52 FILMES DIRIGIDOS POR MULHERES: MÊS #4




Depois de um hiato de dois meses, volto ao projeto com os filmes escolhidos em agosto.

Continuo postando as dicas no Instagram, usando a hashtag #ProsaFilmsByWomen e também no Tumblr.


Eu sou Ali (I am Ali, EUA, 2014)
⭐⭐⭐ 

Documentário a respeito da vida do grande pugilista Muhammad Ali, falecido em junho. Ali ficou famoso não apenas por ser um dos mais rápidos boxeadores como por seu envolvimento em questões humanitárias, arriscando sua carreira ao se recusar a ir para a guerra do Vietnã e questionando o lugar do negro na sociedade americana, se aliando aos movimentos de luta pelos direitos civis. Dirigido e roteirizado por Clare Lewins, o documentário foi gravado enquanto Ali já definhava pelo Mal de Parkinson que o mataria, e traz diversas gravações de Ali em áudio e vídeo, além de entrevistas com sua família, amigos e colegas de trabalho. É um filme muito caprichado, bem escrito, bem montado, mas funciona mais como uma homenagem, evitando se aprofundar em temas muito delicados. Alguns dos erros e defeitos de Ali estão lá, mas a diretora evita temas muito dramáticos da biografia dele. Mesmo assim, vale o registro.


Trabalhar Cansa (Idem, Brasil, 2011)
⭐⭐⭐ 

Dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, o filme é um suspense psicológico que transforma em filme de terror os problemas da classe média convencional, como o desemprego, o sonho do empreendedorismo, o tédio. A protagonista, que a princípio parece uma doce e determinada dona de casa, logo se torna uma insuportável tirana, a medida que as coisas não saem exatamente como ela deseja. Interpretei como uma. grande paródia de filmes de terror, uma metáfora buscando escancarar (literalmente) os esqueletos escondidos e as máscaras sociais. É uma boa novidade no cinema brasileiro, mas mediano em geral.


Meu rei (Mon roi, França, 2015)
⭐⭐⭐⭐⭐

Meu Rei é um drama francês que retrata um relacionamento abusivo de forma muito sensível e inteligente.

À primeira vista, o cartaz pode passar a ideia de um filme romântico. Mas basta olhar com atenção para perceber que enquanto ela parece estar totalmente entregue, por baixo, quase sem que possamos ver seu rosto e reconhecê-la, ele domina o quadro com uma expressão que se assemelha mais a uma mordida que um beijo. A inteligência do filme é esta: diferente do que pensa o senso comum, nem todo relacionamento abusivo consiste em surras, ameaças, controle, desprezo e ódio. É justamente o carisma, o cuidado e o amor que o parceiro demonstra ter que faz com que muitas pessoas se envolvam em uma relação tóxica de dependência emocional sem perceberem o quanto estão sendo manipuladas.

A diretora Maïwenn acompanha o casal por um período de dez anos, mostrando tudo passo a passo: o momento em que eles se conhecem e ele parece ser um homem maravilhoso, divertido, bem-sucedido, carismático. Em pouquíssimo tempo, já está declarando seu amor e falando em casamento. A ex é retratada como uma desequilibrada que não aceita o fim da relação; apesar disso, ele permanece amigo dela, quase um tutor. Muito divertido, ele faz “brincadeiras” de tar tapinhas nela em público, mas ela não se importa. Eles se casam. Ela quer ter um filho. Primeiro sinal de alerta: a ex tenta cometer suicídio. A partir daí, a relação começa a entrar num espiral descendente, permeado por mentiras, abandono e abuso psicológico.

Uma cena em particular me chamou atenção: quando já refeita, ele comenta que ela está diferente, e ela responde de maneira tranquila “eu voltei a ser eu mesma”. Me identifiquei principalmente por ser uma frase que eu mesma venho dizendo, depois de passar alguns anos me recompondo também de um relacionamento emocionalmente abusivo. Vi algumas críticas que diziam que o relacionamento era tóxico porque ambos faziam mal um ao outro. Não é verdade. Eles se amam, sim, mas ele destrói a estabilidade emocional dela, que passa a tentar reagir, desesperada para também ser um sujeito na relação. Merece ser conferido.


Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles (Idem, Bélgica/França, 1976)
⭐⭐⭐⭐⭐

Jeanne Dielman é um clássico, considerado uma obra-prima feminista, mas certamente não é para todos os gostos: com um pouco mais de três horas de duração, quase nada acontece na tela. Não há ação, não há luta, não há dramas e nem alegrias. Os diálogos são pouquíssimos. O filme é todo feito de silêncios, e sua força é sustentada pela atuação contida de Delphine Seyrig.

O longa acompanha, do início ao fim, três dias na vida de Jeanne - desde que acorda até a hora em que vai dormir. Não sabemos quem de fato é essa mulher, o que pensa, quais são seus desejos, seus medos, seus sonhos, sua personalidade. Tudo o que sabemos é que ela é uma dona de casa exemplar e uma viúva que recebe clientes em segredo diariamente para manter a si mesma e a seu filho. Metódica, Jeanne cumpre sua rotina como se fosse um ritual, sem demonstrar nenhum tipo de emoção ou reação em seus dias sempre (aparentemente) iguais.

A diretora Chantal Akerman estabelece uma atmosfera claustrofóbica, em que o espectador é levado a ir se sentindo cada vez mais incomodado e sufocado com tanto vazio e banalidade. E é justamente este que parece ser o ponto: mostrar como são vazias, banais e solitárias as vidas das donas de casa, geralmente invisíveis, mostrar como pode se virar pra sobreviver uma mãe sem emprego ou marido. Mas há uma reviravolta. Se no primeiro dia tudo sai perfeito, no segundo, eventualidades começam a atrapalhar o ritual diário da dona de casa e isso não muda no terceiro, de forma que começa a ser possível captar a crescente, mas crescente, frustração da mulher: é possível perceber que alguma coisa está para acontecer, mas não dá para prever o quê. Apesar de muito longo e maçante, não me senti entediada e assisti com interesse do início ao fim.

Pra quem gosta/está habituado/tem interesse em cinema de imersão, recomendo demais. E destaque para esse design de produção lindo.

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