[Drops] 3 livros: O conto da Aia | Submissão | Pequenas grandes mentiras


Inaugurando aqui no blog a sessão [Drops], com mini-resenhas de três livros. São pequenas impressões de leituras que eu posto no Instagram e que achei que talvez valesse o registro no blog, que anda tão parado. Não tem pretensão de substituir o valor de uma resenha ou avaliação propriamente dita.

O Conto da Aia (The Handmaid's Tale), Margaret Atwood
Rocco; 368 páginas
Tradução: Ana Deiró

"Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos políticos das mulheres sejam questionados", escreveu Simone de Beauvoir e Margaret Atwood se incubiu da tarefa de imaginar um momento no tempo futuro em que os Estados Unidos, em guerra contra o terrorismo islâmico, se transforma em um regime totalitário neopentecostal, de forma que as mulheres são as principais atingidas pelo conservadorismo extremo, sendo divididas em categorias de acordo com a sua função na sociedade: mulher burguesa (Esposa de Comandante), barriga de aluguel (Aia), trabalhadora doméstica (Martha), mulher pobre (Econoesposa), doutrinadora (Tia).

A história se passa durante a transição da sociedade americana dos anos 80, então livre, e a tomada de poder pelos fundamentalistas. Tudo é relatado em forma de diário por uma Aia cujo nome não chegamos a saber, alternando entre a vida perdida no passado e o seu momento presente. Em determinados pontos desconcertantes, Atwood faz paralelos entre ações feministas da época, como uma fogueira feita para queimar revistas eróticas, ou as críticas às revistas femininas e um mundo em que nem as revistas existem mais e nem as mulheres têm permissão para ler ou escrever o que quer que seja. Se antes as cantadas de rua eram ruins, agora as mulheres andam cobertas e muito mal podem trocar palavras entre si, menos ainda com homens, com a justificativa de que assim elas estão seguras e são respeitadas. Enfim, um aceno para o fato do quanto qualquer radicalismo pode ser perigoso e levado ao extremo quando apropriado de maneira distorcida. Um momento em especial, quando mulheres são incitadas a linchar um suposto estuprador, é de gelar a espinha, demonstrando como é fácil agir exatamente da forma opressora a qual você mesma está submetida. O mais triste é que, evocando Beauvoir mais uma vez, tudo isto é possível graças à cumplicidade das próprias mulheres que podem ter algum tipo de poder sobre as outras. Nesta sociedade profundamente patriarcal, há uma espécie de organização matriarcal em que as mulheres oprimem e controlam umas às outras. Para o seu próprio bem!

Diferente da série, no livro os homossexuais não têm muito destaque e são mencionados pontualmente. A abordagem aqui é totalmente voltada para a perda dos direitos femininos -- um gay no armário ainda poderia estar em uma situação menos opressora comparado a maioria das mulheres da história. Também não há muita representatividade negra, o que faz sentido devido à época em que foi escrito: era inimaginável pensar em um governo totalitário que considerasse o bastante negros para altos cargos ou mesmo aias de família.

Uma distopia perturbadora, que toda mulher deveria ler.

Submissão (Soumission), Michel Houellebecq
Alfaguara; 264 páginas
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar

Talvez eu não devesse ter lido esse livro após "O conto da aia" porque o machismo e a apatia aqui tiveram um efeito muito mais brutal. Em um primeiro momento, não captei as intenções de Houellebecq até entender de fato sobre o que se tratava: a alienação e acomodação da intelectualidade ocidental, facilmente seduzida com vantagens como dinheiro e sexo, que levaria a sociedade europeia em direção ao suicídio cultural. Ou seja, a submissão aqui aos valores islâmicos não é forçada, mas voluntária. Ou ao menos se dá por omissão.

O personagem principal, François, representa, como seu nome sugere, a sociedade francesa. Absorto em seu campo de trabalho, ele dá pouca importância ao que acontece a seu redor. De humor depressivo, apático e anestesiado, François está muito mais preocupado em conseguir manter uma vida afetiva e sexual ativa do que com a política de seu país. São as estudantes dos primeiros anos que mais ocupam sua atenção. E é bem desagradável não apenas ler como o protagonista se refere às mulheres, como a própria construção das personagens femininas, que não passam de projeções de fantasias masculinas: a ex, muitos anos mais jovem, por quem ele ainda nutre sentimentos e que aparece de repente em sua casa, com roupas provocantes e já pronta para o sexo (ainda que seja difícil de conceber isso, principalmente porque no dia seguinte ela vai almoçar com os pais, provavelmente vestida daquela maneira); a professora com anos de experiência, orientadora de doutorandos que, em um jantar em sua casa, não profere nenhuma opinião sobre nada, se limitando a trazer "pratos deliciosos" e por aí vai. Não é acidental: mais para frente, iremos ver duas mulheres ocupando as mesmas posições de fantoche sexual e cuidadora dedicada, mas em outro contexto, como esposas de um membro do partido da Fraternidade Muçulmana, o que nos leva a pensar que o papel das mulheres no imaginário masculino seja ele de onde for, não muda.

O livro é provocativo, controverso e, às vezes, chato. Combinando esta leitura com a de "O conto da aia", o que fica claro é que em qualquer regime autoritário as verdadeiras submissas serão as mulheres. Sem direitos e funcionando como moeda de troca.

Pequenas Grandes Mentiras (Big Little Lies), Liane Moriarty
Intrínseca; 400 páginas
Tradução: Adalgisa Campos Silva

É um thriller que trata de aparências e julgamentos sociais, com diálogos um pouco sofríveis e alguns clichês de gênero. O que mais me incomodou foram os recursos tão óbvios de tentar despistar o leitor que tiveram o efeito contrário. O grande suspense que permeia a história, sobre quem é o personagem assassinado e quem foi o autor do crime, pode ser deduzido com facilidade pelo leitor muito antes da revelação.

Por outro lado, ela acerta bem na forma como mostra o que se passa no interior das personagens, levando o leitor a entender a mente daquelas mulheres, cada uma lidando com fantasmas diferentes. Também gostei bastante da forma como retrata a dinâmica dos relacionamentos abusivos e a violência doméstica. Um dos pontos principais é que qualquer mulher, por mais bem-sucedida, esclarecida e rica, está sujeita à violência de homens aparentemente cativantes, esclarecidos e bem-sucedidos.

A escrita não é muito envolvente, mas a abordagem é boa e deu origem a uma série de TV que vai direto ao assunto e, na minha opinião, melhora os problemas da narrativa. Vale mais ver a série que ler o livro. 

[Drops] #2: Erased | Ao Haru Ride | Orange
[Drops] #3: A série Napolitana, Elena Ferrante
[Drops] #4: Patti Smith: Só Garotos e Linha M | Outros jeitos de usar a boca, Rupi Kaur

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