Diário de Leitura: Mulheres que correm com os lobos #3 [A corajosa Vasalisa e o resgate da intuição - parte II]


Continuação do post A corajosa Vasalisa e o resgate da intuição - parte I.

Vamos ao fichamento do que diz Clarissa Pinkóla Estes sobre as quatro últimas tarefas psíquicas no resgate da intuição da mulher, a partir do conto russo Vasilisa.

Para compreender uma história dessas, consideramos que todos os seus componentes representam a psique de uma única mulher. Dessa modo, todos os aspectos da história pertencem a uma única psique que passa por um processo de iniciação. A iniciação é representada pelo cumprimento de certas tarefas. Nesse conto, há nove tarefas a serem cumpridas pela psique. 

6ª tarefa: Separar isso daquilo

Nesta parte da história, uma das tarefas é a seguinte: "separar as coisas umas das outras com o melhor discernimento, aprender a fazer distinções sutis".

"Pede-se a Vasalisa que separe quatro substâncias, o milho mofado do milho são, e as sementes de papoula do estrume. A boneca intuitiva realiza essa separação. Às vezes, esse processo de separação ocorre num nível tão profundo que ele mal chega ao nosso consciente, até que um dia..." (p. 118)

"A separação relatada nessa história é do tipo que surge quando nos deparamos com um dilema ou com uma pergunta, mas sem que nos ocorram muitas ideias que nos ajudem a resolver a questão. Se a deixarmos em paz, no entanto, e voltarmos mais tarde a ela, pode ser que uma boa solução esteja à nossa espera ali onde antes não havia nada. (...)É um fenômeno o fato de uma pergunta feita quando a pessoa vai dormir, com a prática, suscitar uma resposta quando a pessoa desperta". (p. 118)

O jardim

A seguir, um longo trecho a respeito do cultivo do jardim enquanto prática terapêutica e de meditação. Foi um trecho que me deixou refletindo durante um tempo, ainda mais por eu ser uma pessoa que não consegue nem cuidar de uma planta, todas acabam morrendo, prefiro gatos por, entre outros motivos, dar menos trabalho e tudo mais. Fiquei imaginando se eu teria paciência e disciplina suficientes para lidar com um jardim e pensando que, de fato, poderia ser uma experiência psicológica importante, principalmente para lidar com os processos de vida e morte. Grifo meu.

"Às vezes, com o objetivo de aproximar uma mulher da natureza da vida-morte-vida, eu lhe peço que cuide de um jardim. Seja ele psíquico, seja ele de lama, estrume e verdura, bem como de todas as coisas que cercam, ajudam e atacam. Que ele representa a psique selvagem. O jardim é um vínculo concreto com a vida e a morte. Eles nos ensinam profundas lições espirituais e psicológicas. Qualquer coisa que possa acontecer a um jardim pode acontecer à alma e à psique -- excesso de água, falta de água, pragas, calor, tempestades, enchentes, invasões, milagres, ressecamento, reverdecimento, bênçãos, cura.

(...)No jardim, adquirimos prática para deixar que pensamentos, ideias, preferências, desejos e até mesmo amores vivam e morram. Plantamos, arrancamos, enterramos. Secamos sementes, fazemos a semeadura, protegemos as plantinhas.

O jardim é uma prática de meditação, a de dizer a hora de alguma coisa morrer. No jardim, podemos ver chegar a hora de desfrutar e a hora da regressão. No jardim, estamos nos movendo de acordo com a inspiração e a expiração da grande natureza selvagem, não contra ela". (p.120)

7ª tarefa: Perguntar sobre os mistérios

Neste estágio, o objetivo é "aprender a verdade acerca da capacidade de compreender todos os elementos da natureza selvagem ('saber demais pode envelhecer a pessoa antes do tempo')".

