O texto dessa semana faz uma relação entre o resgate da memória de mulheres que foram apagadas pela História - através do necessário site As Mina na História -, e o sexismo que não permite que mulheres sejam ordenadas dentro da Igreja: ainda estamos para ver a mulher que vai fazer essa História.
Pra ler lá no blog do Momento Lifetime, clicando aqui, ou acompanhando abaixo:
Você
conhece o projeto As Mina na História? Se trata de um site feminista criado
em 2015 com o objetivo de “mudar a memória coletiva, fazendo uma releitura da
História e mostrando mulheres que foram revolucionárias mas acabaram sendo
apagadas e minimizadas”
Partindo
da máxima de Virginia Woolf que afirma que durante muito tempo na História o
“anônimo” na verdade era uma mulher, a iniciativa procura resgatar os feitos de
mulheres que algumas vezes foram completamente desprezadas dentro dos cânones
ocidentais e, em outras, relegadas a um papel menor de par romântico ou musas.
Uma
delas é a monja budista Maria das Dores Pereira da Silva. Nascida em 1906 no
Rio de Janeiro, Maria das Dores se formou em Medicina e Direito antes de se
tornar a primeira monja budista brasileira em 1969 e adotar o nome Tenko
Shuei-Ni. Como monja, Tenko passou a viver em São Paulo, esclarecendo o Budismo
para aqueles que a buscavam até a sua morte, no final dos anos 80.
Cito
aqui a memória de Tenko Shuei-Ni pelo seguinte: se há pouco material e pouco
espaço para mulheres cientistas, filósofas, músicas eruditas, políticas e etc.,
nas posições de destaque de grandes religiões patriarcais como Catolicismo,
Islamismo, Judaísmo, as mulheres são inexistentes.
Ainda
que hoje haja uma cobrança a respeito do posicionamento da Igreja Católica
sobre uma possível ordenação de mulheres padres em um futuro distante, a
resistência é muito forte – e ela vem não apenas do clero, mas também dos
fiéis. Para exemplificar, nos comentários deste artigo é possível ver mulheres dizendo que não
aceitariam uma missa celebrada por uma mulher e inclusive afirmações como
“Satanás não desiste de tentar a Igreja Santa de Cristo”. Eu sei, não se deve
nunca ler os comentários.
O
teólogo italiano Paolo Ricca, no artigo “Uma Igreja masculina”, comenta que, historicamente, há pelo menos duas grandes razões para a
Igreja ter rejeitado a participação de mulheres:
“A Grande Igreja, que se propunha a combater as heresias gnóstica e montanista, que reconheciam à mulher um papel importante, devia necessariamente marginalizar a mulher, justamente porque o gnosticismo e o montanismo a valorizavam.A segunda razão é o peso de algumas tradições que remontam em parte à Bíblia, em parte à cultura greco-romana, em parte à filosofia, que desprezavam a mulher, considerando-a espiritual e moralmente inferior ao homem, não idônea para revestir qualquer responsabilidade ou ministério de tipo eclesiástico.”
Segundo
o autor, a visão negativa da mulher enquanto um perigo para o homem presente na
Bíblia foi reforçada no imaginário cristão devido à herança de antigos tabus
judeus “que viam toda a esfera da sexualidade como algo sujo e pecaminoso, e a
mulher, como aquela que encarna a sexualidade”. É a partir daí que surge a
exaltação da virgindade.
“Mas há mais. Qual é a culpa da mulher? Ser um polo de atração para o homem. Como a mulher que o homem deseja é bela, a culpa da mulher é de ser bela. Todas as mulheres são belas porque todas são desejadas por alguém. Então, as mulheres têm a própria culpa de serem mulheres, ou seja, de serem atraentes, de despertar o desejo, não só do homem, mas até dos anjos”, escreve ele.
Durante
a reforma protestante, dois grupos de mulheres emergiram nas igrejas
protestantes: as mártires e as pregadoras. Dos 664 mártires da fé evangélica,
56 são mulheres. Já as pregadoras, seriam as jovens mulheres de origens simples
que passaram a pregar por conta própria quando os pastores protestantes foram
perseguidos, presos ou exilados na França do século XVII. Ambos grupos tratam
de mulheres sobre as quais o público em geral não sabe quase nada.
Voltando
ao sexismo na Igreja Católica, a teóloga Serena Noceti
afirma que
“a referência exclusiva à mulher esposa e mãe ainda é uma matriz
interpretativa, enquanto a sua palavra raramente é reconhecida como de
autoridade: em traços gerais, a teologia continua sendo masculina e clerical,
com uma linguagem androcêntrica, mesmo que cresça em quantidade e qualidade a
produção científica das mulheres no campo do saber e do dizer a fé”.
Dessa
forma, uma mulher celebrando uma missa, chegando a postos de liderança dentro
da Igreja e, horror dos horrores, ocupando o cargo de Papisa é algo que ainda
estamos para ver. Nas palavras de Santa Teresa d’Ávila: "Vejo surgirem
tempos em que não haverá mais razão para subestimar almas virtuosas e fortes
apenas pelo fato de pertencerem a mulheres”.

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