Dando sequência ao projetos, eis os filmes escolhidos em maio.
Continuo postando as dicas toda semana (aos domingos, na maior parte das vezes) no Instagram, usando a hashtag #ProsaFilmsByWomen.
Que horas ela volta? (Idem, Brasil, 2015)
⭐⭐⭐⭐⭐
É um belo filme que faz um recorte sobre as mudanças entre um Brasil de uns 20 anos atrás e outro mais recente ao mostrar a diferença de mentalidade entre a empregada doméstica Val e sua filha Jéssica: enquanto Val naturaliza a sua posição como integrante da "senzala", Jéssica não se sente inferior à "casa grande", sabendo ser possível alcançar voos mais altos que ser apenas a serviçal da família, a quem é proibido ocupar espaços da cozinha pra dentro - a menos que seja para arrumar, limpar e servir.
Apesar de toda a problemática da diferença de classes, e em se tratando de trabalho doméstico o filme peca pela falta de representatividade das mulheres negras, maioria nesse tipo de trabalho, o que mais me tocou foi o tema da maternidade - e acredito que não seja à toa que o título traduzido para o inglês seja 'A segunda mãe'. Vemos se repetir o ciclo de mulheres que deixam seus filhos para serem criados por outras mulheres: a bem-sucedida deixa a maternidade nas mãos da empregada; esta, por sua vez, não tem muita escolha além de deixar sua filha com o pai e passar uma década afastada de seu crescimento para poder sustentá-la. Em mais um símbolo de mudança social e busca por novas perspectivas, quando se dá conta de que Jéssica está entrando no mesmo ciclo, Val decide quebrá-lo. Me emocionou.
⭐⭐⭐⭐⭐
Documentário essencial para quem quer entender as raízes da segunda onda do feminismo norte-americano, surgida no final dos anos 60, cujas pautas vem sendo recicladas no feminismo do século XXI por continuarem atuais.
O doc de Mary Dore não se priva de mostrar também os problemas que ocorreram com o surgimento do movimento de mulheres: a falta de representatividade das mulheres negras, a lesbofobia, a competitividade feminina...muitas das líderes ainda estão vivas e dão seus depoimentos, e é interessante perceber como elas avaliam a trajetória do movimento até então.
É também uma boa oportunidade para se perceber que ainda que muitos dos problemas continuem atuais (a abertura do doc dá a entender que sua realização foi motivada pela recente ameaça de retrocesso nas leis de aborto americanas), o contexto de hoje é outro, e não adianta muito tentar usar os mesmos argumentos e pontos de vista em uma sociedade completamente diferente daquela dos anos 60/70. De qualquer maneira, é um trabalho que todo mundo deveria assistir para perceber o quão revolucionária foi a segunda onda e como os direitos das mulheres nunca estão 100% garantidos. Está disponível na Netflix.
Garota sombria caminha pela noite (Girl walks home alone at night, EUA, 2014)
⭐⭐⭐⭐
Escrito e dirigido por Ana Lily Amirpour o filme é inusitado em tudo: se passa na fictícia cidade fantasma iraniana chamada Bad City e traz como protagonista uma vampira indie que persegue homens que maltratam mulheres. Até que ela conhece um com quem cria um vínculo.
O filme bebe de várias fontes: desde 'Amantes Eternos', passando pelo spaghetti western, James Dean, e uma pitadinha de Tarantino. A fotografia é um espetáculo e a trilha sonora, uma delícia. Só tem um problema de falta de ritmo e um roteiro que não diz a que veio mas, mesmo assim, merece ser conferido.
Um comentário no Letterboxd resumiu tudo: "Como um sonho infundido em jazz, essa fábula distorcida mostra o que acontece quando a Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau são a mesma pessoa.
Olmo e a Gaivota (Olmo & the Seagull, França/Dinamarca/Brasil/Portugal, 2015)
⭐⭐⭐⭐
A diretora brasileira Petra Costa, com auxílio da dinamarquesa Lea Glob, constrói uma narrativa singular, em que realidade e ficção se misturam - até onde o que estamos vendo é real ou ficção? O longa demonstra que, para a arte, não é isso que importa.
O filme acompanha a gravidez da atriz teatral Olivia Corsini e sua relação com seu marido, também ator, Serge Nicolai. A princípio, a ideia era mostrar o desafio que seria para Olivia conciliar o seu papel na peça 'A Gaivota', prestes a entrar em turnê em Nova York e Montreal, e sua gestação, mas uma lesão no útero faz com que ela seja obrigada a permanecer em casa de repouso, sob risco de perder o bebê. A partir daí, o foco passa a girar em torno dos sentimentos de Olivia: a frustração em ter que abrir mão do seu trabalho, a incompreensão do marido (que continua normalmente sua rotina), o isolamento social, o medo da maternidade e da loucura. Apesar disso, o filme não é pesado nem carregado de melodrama: pelo contrário, mostra uma Olivia carismática e um Serge tranquilo e participativo, em um relacionamento doce e repleto de companheirismo.
É profundamente feminino, mas também universal.




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