Muita gente do universo literário online gosta de relaxar a mente com um bom YA (literatura para jovens adultos), e que já espiou esse blog sabe que eu não sou diferente. De vez em quando o motivo da leitura dos infantojuvenis é demanda da minha filha; outras, sou eu mesma que me deixo render. E apesar de os livros sobre amadurecimento e quetais tenham seus atrativos, o que eu gosto mesmo é daqueles que envolvam mistérios, suspenses, investigação ou horror. Sim, esse é o tipo de história que eu considero relaxante.
Costumo manter minhas expectativas baixas quando faço esse tipo de leitura, mas alguma vezes o livro é ruim mesmo e mesmo com toda a boa vontade, não dá para salvar muita coisa. Não é o caso de O Nome da Estrela. Ainda que tenha suas derrapadas aqui e ali, principalmente nos eventos que vão levar ao desfecho da história, o livro se sustenta como um bom thriller de suspense, atual, bem informado, bem amarrado e divertido -- embora, à primeira vista, seja curioso que um livro envolvendo a figura mítica de Jack, o Estripador possa ser engraçado sem soar forçado ou ser, efetivamente, uma comédia.
Primeiro de uma trilogia batizada como Sombras de Londres, o livro conta a história de Rory, uma adolescente de Nova Orleans que se muda para a Inglaterra com seus pais e passa a viver em um internato de Wexford, no East End de Londres, enquanto o casal se estabelece em Bristol. Rory chega ao país em um momento de tensão: a produtora Rachel Belanger acabara de ser encontrada morta em Whitechapel Road, em um crime que parecia simular o primeiro assassinato do Estripador: os mesmos ferimentos, a mesma redondeza, a mesma localização e posição da prostituta Mary Ann Nichols e o mais desconcertante: na mesma data, 31 de agosto. Seria apenas uma recepção macabra da ilha se não fosse por um detalhe: Wexford é localizada bem no meio do antigo território em que Jack costumava atacar, atraindo regularmente excursões com curiosos e turistas.
"Eu tinha conseguido. Estava mesmo em Londres, naquele prédio frio e vazio.(...) As palavras UM NOVO ESTRIPADOR? apareceram na tela por cima de uma tomada panorâmica do Big Ben e do Parlamento. Era como se até a TV quisesse me dar certeza. O próprio Jack, o Estripador, reaparecera para fazer parte do comitê de recepção."Os crimes continuam se repetindo nos mesmos dias e modus operandi do assassino vitoriano, e apesar de Londres ter um dos sistemas de vigilância mais amplos do mundo, nenhuma imagem do Estripador era captada pelas câmeras: o único vídeo que poderia ajudar a esclarecer alguma coisa mostrava somente a vítima sendo atacada, enquanto seu agressor estava estranhamente invisível.
Assim que a polícia, e toda a população, se dá conta de que há um imitador de Jack à solta, as datas de seus crimes se tornam verdadeiros eventos: a população é instruída a não deixar suas casas, andar em grupos e as redes de TV montam plantão próximo aos locais onde o próximo crime pode ser cometido. Pessoas se reúnem em grupos em bares e casas para acompanhar o noticiário, ávidas para testemunhar esse mórbido reality show. Mas quem ou que quer que seja que esteja por trás desses eventos é esperto o suficiente para driblar toda a vigilância e olhos curiosos e nem sempre os crimes ocorrem da maneira esperada. Uma das vítimas, inclusive, é um homem.
Enquanto tenta se adaptar à rotina da nova escola, a nova cultura e os novos colegas, o caminho de Rory se cruza com o do novo Estripador no dia em que, movidos pela curiosidade, ela e sua colega de quarto, Jazza, fogem de seu dormitório para ir até o prédio onde ficam os rapazes, já que Jerome, um de seus amigos, é obcecado pelas histórias de Jack e garante que se subirem ao topo, poderão ter uma visão completa do local onde o crime pode estar prestes a acontecer. Não ocorrendo nada, as meninas voltam correndo atravessando justamente a praça, e é quando está prestes a entrar em seu prédio que Rory é abordada por um homem estranho, que sua amiga não chega a ver.
"Mas o Estripador é meio que o original. Sabe, ele estava por aí quando a polícia era relativamente nova e o estudo da psicologia estava nascendo. As pessoas compreendiam por que alguém iria querer matar alguém ou roubar alguma coisa por raiva ou por inveja. Mas havia um homem matando aparentemente sem motivo algum, caçando e retalhando mulheres pobres e vulneráveis. Não havia explicação. O que o tornava tão aterrorizante era que ele não precisava de motivo. (...)Ele é o primeiro assassino moderno."Sendo a possível principal testemunha, Rory passa a ser acompanhada pela polícia, e logo descobre que a situação faz parte da investigação de um grupo especial: uma espécie de Arquivo X pós-adolescente, de membros treinados extraoficialmente pela força oficial. E dizer mais que isso tiraria toda a engenhosidade da trama e a graça para o leitor.
O grande barato do livro é justamente conseguir modernizar a história de Jack, o Estripador, quase como um exercício imaginativo de como agiria Jack nos dias de hoje e que desafios apresentaria para polícia, conseguindo, ainda, contextualizar todo o caso sem soar forçado e didático. O problema é que com os avanços da ciência forense e da tecnologia, a probabilidade de crimes exatamente iguais aos do Estripador serem cometidos e ficarem impunes é bem pequena, e a imaginação de Maureen Johnson -- que pode ser vista como fértil ou sem muita sofisticação, dependendo da perspectiva que se analisa --, precisou buscar explicações fantásticas para justificar o incidente. Mas nada disso subestima a inteligência do leitor e nem tira a diversão que o livro proporciona, e quem ler O Nome da Estrela atrás de um suspense que não tem a pretensão de se levar a sério, não ficará decepcionado.
O nome da estrela
Maureen Johnson
Tradução de Larissa Helena
390 páginas
Editora Rocco/Fantástica


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