A Bela e a Adormecida, Neil Gaiman e Chris Riddell


Uma rainha que, às vésperas de seu casamento, entra em crise existencial sobre seu futuro na condição de mulher: "Ela ficou se perguntando como se sentiria na condição de esposa. Seria o fim de sua vida, concluiu, se a vida fosse um tempo de escolhas. Em uma semana não teria mais o que escolher. Reinaria sobre seu povo. Teria filhos. Talvez morresse durante o parto, talvez de velhice, ou em batalha. Mas o caminho para a sua morte, a cada batida de seu coração, seria inevitável", escreve melancolicamente Neil Gaiman em A Bela e a Adormecida, livro ilustrado em que o autor inglês reimagina o conto d'A Bela Adormecida em uma união com  Branca de Neve e os sete anões, de uma maneira original: aqui, temos ao mesmo tempo a lenda da menina que dorme profundamente durante cem anos e encontrando uma Branca de Neve após o "felizes para sempre". Ou quase.

A sacada de Gaiman é abrir mão de príncipes salvadores e transformar Branca de Neve (aqui, uma rainha cujo nome não é mencionado) na cavaleira que sai em uma expedição ao lado de três amigos anões para investigar o mistério da sonolência profunda que está acometendo os habitantes do reino vizinho e acaba encontrando o Castelo da Floresta de Acaire, de onde vem a magia negra.

Abrindo mão do seu casamento com um mero príncipe qualquer, a rainha parece estar indo também ao encontro de buscar um sentido para a própria vida que vá além de casar, ter filhos e morrer. Pelo caminho, o grupo se depara com muitas cenas estranhas e situações sinistras: ogros adormecidos, teias de aranhas por toda parte - inclusive as aranhas, comuns nas histórias do autor, são das poucas criaturas que permanecem imunes ao encantamento -, e a presença da rainha perturba o feitiço de tal forma que os adormecidos todos se transformam em sonâmbulos repetindo "mamãe. é meu aniversário!". Quanto mais o grupo avança, mais os sonâmbulos tentam agarrá-los mas, no estado em que estão, não conseguem chegar nem perto.



Enquanto isso, somos apresentados aos personagens que habitam o castelo: uma jovem de cabelos dourados que dorme profundamente e uma velha ressentida, descrita de forma sinistra: "cabelo cinza raiado de branco e tão ralo que o couro cabeludo ficava à mostra. Ela coxeada enraivecida pelo palácio, apoiada em sua bengala, como se movida por ódio e nada mais, batendo portas e falando sozinha enquanto andava."

Eis que a pequena trupe liderada por Vossa Majestade consegue entrar no castelo e render a velha. Na tentativa de acordar a bela menina e quebrar o encanto, a rainha faz a única coisa que pode fazer: dá o beijo. Mas acaba descobrindo que as não apenas não saem como o planejado, como também não são o que aparentam.

Reafirmando sua ótima mão para os plot twists, Gaiman não faz uso do recurso apenas com o objetivo da surpresa por si mesma, mas como uma forma de brincar com os estereótipos dos contos de fadas, para reinterpretá-los de uma maneira moderna e alinhada com o pensamento progressista de nossa época. Diferente do que fez em João & Maria, onde apenas reconta a mesma fábula com suas próprias palavras, sem trazer nada de novo, em A Bela e a Adormecida Gaiman se recusa a contar uma história de amor e traz uma outra, sobre determinação e sobre a coragem de não aceitar o destino imposto e fazer as próprias escolhas.

"Existem escolhas, pensou ela quando já estava sentada ali por algum tempo. Existem sempre escolhas. Ela fez uma."

E como se não bastasse, as ilustrações de Chris Riddell são verdadeiras obras de arte: os desenhos ganham movimentos com as diversas linhas sinuosas, e são tantos detalhes que exigem que o leitor pare e contemple com calma o que ele nos apresenta. Usando o preto, o branco e o dourado, Riddell consegue transformar motivos grotescos em ilustrações estonteantes e elegantes. Coisa fina.


A Bela e a Adormecida
Neil Gaiman
Ilustrado por Chris Riddell
Tradução de Renata Pettengill
70 páginas
Editora Rocco/Rocco Jovens Leitores

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