Notas sobre o livro de Kim Gordon:
Kim decide começar seu livro pelo fim: sem rodeios, o prólogo faz um paralelo entre o fim do seu casamento de 27 anos com Thurston Moore e os últimos shows do Sonic Youth. "Depois de trinta anos, aquela noite era o último show do Sonic Youth", escreve ela, se referindo à apresentação que a banda faria no festival SWU, em São Paulo, em 2011. "Éramos provavelmente os menores artistas da escalação. Era um lugar estranho para as coisas chegarem ao fim".
O casal que todos acreditavam que era de ouro e normal e eternamente intacto, que deu a jovens músicos a esperança de que eles poderiam sobreviver no mundo louco do rock-and-roll, agora era apenas mais um clichê de um relacionamento maduro fracassado -- uma crise de meia-idade masculina, outra mulher, uma vida dupla.
Há muito rancor, como era de se esperar. "Ele era um adolescente perdido em fantasias de novo, e o exibicionismo de rockstar que fazia no palco me irritava profundamente", Kim desdenha do ex-marido enquanto revela que eles nem mesmo olhavam um para o outro durante a apresentação, e ainda fala sobre seu estado emocional, fragilizado a tal ponto em que "mal conseguia me segurar durante a primeira música". Apesar disso, o interesse dela não está em passar todo o livro falando sobre os sacrifícios do relacionamento, o mau comportamento de Thurston e sentindo pena de si mesma. A partir do comportamento de Courtney Love durante o mesmo festival, que havia brigado com a plateia devido a um cartaz sobre Kurt Cobain, ela se dá conta de que não queria ser vista como o "desastre" que Courtney é e nem que o último show fosse desagradável. E é com esse mesmo espírito que Kim escreve seu livro - a partir do fim de seu casamento e das atividades de sua banda, ela prefere fazer uma reflexão sobre sua trajetória pessoal e enquanto artista, como quem junta as pecinhas de um enorme quebra-cabeça.
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As raízes de sua família, a infância na Califórnia, os pais intelectuais e o irmão esquizofrênico são parte crucial no processo de formação de Kim Gordon enquanto artista. Não à toa, ela parece se interessar bastante por psicanálise e frequentemente cita as teorias de Freud ao longo do seu texto. Sobre a Califórnia, Kim afirma ser "um lugar de morte, um lugar para o qual as pessoas são atraídas porque não percebem, no fundo, que elas nas verdade têm medo do que querem. (...) Desejo e morte se misturam com a emoção e o risco do desconhecido". Assim que pôde, se mudou para Nova York, onde foi garçonete, pintora de casas, balconista em gráfica, livreira e funcionária de galeria de arte, ia a pé para o trabalho e sobrevivia comendo papa de milho, macarrão de ovos, cebola, batata, pizza e cachorro-quente. "Não sei direito como consegui. Mas parte de ser pobre e batalhar em Nova York é ganhar a vida durante o dia e fazer o que você quiser com o resto do tempo". Outros tempos.
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Keller, o irmão de Kim, vai desempenhar um papel fundamental em sua vida. Ela se refere a ele como "a pessoa que mais do que qualquer outra no mundo todo moldou quem eu era, e quem eu acabei virando". O descreve como "brilhante", "manipulador", "sádico", "arrogante" e "quase insuportavelmente articulado". "E talvez por ele ter sido tão incessantemente verbal desde o início, eu me transformei no seu oposto, sua sombra - tímida, sensível, fechada" até o ponto em que precisou se tornar destemida para não sucumbir à própria hipersensibilidade. No capítulo dedicado a ele, Kim conta sobre como ela queria ser como ele e como a crueldade do irmão a fez se sentir invisível inclusive para si mesma. Keller era carismático, inteligente, um líder nato e tirânico que a tratava com zombarias e até violência física. Ela credita a ele a criação de sua persona fria e impassível, em dois trechos de partir o coração - embora muitas mulheres saibam exatamente do que ela está falando:
E
Em determinado momento, eu desliguei por completo. Sabendo que eu ia ser ridicularizada ou provocada, faria qualquer coisa para não chorar, ou rir, ou mostrar qualquer emoção. O maior desafio para mim era fingir que eu tinha alguma habilidade sobre-humana para suportar a dor. Acrescente a isso a pressão que as meninas sentem de qualquer maneira para agradar as outras pessoas, para serem boas, e bem educadas e organizadas -- e eu desviei ainda mais para um mundo onde nada poderia me perturbar ou me prejudicar.
