52 Filmes Dirigidos Por Mulheres: Mês #1


No mês de março dei início ao projeto #52FilmsByWomen, após ler sobre a campanha no excelente site Mulher no Cinema. A dinâmica é muito simples: basta assistir a um filme dirigido por mulher por semana, durante um ano.

Resolvi postar as dicas toda semana no Instagram usando a hashtag #ProsaFilmsByWomen, e no final de todo mês passo para cá os comentários sobre os filmes assistidos.

Os filmes assistidos no mês de março foram:


Embarcação (Vessel, Holanda, 2014)
⭐⭐⭐⭐

Dirigido por Diana Whitten, Vessel é um documentário sobre o projeto Women on Waves, da Dra. Rebecca Gomperts, que acabou se ramificando no Women on Web, cuja missão é oferecer aborto legal e seguro para mulheres que vivem em países onde o procedimento médico é ilegal.

O tema é controverso e elas encontram resistência em todos os lugares por onde passam, não apenas do governo (Portugal chegou a enviar navios militares para impedir a entrada do barco em suas águas) mas também de agressivos grupos religiosos anti-aborto (o mais curioso: a maioria dos ativistas mostrados eram homens). Por outro lado, os depoimentos de mulheres desesperadas é de cortar o coração: desde aquela que não pode se dar ao luxo de ter outro filho até a militara americana estuprada em sua base no Afeganistão, passando pela menina do Qatar que se for descoberta grávida e solteira, será condenada a diversas chibatadas.

Com a resistência contra o barco, elas encontram outros meios de oferecer o aborto a essas mulheres - desde enviar elas próprias as pílulas e acompanharem por e-mail o procedimento, a fazer campanhas em lugares onde é possível conseguir o medicamento nas farmácias, desde que para outra finalidade. Me chamou a atenção que na África o que eles consideram como "método convencional" é a prática de enfiar espetos pela vagina.

O aborto inseguro é uma realidade que mata milhares de mulheres no mundo todo e depois da passagem da campanha por Portugal e Espanha, os governos desses países legalizaram o procedimento.

Não é um grande documentário enquanto arte, mas muito necessário para o debate.


O Babadook (The Babadook, Austrália, 2014)
⭐⭐⭐⭐

'O Babadook' (anagrama de a bad book) é um filme independente australiano de terror psicológico, que flerta com o sobrenatural lá pelo final, mas mesmo assim deixa a interpretação aberta para o espectador. É uma metáfora muito perturbadora sobre a depressão e a solidão materna, e como sentimentos conflituosos recalcados (como a rejeição não admitida que Amelie sente por Samuel, uma criança difícil) podem acabar saindo de controle e dominando uma pessoa. É um ótimo filme para discutir certos tabus como o amor incondicional materno.

E também um excelente filme de horror, muito tenso e que evita usar fórmulas e soluções batidas. Tem o mérito de não só ter sido dirigido por uma mulher, minoria no gênero, como também da maior parte da equipe ser de mulheres.

Coloquei aqui no blog trechos de uma excelente entrevista da diretora Jennifer Kent, que entre outras coisas, fala sobre como as mulheres naturalmente conhecem bem o medo.


Filha da Índia (India's Daughter, Inglaterra, 2015)
⭐⭐⭐⭐⭐

O documentário da BBC 4, "Filha da Índia", busca se aprofundar na história do brutal estupro coletivo sofrido pela estudante de medicina Jyoti Singh dentro de um ônibus particular enquanto voltava do cinema com um amigo, e os protestos feministas sem precedentes que seguiram.

O doc é profundamente desconcertante não apenas pela própria natureza do crime bárbaro (Jyoti foi espancada, mordida, penetrada por uma barra de ferro, teve parte de seu intestino arrancado e foi abandonada sangrando em um matagal junto a seu amigo), mas principalmente pelas perturbadoras entrevistas com um dos condenados e os dois advogados de defesa. O primeiro fala com frieza e indiferença sobre o estupro como algo que qualquer mulher solteira que ande à noite pela rua possa sofrer, e admite sem pudores que a violência do grupo se baseia em uma questão de poder e de ensinar lições. Os advogados têm a mesma linha de raciocínio, reconhecendo que a sociedade indiana não tolera mulheres sozinhas na rua durante à noite e que há pouco espaço para as mulheres em geral. É estarrecedor ver um deles dizer que uma mulher não deve ficar à noite na rua "como um alimento" e o outro declarar que se sua filha tivesse contato sexual antes do casamento e ainda ficasse desfigurada por isso, ele a queimaria.

O filme mostra também a origem de violência, desprezo pela mulher (na Índia ocorrem feticídios de meninas, ataques com ácidos e a violência doméstica é corriqueira) e pobreza extrema de onde os agressores vêm, apontando para o fato de que estupradores não são monstros em si, mas produtos da própria sociedade em que vivem e que esta deve também se responsabilizar pelos crimes que cometem.

Ao mesmo tempo que parte o coração assistir à entrevista cheia de dor dos pais de Jyoti Singh - e também as dos pais dos homens condenados, por outro lado o filme é otimista sobre o futuro e mostra uma crescente mudança de mentalidade na Índia sobre a situação das mulheres (apesar de o filme ter sido banido por lá). Se alguém ainda acha que o feminismo é anacrônico e desnecessário, esse doc é um bom ponto de partida para mudar de ideia.



Sobre Susan Sontag (Regarding Susan Sontag, EUA, 2014)
⭐⭐⭐

O doc da HBO, dirigido por Nancy Kates, busca fazer um estudo sobre a vida íntima da filósofa, romancista e cineasta, que se tornou um ícone político e feminista.

A diretora procurou fazer entrevistas com várias pessoas do convívio de Susan: seu filho David, suas companheiras, seus amigos íntimos e intercala os depoimentos com imagens de arquivo de entrevistas da autora de Diante da dor dos outros e outras imagens que trazem narrações em off de seus diários e cartas.


O documentário acaba focando mais na homossexualidade e nos relacionamentos de Sontag e também no seu medo da morte e desejo de ser "um gênio" - no sentido de não querer que sua obra fosse extinta com o tempo -, mas deixa uma impressão de superficialidade por não se aprofundar muito em sua personalidade e nem em sua obra.

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