Soppy: os pequenos detalhes do amor, Philippa Rice


Geralmente quando pensamos em realismo sobre relacionamentos, pensamos no lado obscuro que as histórias românticas não contam: a culpa pelos pensamentos de infidelidade, o tédio pela companhia do parceiro ou da parceira, as manias que se tornam irritantes, a rotina sem sabor do dia-a-dia, e por aí vai. O amor romântico cada vez mais vem sendo questionado: pessoas como a psicanalista Regina Navarro defendem que este amor idealizado, tão disseminado na cultura pop, não passa de um mito que gera ansiedade devido às elevadas expectativas que um parceiro coloca sobre o outro e torna qualquer relacionamento um inferno a longo prazo. Para outras pessoas, essa seria uma visão muito cínica do amor, sendo possível, com alguns ajustes e muita paciência, manter um relacionamento estável, longo e monogâmico sem perder o encanto. O livro em quadrinhos da britânica Philippa Rice se encaixa na segunda categoria. Ainda que um relacionamento amoroso esteja repleto de tédio, desentendimentos, contas a pagar, vontade de escapar, mentiras sinceras e choques de realidade, a artista opta por mostrar lado bom de viver na companhia de alguém - não através do fogo da paixão e dos gestos grandiosos, mas dos pequenos detalhes do dia-a-dia como um chá trazido de surpresa, deitar enroscadinho no sofá, fazer compras juntos, a negociação de tarefas, as implicâncias, o companheirismo. Aquelas coisinhas que, nos momentos de crise, são facilmente esquecidas. E foi justamente por essa tendência de esquecermos ou ignorarmos os pequenos e bons momentos juntos que Philippa começou a trabalhar no livro, originalmente um diário íntimo: "Eu fazia desenhos usando as coisas que aconteciam em casa com Luke [Pearson, ilustrador e seu namorado], apenas como experimentos. E coloquei alguns online há uns anos atrás e eles tiveram uma recepção muito boa. Então de vez em quando eu fazia esses desenhos, quando acontecia alguma coisa e eu pensava 'Esse é um momento legal, vou desenhá-lo'", disse ela ao Telegraph.

O conceito visual, todo em vermelho, branco e preto, foi inspirado por quadrinhos de Yves Saint Laurent (La vilaine Lulu) e Karine Bernadou (Canopée), em uma escolha acertada: as cores deram às ilustrações um ar moderno, combinando com o casal e seu cenário: os arredores de Nottingham, onde vivem. Além disso, toda essa explosão de vermelho reforça visualmente o amor do casal, presente em cada quadro, mesmo quando não estão juntos.



A expressão soppy (encharcado/ensopado) é equivalente ao nosso meloso e em certos aspectos, assim é o livro: repleto de carinho, romantismos, abraços e conchinhas. Mas Philippa consegue evitar recair no brega e tempera com muito humor as situações e os diálogos vividos pelo casal, retratando a si mesma como a metade menos sentimental - o que demonstra a maneira como a artista parece se sentir acolhida por seu amoroso namorado. É particularmente divertida a cena em que Luke oferece fazer chá à companheira, que pede para que ele faça também biscoitos - o que ele se nega. Ao trazer a xícara para companheira, ela questiona: "Os biscoitos ficaram na cozinha?", ao que ele responde, "Sim. Em ingredientes separados."

Philippa Rice
Essas situações, tão comuns no cotidiano de um casal, são o que fazem de Soppy um livro fácil para qualquer pessoa que esteja ou já tenha estado em um relacionamento íntimo se identificar - sobretudo as mulheres, já que o ponto de vista de Luke é menos abordado. Delicado, o livro dá um quentinho no coração até mesmo daqueles que estão evitando se envolver, e certamente farão os solteiros se lembrarem de como pode ser saudável estabelecer uma relação de confiança e parceria mútua. Os quadrinhos, com pouquíssimo texto, são pura poesia romântica visual, que celebra o lado bom do amor sem tirar os pés de chão. E o grande barato de vislumbrar um pouco da intimidade de Philippa e Luke é perceber que em matéria de intimidade, somos todos mais parecidos que imaginamos.

Em tempo: Para ler ouvindo Vagalumes Cegos.


SOPPY: Os pequenos detalhes do amor
Philippa Rice
Tradução de Gustavo Figueiredo
112 páginas
Fábrica231/Rocco

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