A imagem que muita gente tem de mim de desapegada, impassível ou distante é uma persona que vem de anos provocada por todos os sentimentos que já expressei. Quando eu era pequena, nunca houve qualquer espaço onde pudesse receber alguma atenção que não fosse negativa. Arte, e a prática de se fazer arte, era o único espaço que era só meu, onde eu podia ser qualquer pessoa e fazer qualquer coisa, onde apenas usando minha cabeça e minhas mãos eu podia chorar, ou rir, ou ficar brava.As coisas se tornam mais obscuras no início da adolescência, durante a época em que a família passou morando em Hong Kong, China. Ela e o irmão dividiam o mesmo quarto e uma noite, ele tentou subir em sua cama. Com sua recusa, foi xingada de "vagabunda", "uma palavra que foi difícil de esquecer, embora eu soubesse que ele não estava em seu juízo perfeito". Ainda assim, Kim manteve o silêncio e não contou nada aos pais. "Eu ainda o idealizava, me convencia de que ele era melhor do que eu era, queria protegê-lo", escreve ela. "Eu me deixava sentir culpada, como se eu fosse de alguma forma responsável por tudo o que ele fazia de errado". Essa idealização do irmão, essa culpa pelos abusos sofridos, esse apagamento de si mesma foram as consequências inevitáveis de todo o gaslighting sofrido por Kim por um irmão com transtornos mentais que, pelo que ela dá a entender, não foi diagnosticado cedo, tendo sua relação com ele sendo encarada pelos pais como uma simples rivalidade entre irmãos.
De nerd, Keller se tornou surfista, atraindo diversas meninas bonitas, ficou rebelde e passou a usar maconha e LSD. Na faculdade, se interessou por Shakespeare e Chaucer e demonstrar comportamento obsessivo. Mesmo assim, não ocorreu a ninguém que seu comportamento poderia estar ligado a uma doença mental. A época era a de quebra de limites, todos usavam drogas e apresentavam comportamento que iam do excêntrico ao antissocial. Se hoje as pessoas que sofrem com transtornos mentais ainda não sub-diagnosticadas devido a ainda enorme desinformação a respeito de tais transtornos, consequência de um misto de preconceito e banalização, naquela época era ainda pior. Keller começou a ir ladeira abaixo, mas os pais descartavam a ideia de levá-lo a um psiquiatra. "Meus pais eram de uma geração que se preocupava com seus próprios problemas, que considerava a psicoterapia um luxo. (...) Meus pais eram educados, mas eles não tinham nenhuma atração pela psicologia, e terapia e remédios psiquiátricos eram para os realmente loucos (...), não para seu próprio filho idiossincrático". Quando finalmente cederam, já era tarde demais. Em uma inversão de papeis, Keller agora recorria a Kim para conseguir ajuda.
Eu havia me tornado a irmã mais velha simbólica, uma protetora, que é o papel que ainda desempenho Keller até hoje. Ele nunca fez isso por mim. (...) Ainda luto com a ideia de que eu o deixei fazer com que eu me sentisse mal comigo mesma. (...) Me pergunto o que ou quem eu teria me tornado se ele não fosse meu irmão.***
Kim Gordon sabia que queria ser artista desde criança, embora não soubesse como. "Nunca me ocorreu que eu poderia falhar" - é o tipo de frase que recorrentemente vemos sair da boca de artistas bem-sucedidos. O dom está presente, há um chamado e eles vão, embora nem sempre isso signifique sucesso fácil ou instantâneo. Ou sucesso mesmo. Outra frase recorrente é o lugar-comum "Eu já era artista desde criança". No caso de Kim, isso é verdade, embora ela saiba quanto isso soa afetado. "Eu estremeço quando lembro de Andrea Fraser, a artista performática, uma das artistas mais destemidas que eu conheço, usando essa frase em uma de suas apresentações para criticar as instituições de arte e os mitos sobre artistas: 'As palavras exatas são: Eu queria ser artista desde que tinha 5 anos'. Porque essa era minha frase". Sua mãe pensava que ela seria artista gráfica. Ela entrou na faculdade de Artes no Canadá por ser mais barato, e através do programa interdisciplinar, aprendeu desde música a cinema. Seu envolvimento com artistas a levou a duas de suas primeiras grandes influências: John Knight, que a apresentou à arte conceitual, e Dan Graham, que mostrou a ela todas as bandas de No Wave que tocavam no centro de Nova York e gostava de analisar os aspectos psicológicos e sociológicos da arte.
