Certo dia, o escritor sexagenário Jean Daragane perdeu sua caderneta de endereços e se esqueceu completamente do assunto. Não era um problema, nenhum dos nomes ali registrados eram os de pessoas que tinham importância na sua vida. Os endereços e números de telefone dessas ele sabia de cor. Sua vida podia seguir tranquilamente sem aqueles nomes cujos rostos ele mal se lembrava. Porém, em uma tarde modorrenta quando menos pensava no assunto, Daragane recebeu o telefone de um homem misterioso: Gilles Ottolini encontrara a caderneta e fazia questão de devolvê-la em mãos para o dono. Intrigado, o escritor aceita se encontrar com Ottolini e sua parceira Chantal Grippay em um café. Tudo está acontecendo de maneira um tanto perturbadora, Daragane não vê a hora de sair dali, até que Ottolini chega em seu ponto: está interessado em informações a respeito de um certo Guy Torstel, um dos nomes registrados. Naturalmente, o escritor não se lembra de nada a respeito desta pessoa, até que é informado pelo homem misterioso de que, na verdade, ele menciona tal sujeito em um de seus livros.
Esse é o pontapé inicial da trama detetivesca do mais recente livro publicado pelo Nobel de Literatura de 2014, Patrick Modiano. Diferente dos outros três livros relançados pela editora Rocco, este é o que se pode chamar de mais convencional do autor - mais direto e menos contemplativo que os demais, consegue prender a atenção do leitor em sua trama do início ao fim, porém, em se tratando de um livro de Modiano, o leitor não deve esperar por uma história policial convencional: não vai haver explicações didáticas sobre a verdade por trás dos acontecimentos e suas motivações, não vai haver pistas, mocinhos, bandidos e grandes revelações; o que há aqui é, mais uma vez, uma trilha seguindo o caminho das memórias e das lembranças, de forma quase onírica, em que Modiano está mais preocupado em adentrar e tatear o que se passa dentro da mente da sua personagem, revelando a maneira que ela percebe os fatos, do que em contar uma história com início, meio e fim.
Gilles e Chantal são insistentes e continuam arranjando maneiras de encontrar com Daragane e tentar fazer com ele que fale sobre o que sabe. Mas o autor está sendo sincero: ele não sabe (ou se lembra) de nada. Até que a imagem de um vestido, um certo nome em um documento, uma rua pela qual ele não passava há tempos, começam a evocar memórias de pessoas e tempos antigos, da época de sua infância. Pessoas e tempos que ele não compreendia direito. E assim, ele próprio começa sua investigação particular acerca de um passado há muito soterrado. Quem é familiarizado com o conceito freudiano de recalque vai perceber que o mecanismo é a matéria-prima com o qual Modiano trabalha no livro, fazendo com que a grande verdade que está por vir à tona seja aquela que, de tão traumática, foi completamente apagada da memória de seu sobrevivente. O que é fascinante é que nada disso é entregue de bandeja: o texto conta com a interpretação do leitor para que possa se completar.
Costumava ficar de olhos fechados no cinema. Para ele, as vozes e as músicas dos filmes eram mais sugestivas do que as imagens. Veio-lhe à lembrança, então, uma frase do filme daquela noite, emitida por uma voz abafada antes de as luzes se reacenderem, e ele tinha a ilusão de que era ele próprio quem a pronunciava: 'Que caminhos estranhos eu tive de percorrer para chegar até você.'
Para você não se perder no bairro
Patrick Modiano
Tradução de Bernardo Ajzenberg
144 páginas
Editora Rocco


1 pensamentos
Uau! Este é o tipo de livro do qual eu não me aproximaria normalmente, mas com essa resenha estou curiosa para a leitura. Ótimo texto.
ResponderExcluirGislaine | Paraíso da Leitura