Dando sequência ao projetos, eis os filmes escolhidos em abril.
Continuo postando as dicas toda semana (aos domingos, na maior parte das vezes) no Instagram, usando a hashtag #ProsaFilmsByWomen.
Libertem Angela Davis (Free Angela Davis and all political prisioners, EUA, 2012)
⭐⭐⭐⭐⭐
'Libertem Angela Davis' é um excelente documentário dirigido por Shola Lynch, que foca no contexto que levou à prisão e julgamento da filósofa, professora e ativista política acusada de participação no sequestro que levou à morte de um juiz - foi alegado que as armas usadas na ação haviam sido compradas no nome dela.
Discípula de Herbert Marcuse e professora de filosofia da UCLA, Angela era politicamente perseguida por ser militante filiada ao Partido Comunista e ao Pantera Negra - o então governador Ronald Reagan mobilizou suas forças para que ela fosse demitida da universidade. Com a acusação de envolvimento no crime, e sabendo a maneira como ativistas negros eram tratados, Angela decide fugir e se torna uma das dez pessoas mais procuradas pelo FBI, até ser capturada em Miami.
O doc traz diversas imagens de arquivo da época, além de entrevistas com a própria Angela e diversos envolvidos em seu caso: advogados, colegas de trabalho, juízes, testemunhas, jornalistas, amigas e sua irmã, que liderou protestos no mundo inteiro por sua libertação, reconstruindo assim um quebra-cabeça cuja imagem apresenta um quadro repleto de racismo temperado com algum machismo, mas também mostra a força política de Angela Davis e a capacidade de mobilização da militância em favor da justiça.
Mesmo sabendo que Angela acaba sendo inocentada, o filme tem a capacidade de construir um clima de tensão que funciona muito bem, fazendo com que o espectador torça por ela e fique aliviado junto no fim. Além disso, o documentário é bastante informativo sobre a situação que os negros americanos enfrentavam nos anos 60/70 e também muito inspirador para os tempos sombrios e repletos de intolerância que estamos vivendo por aqui.
⭐⭐⭐⭐
Documentário que estreou em março na Netflix e que mostra a história de recuperação de uma jovem produtora britânica, Lotje Sodderland, após ela sofrer um raro derrame hemorrágico devido a uma má formação nas veias do cérebro.
Como sequelas, Lotje perdeu a capacidade de ler, escrever e dar sentido às coisas. Então ela começou a gravar vídeos com seu iPhone, buscando não esquecer conversas com médicos e outros momentos importantes da sua vida e aí surgiu a ideia de um documentário, que foi dirigido por ela e por Sophie Robinson.
O filme tenta transmitir para o espectador o ponto de vista de Lotje, cuja percepção da realidade inclui muitas cores e luzes psicodélicas e imagens que vão se desintegrando em seu campo de visão, ao mesmo tempo em que mostra a evolução do tratamento e os pequenos progressos que ela faz dia a dia.
A própria filmagem de suas experiências ajuda com que Lotje encontre uma narrativa para dar sentido à própria vida e, em suas gravações, ela começa a fazer um diário para David Lynch, já que acredita que o que passa em sua mente se assemelha a um filme do diretor. E assim, ele acaba se tornando um dos produtores executivos e aparecendo brevemente no doc.
O doc é sensível, delicado e o que mais chama a atenção é a determinação e o bom humor de Lotje, permanecendo sempre confiante em sua recuperação. Bonito.
Uma Notícia Inesperada (Obvious Child, EUA, 2014)
⭐⭐⭐⭐
Este primeiro filme de Gillian Robespierre, que também vi com o nome de "Entre risos e lágrimas" (?) é ótimo!
Uma comediante é deixada pelo namorado e logo em seguida descobre que a livraria onde trabalha vai fechar as portas. Em meio a essa crise, ela acaba bebendo demais e conhece um rapaz aleatório com quem passa a noite. Algumas semanas depois, ela descobre que está grávida e decide realizar um aborto. Enquanto isso, o rapaz passa a procurá-la cada vez mais e ela não tem certeza nem se quer ficar com ele e nem se quer contar a ele sobre o que pretende fazer.
Diferente de outros longas do gênero, aqui o romance não é o foco principal na vida da protagonista e nem a possibilidade deste influencia suas decisões. O filme aborda o tema da sexualidade e intimidade feminina, do aborto, da amizade entre mulheres e da sororidade de uma forma sensível, leve e muito natural, sem banalizar questões importantes mas também sem tratá-las como tabus. Os personagens são todos umas gracinhas, gostei muito!
Cinco Graças (Mustang, França/Alemanha/Turquia/Qatar, 2015)
⭐⭐⭐
Indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, 'Cinco Graças', de Deniz Gamze Ergüven, se passa na Turquia e mostra cinco irmãs que depois de participarem de uma brincadeira inocente com meninos, começam a ter sua liberdades tolhidas, até se tornarem verdadeiras prisioneiras dentro de casa. São retirados quaisquer objetos que possam corrompê-las (desde computadores e revistas até o telefone de casa) e elas passam a ser treinadas para serem boas esposas - de fato, não demora muito até que as mais velhas sejam casadas com rapazes do bairro. Cada uma delas lida com a situação de maneira diferente e, não à toa, o filme é construído através do olhar da mais jovem, aquela que vai buscar se libertar de um destino sufocante, onde a mulher não tem liberdade de escolha sobre seus desejos, seu corpo, sua vida e seu futuro.
Tendo óbvia influência de "As Virgens Suicidas", de Sofia Coppola, mas sem perder a personalidade própria, o longa aposta em um final esperançoso e otimista, apesar de inverossímil




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