Já morando em Nova York, Kim entra para o mundo da arte a partir das artes plásticas, através do seu trabalho em uma galeria, mas a música, principalmente oriunda do No Wave, sempre fez parte de sua rotina. No livro, ela esmiúça toda a cena artística da época, assim como a própria cidade e a cultura da sociedade da época, dando ao leitor um panorama sobre os bastidores do universo artístico nova iorquino dos anos 80, em especial a do anti-movimento já citado, que em tradução livre seria "Onda Nenhuma", "um termo cunhado por pessoas cansadas do costume da imprensa de definir qualquer cena ou gênero como uma redução barata ou fácil. (...) Basicamente, era anti-Wave". Mas é errado definir o Sonic Youth como uma banda No Wave: segundo Kim, o que eles estavam fazendo era tentar criar alguma coisa a partir daquilo.
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What is it like to be a girl in a band?
I don't quite understand
A obra não foi intitulada de A garota da banda - referência retirada dos versos de 'Sacred Trickster' -, apenas por Kim ser uma mulher em um universo considerado masculino. A condição feminina é um assunto importante para ela, que a todo momento revela situações de sexismo envolvendo a si mesma ou a outras mulheres que passaram por sua vida, e ainda faz reflexões a respeito do lugar em que as mulheres em geral ocupam no mundo. A primeira de todas é, obviamente, sua mãe que, para ela, sempre deixou a impressão de que queria ter tido a oportunidade de fazer mais de sua vida. Na passagem em que conta sobre como Dan Graham a incentivou a escrever artigos e contribuir para o diálogo cultural, ela não o poupa da seguinte observação: "Na época, o próprio Dan estava escrevendo artigos sobre grupos femininos e saindo por aí fazendo declarações autoritárias sobre o feminismo. Como a maioria dos homens, ele era apenas um grande fã da sexualidade feminina". Qualquer semelhança com os chamados feministos de hoje, não é mera coincidência.
Seu primeiro texto, apesar disso, foi sobre homens e o vínculo masculino. Ela relembra de quando era pequena e via na estante de seu pais livros intitulados como Homens e o Trabalho e os brinquedos de construtor do irmão, e passou a associar trabalho, construção e invenção a atividades masculinas. "Olhando para trás, eu estava claramente desvalorizando o que as mulheres faziam. Como aquilo tinha acontecido?", ela se questiona com uma pontada de culpa, embora nada seja mais natural.
Frente a frente, os homens muitas vezes não tinham muito o que dizer uns aos outros. Eles encontravam alguma proximidade ao se concentrar em uma terceira coisa que não eles: música, videogames, golfe, mulheres. As amizades masculinas tinham formato triangular, e isso permitia que dois homens tivessem uma forma de intimidade. Em retrospectiva, foi por isso que entrei para uma banda, para que eu pudesse estar dentro da dinâmica masculina, não olhando para dentro através de uma janela fechada, mas olhando para fora.
O trecho citado acima é interessante por sintetizar como funciona a cabeça de mulheres (e me incluo entre elas) que durante a juventude passam a preferir a amizade de homens às de outras mulheres. O tanto de machismo que nos leva a isso não está no fato de os assuntos e a companhia masculina ser mais estimulante - e muitas vezes o é, de uma forma completamente não sexual e não romântica - mas justamente porque o ambiente em que eles crescem e amadurecem, os laços triangular feito em torno de um estímulo em comum, proporciona o senso de pertencimento que entre as mulheres muitas vezes não acontece, por sermos levadas a ter como preocupações principais a nossa beleza, os nossos dotes de subserviência e quetais.
