa, irredutível que é o poder e suas aplicações. São meras palavras, mas
o feliz poder de síntese delas não deve jamais ser negligenciado. Elas mostram
do que somos feitas, o risco de subserviência a qual estamos expostas, o tipo
de olhar deliberadamente insolente que devemos dirigir ao mundo e a nós mesmas.
Mas “o pessoal é político” é também um mote importante para a literatura.
Deveria ser um conceito essencial para qualquer um que queira escrever.
Sobre a definição de “feminista”, eu não sei. Eu amei e amo
o feminismo porque nos Estados Unidos, na Itália e em muitas outras partes do
mundo ele conseguiu provocar um pensamento complexo. Eu cresci com a ideia de
que se eu não me deixasse ser absorvida ao máximo possível pelo mundo dos
homens eminentemente capazes, se eu não aprendesse com a excelência cultural
deles, se eu não passasse de maneira brilhante em todas as provas que o mundo
me exigia, então teria sido melhor nem mesmo ter existido. E aí eu li livros
que exaltavam a diferença feminina e meu pensamento se virou de cabeça pra
baixo. Percebi que devia fazer exatamente o oposto: eu deveria começar comigo
mesma e com as minhas relações com outras mulheres – essa é outra fórmula essencial
– se eu realmente quisesse tomar uma forma. Hoje em dia eu leio tudo que é publicado pelo chamado pensamento pós-feminista. Ele tem me ajudado a olhar de maneira
crítica para o mundo, para nós, para nossos corpos, nossa subjetividade. Além
disso, também ativa minha imaginação, me força a refletir sobre o uso da
literatura. Vou dar os nomes de algumas mulheres a quem eu devo muito:
Firestone, Lonzi, Irigaray, Muraro, Caverero, Gagliasso, Haraway, Butler,
Braidotti.
Em resumo, eu sou uma apaixonada leitora do pensamento
feminista. Mesmo assim, não me considero uma militante; acredito que eu seja
incapaz de militar. Nossas mentes estão povoadas por uma mistura de coisas bem
heterogêneas, fragmentos de épocas, intenções conflituosas que coabitam, se chocando continuamente umas nas outras. Como
escritora eu prefiro confrontar essa abundância exagerada, ainda que isso seja
arriscado e confuso, do que perceber que estou em segurança dentro de um
esquema que, justamente por ser um esquema, sempre acaba deixando de fora muita
coisa da realidade, já que ela incomoda. Eu olho em volta. Eu comparo quem eu
era, quem me tornei, quem minhas amigas se tornaram, a clareza e a confusão, os
fracassos, os saltos à frente. Garotas como as minhas filhas parecem
convencidas de que a liberdade que elas herdaram é parte do estado natural das
coisas e não a superação temporária de uma longa batalha que ainda está em
andamento, e em que tudo pode ser perdido de repente. No que se refere ao mundo
masculino, eu percebi, os colegas tendem ou ignorar ou revisar de maneira
educadamente zombeteira o trabalho produzido por mulheres no campo literário,
filosófico, e em todas as outras categorias. Dito isso, há também mulheres
jovens bem duronas, homens que tentam se manter informados,
entender e ordenar as incontáveis contradições.
Resumindo, batalhas culturais são longas, cheias de contradições, e enquanto elas estão ocorrendo é difícil saber o que é útil e o que não é. Eu prefiro pensar que estou em um nó intrincado; os nós me fascinam. É necessário recontar o imbróglio da existência, tanto no que diz respeito à vida de indivíduos quanto a de gerações. Procurar desemaranhar as coisas é útil, mas a literatura é feita de emaranhados.
Vanity Fair, agosto de 2015
Resumindo, batalhas culturais são longas, cheias de contradições, e enquanto elas estão ocorrendo é difícil saber o que é útil e o que não é. Eu prefiro pensar que estou em um nó intrincado; os nós me fascinam. É necessário recontar o imbróglio da existência, tanto no que diz respeito à vida de indivíduos quanto a de gerações. Procurar desemaranhar as coisas é útil, mas a literatura é feita de emaranhados.
Vanity Fair, agosto de 2015

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