O livro do cemitério, Neil Gaiman



Neil Gaiman é um dos queridinhos da casa. Sendo um autor-rock star, eu já tinha ouvido falar dele muito antes de ler qualquer coisa que havia escrito. Em tudo que lia, havia um misto de reverência, respeito e adoração, em maior parte por seu trabalho em Sandman - que ainda não li, mas cujas edições digitais adquiri e não pretendo demorar muito para conferir. Meu primeiro contato com ele foi através do cinema, assistindo as adaptações de Coraline e Stardust, as quais gostei bastante, principalmente a primeira. Na época, porém, eu estava em uma fase que considerava mais séria, menos interessada em ler histórias de fantasia. Deixei Gaiman passar e voltei a ter contato com seu nome quando se casou com Amanda Palmer. Finalmente, em 2013, tive a oportunidade de ler O oceano no fim do caminho, vendido como "o primeiro livro adulto de Neil Gaiman em muitos anos". Não é bem isso, o livro - como a maior parte do que li de Gaiman até o momento - tem uma pegada mais jovem adulto do que propriamente adulto, mas essa constatação em nada diminuiu o encanto que o romance me proporcionou. Não entendi de cara todo o simbolismo, que bebe em muitas fontes da mitologia e, ainda, é extremamente autorreferente (o que, vim a descobrir mais tarde, é uma característica do autor), mas fiquei muito tocada pela sensibilidade com que a história é construída e narrada. A partir de então, passei a ler todo livro dele que tivesse a oportunidade de colocar as mãos. E enfim, cheguei a essa pequena pérola que é O Livro do Cemitério.

Além de amplamente elogiado, admito que pesou o fato de saber que ele referenciava os lobisomens de uma maneira muito fiel ao que se acredita ser uma das origens da lenda, e meu interesse nisso é que eu buscava alguma obra sobre o assunto que pudesse encaixar no meu Projeto Penny Dreadful. Não era bem como eu estava esperando - a referência é breve e a criatura é apenas uma das coadjuvantes da trama -, mas todo o restante do livro superou as minhas expectativas. Aqui, encontramos um Neil Gaiman inspirado e em ótima forma, fazendo o que faz melhor: um horror gótico voltado para o público infantojuvenil, repleto de humor e sensibilidade.

Em seu posfácio, o autor admite que um dos seus livros preferidos de infância era O Livro da Selva de Rudyard  Kipling, aquele que conta a história de Mogli. E, em certo sentido, O Livro do Cemitério (a começar pelo título) tem mesmo uma trama parecida: um menino órfão que acaba sendo criado por criaturas inusitadas em um ambiente isolado do resto da sociedade. No lugar de lobos, ursos e panteras que vivem na selva, o menino é criado por fantasmas em um cemitério cheio de mistérios e personalidades peculiares. Mas não é apenas isso: não consigo deixar de perceber uma forte influência de Harry Potter pairando por todo o romance: aos dois anos de idade, o menino tem toda a sua família assassinada pelo Homem Chamado Jack (uma óbvia referência a Jack, o Estripador), mas consegue se safar de maneira quase inexplicável e se torna um procurado do assassino, que precisa concluir seu serviço. Mais à frente, saberemos que esse menino é um predestinado. Ao debater sobre que nome dar ao pobre órfão, os habitantes do cemitério chegam a cogitar o sugestivo nome Harry, entre outros, mas logo fica estabelecido que ele se chamará Ninguém. Pode parecer estranho para os desavisados, mas (a falta de) nomes é um dos grandes baratos das histórias de Gaiman.

Ninguém, ou Nin, cresce dentro dos limites do cemitério, de onde não deve sair; caso contrário, os seres que lá habitam, incluindo seu guardião, um vampiro que jamais revela sê-lo, não poderão protegê-lo e ele ficará vulnerável à morte. Naquele lugar deprimente para a maioria dos mortais, Nin tem uma infância quase normal, brincando com os fantasmas das crianças mortas, recebendo aulas de fantasmas professores, poetas e afins, sendo cuidado por pai e mãe fantasmas e se metendo em aventuras mágicas do além-vida. Até que o menino começa a se tornar um rapaz e passa a frequentar a escola local. Ali, ele se mete em apuros e acaba entrando no radar do Homem Chamado Jack e sua estranha organização. E a partir daí o leitor já consegue imaginar o que irá suceder.

O grande barato do livro é a destreza e a maneira original com Gaiman constrói sua trama, fazendo o leitor se envolver nas aventuras e desventuras de Nin sem querer largar suas páginas até chegar ao final. No miolo, uma história sobre crescimento e amadurecimento, lealdade e amizade que, apesar do cenário mórbido, diverte e aquece o coração.

O livro do cemitério
Neil Gaiman
Ilustrações de Dave McKean
Tradução de Ryta Vinagre
336 páginas
Editora Rocco/Rocco Jovens Leitores

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