Segunda coluna escrita para o Momento Lifetime.
Em 2014, o Ministério da Saúde lançou a campanha SUS Sem Racismo, após o Relatório
Socioeconômico da Mulher ter demonstrado que pessoas negras estão mais expostas
a doenças e mortes que pessoas brancas. Para as mães e gestantes negras, o
cenário é desolador: 60% dos casos de mortalidade materna é de mães negras e
56% das gestantes negras afirmaram ter realizado menos consultas pré-natal do
que as brancas. Além disso, enquanto quase 80% das mulheres brancas atendidas
pelo SUS tiveram orientação a respeito da amamentação, essa informação chegou a
apenas 62% das mulheres negras. Já as crianças negras estão entre o grupo com
maior índice de mortalidade infantil.
Esses dados demonstram o quanto o racismo estrutural,
inclusive dentro dos serviços públicos de saúde, exclui desde cedo a população
negra, em especial a mulher e a mãe. Como o feminismo negro denuncia, ser uma
mulher negra já é estar inserida em um contexto social diferente do de uma
mulher branca: as negras são geralmente mais pobres, têm seus corpos
hipersexualizados, são as maiores vítimas de feminicídio (61%, de acordo com o
Ipea), são preteridas em entrevistas de emprego, ocupam postos de trabalhos
precarizados desde cedo, têm menos acesso à educação formal (6,71% concluíram o
ensino superior), são consideradas menos inteligentes e mesmo aquelas que
conseguem vencer a opressão e atingir posições de destaque, são frequentemente
confundidas como serviçais e subalternas – não que seja algum demérito ser babá,
atendente ou faxineira, mas não se pode negar que esse tipo de “confusão” não
costuma acontecer com mulheres brancas. Naturalmente já é esperado que a mulher
negra seja a servente, nunca a chefe.
Por esse histórico de uma origem de escravidão, privações e
opressões, a pessoa negra em geral, e especialmente a mulher, costuma ser vista
pela sociedade (e muitas vezes retratada nas obras de ficção) como uma pessoa
“sábia”, uma pessoa “forte”, uma guerreira “mais resistente à dor” que as
outras. Ora, essa é uma completa romantização do sofrimento alheio e uma desumanização,
que leva com que a violência contra a pessoa negra seja naturalizada e
perpetrada. E essa violência acontece de várias formas: desde piadinhas de
cunho racista à classificação de mulheres negras como “safra”; desde a
socialite que se refere ao cabelo de uma cantora negra como “bombril” a ofensas
cotidianas que levam à baixa autoestima --
inclusive levando crianças a odiarem desde cedo seus cabelos, seus
traços e a si mesmas. Desde a violência obstetrícia que desampara gestantes e
mães recém-paridas à violência policial que mata seus filhos, parentes e
companheiros. Desde a baixa perspectiva de carreira, com uma maioria de
mulheres negras realizando trabalhos domésticos geralmente na casa de famílias
brancas em detrimento de suas próprias, àquelas que vislumbram uma oportunidade
financeira melhor trabalhando para o tráfico, muitas vezes acabando abandonadas
em prisões desumanas (60% da população carcerária feminina é de mulheres
negras).
Dessa forma, se ser mãe já é uma tarefa árdua e solitária
para mulheres de classe média e para mulheres brancas, que precisam lidar com
expectativas, pressões, falta de assistência e que ainda encontram resistência
e discriminação inclusive dentro dos espaços feministas, para a mulher negra o
esforço é hercúleo: além de lidar ela própria com o racismo diário, ela precisa
aprender a lidar com a discriminação enfrentada por seus filhos e com a falta
de representatividade para eles. Se essa mulher for de baixa renda, vai precisar
se desdobrar para encontrar maneiras de trabalhar e ainda cuidar das crianças,
geralmente não tendo outra opção senão confiá-los ao ambiente escolar, muitas
vezes também reprodutor de racismo e violência.
Em muitos casos, a mulher negra e parda, sem acesso à
informação e a um bom atendimento de saúde, se torna mãe ainda adolescente e,
conforme censo de 2010, 52,89% delas são mães solteiras. Pode-se suspeitar de
que os companheiros dessas mulheres estão encarcerados, foram mortos ou
simplesmente abandonaram a elas e seus filhos. São mães solteiras e viúvas que
deixam a escola cedo para poder sobreviver e cujos filhos acabam seguindo o
mesmo caminho, em um círculo vicioso que oferece poucas oportunidades e
perspectivas de mudanças.
Mas algumas resistem. Algumas conseguem romper com os laços
de opressão em busca de um futuro melhor. Conseguem se unir em redes
colaborativas de apoio e oferecer suporte uma a outra, aliviando o peso de suas
jornadas. Ocupam as universidades e o mercado de trabalho e procuram dar a seus
filhos a autoestima que não tiveram. Embora ainda seja uma minoria, pouco a
pouco as mulheres negras, unidas pelo movimento negro e pelo feminismo negro,
vão adquirindo informação, tomando maior consciência de si e quebrando os
estereótipos e os preconceitos, pavimentando o caminho para aqueles e aquelas
que virão depois delas.

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