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Obviamente, Kim Gordon vai falar sobre como conheceu Thruston Moore, como iniciaram seu relacionamento e como o Sonic Youth se formou, utilizando capítulos inteiros para escrever sobre a época em que se deu cada álbum, contando sobre bastidores e como percebia seu lugar naquele universo. Entre os capítulos 31 e 33, ela dedica a dar uma pincelada sobre a presença de mulheres na música no início dos anos 90 ("Se eu alguma vez apareci na Rolling Stone, foi para responder perguntas como 'O que você acha das mulheres no rock, como a Madonna?'"), suas colaborações para a revista Spin, o movimento Riot Grrl e como chegou a produzir o primeiro álbum do Hole, a pedido da própria Courtney Love - a quem chama de sociopata. Kim conta também sobre como estremeceu quando Courtney falou que achava Kurt Cobain atraente, e torcer para que eles jamais se conhecessem. De certa forma, ela engrossa o coro dos que acreditam que Courtney ajudou a levar Kurt à ruína -- o que é compreensível, já que Kim Gordon e Kurt Cobain eram grandes amigos, ao passo que Courtney Love apenas criasse problemas e tenha feito diversas declarações terríveis sobre Kim na imprensa.
É engraçado como sempre penso em Kurt. Um elemento de sua autodestruição foi ter escolhido a Courtney para se alienar de todos a seu redor, ao mesmo tempo em que a fama o alienava de qualquer comunidade que ele tivesse participado.
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Já estabelecida na carreira, mantendo um relacionamento estável com Thruston e chegando aos 40 anos, Kim Gordon começou a se apegar à ideia de se tornar mãe. Foi apenas depois do nascimento de Coco que ela se deu conta de que, enquanto casal, eles nunca haviam conversado sobre maternidade, paternidade, igualdade na criação dos filhos e das responsabilidades domésticas. "Eu simplesmente assumi que Thurston apoiava as questões femininas". E ele abraçou a paternidade. Mas como ela pontua, "descobri que não importa o quanto você acha que a experiência será justa e compartilhada, ou o quanto o homem acredita que a responsabilidade com as crianças deve ser dividida, não será". Ela conta que ter um bebê criou uma crise de identidade em si mesma, reforçada por jornalistas sempre perguntando como era ser uma mãe no rock. Mas não apenas isso: a dinâmica em seu relacionamento mudou, ela passou a se sentir sozinha e ele, a se afastar e querer fazer tudo do próprio jeito.
Filhos muitas vezes podem trazer crises aos relacionamentos, e não são poucos os casais - principalmente aqueles que têm filhos não planejados antes de amadurecer a relação - que se separam alguns anos após o nascimento das crianças. O casamento de Kim e Thurston ainda duraria muitos anos, mas não seria mais a mesma coisa. E nem a vida de Kim enquanto mãe de uma criança pequena e baixista de uma banda de rock, com uma rotina louca de entrevistas, estúdios, turnês e viagens. Até os 10 anos da menina, o Sonic Youth adaptou sua agenda à programação escolar de Coco, para que ela pudesse excursionar com os pais. O que é, obviamente, desgastante: malas, disciplina, camarins, banheiros. Por mais suporte que se tenha, a rotina de uma mãe ativa nunca é tranquila. Assim como ser uma filha de rock stars também não deve ser nada fácil.
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Com reflexões e insights sobre o mundo da arte, a rotina de uma banda de sucesso, o lugar em que a mulher ocupa em um universo masculino e o lugar em que ela própria, Kim Gordon, esteve enquanto filha, irmã, aprendiz, artista, esposa, mãe e mulher, A garota da banda desglamouriza toda a imagem de casal perfeito que os fãs de música poderiam ter a respeito de Kim e Thruston, assim como desmitifica a própria Kim e sua persona artística. O que fica é uma mulher como todas nós, de inteligência afiada e personalidade curiosa e observadora, muitas vezes insegura sobre si mesma e que, também muitas vezes, deixou de se impor em prol de outros. E que sofreu uma grande decepção. Mas a sua força e sua resiliência sobressaem, e a Kim Gordon que encara o leitor na última página, sentada de maneira firme em meio à sua obra é uma pessoa completamente diferente da que passou por todas essas coisas: "Eu sei, parece que sou uma pessoa completamente nova agora, e acho que sou".
A garota da banda: uma autobiografia
Kim Gordon
Tradução de Alexandre Matias e Mariana Moreira Matias
288 páginas
Fábrica231/Rocco


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