"Vasalisa pergunta sobre os homens a cavalo que viu enquanto procurava o caminho até o casebre de Baba Yaga: o homem de branco no cavalo branco, o de vermelho no cavalo vermelho e o de negro no cavalo negro. (...)São eles que puxam o sol para que cruze os céus durante o dia, e que puxam a cortina das trevas para encobrir o céu à noite. Mas não é só isso. (p.121)

"Os cavaleiros de negro, de vermelho e de branco simbolizam as antigas cores associadas ao nascimento, à vida e à morte. Essas cores também representam velhas ideias de descida, morte e renascimento -- o negro significando a dissolução de antigos valores; o vermelho, o sacrifício de ilusões mantidas anteriormente; e o branco, a nova luz, o novo conhecimento que deriva de ter vivenciado as duas primeiras cores". (p. 121-122)

O negro, o vermelho e o branco

"O negro é a cor da lama, da fertilidade, da substância básica na qual semeamos nossas ideias. No entanto, o negro é também a cor da morte, do escurecimento da luz. O negro tem ainda um terceiro aspecto. Ele é a cor associada àquele mundo entre os mundos (...)pois o negro é a cor da descida. O negro é uma promessa de que você logo irá saber algo que antes não sabia". (p.122)

"O vermelho é a cor do sacrifício, da fúria, de matar e de ser morto. No entanto, o vermelho é também a cor da vida vibrante, da emoção dinâmica, da excitação, de eros e do desejo. É uma cor considerada um poderoso medicamento para enfermidades psíquicas, uma cor que desperta o apetite. (...) O vermelho é uma promessa de que uma ascensão ou um nascimento está por acontecer". (p.122)

"O branco é a cor do novo, do puro, do imaculado. É a cor da nutrição essencial, do leite materno. Por outro lado, é a cor dos mortos, daquilo que perdeu seu tom rosado, o rubor da vitalidade. Quando surge o branco, tudo fica, temporariamente, sem nenhuma inscrição. O branco é uma promessa de que existe nutrição suficiente para que tudo comece de novo". (p.122)

Estes trechos me levaram direto a lembrar de "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago, em que uma epidemia de cegueira branca, leitosa, toma conta de uma sociedade. É a cegueira daqueles que viam mas não reparavam, a cegueira do que perdeu a cor -- nesse caso, dos que perderam a sensibilidade. Ao mesmo tempo, foi a partir desta cegueira que os seres humanos daquele universo foram levados a um estado primitivo de animalização, um estado de degradação que, ao chegar a determinado ponto, encontrou "nutrição suficiente" para que tudo começasse de novo.

Saber demais pode envelhecer a pessoa antes do tempo
"Há uma quantidade determinada de coisas que todos deveríamos saber em cada idade e cada estágio das nossas vidas. Na história, conhecer o significado das mãos que aparecem e espremem o óleo de milho e da semente de papoula, dois medicamentos que por si sós podem ser revitalizantes e fatais, é querer saber demais". (p.123)

"Nessa parte, a Yaga faz alusão a outro conjunto de ciclos da vida feminina. À medida que a mulher passa por eles, ela compreende cada vez mais esses ritmos femininos interiores, dentre eles os ritmos da criatividade, da parição de filhos psíquicos e talvez de filhos humanos também, os ritmos da solidão, da brincadeira, do descanso, da sexualidade e da caça. Não é preciso forçar nada; a compreensão virá. Algumas coisas precisam ser aceitas como fora do nosso alcance, muito embora elas nos influenciem e nos enriqueçam". (p.124)

8ª tarefa: de pé nas quatro patas

As tarefas desta parte são as seguintes: "assumir um poder imenso de ver e afetar os outros. Ver as situações da própria vida com essa nova luz".

"O lugar da mãe-boa-demais é o mundo da superfície. Embora a doçura tenha condição de se adaptar ao mundo selvagem, o mundo selvagem não consegue ficar muito tempo restrito aos limites da doçura". (p. 125)

"Quando a mulher integra esse aspecto da Yaga, ela deixa de aceitar sem questionamento cada sugestão, cada farpa, qualquer coisa que lhe apareça pela frente. Para conquistar um distanciamento mínimo da carinhosa bênção da mãe-boa-demais, a mulher aos poucos aprende não só a olhar, mas a fixar os olhos e a vigiar com atenção, e cada vez mais a não ter paciência com gente enfadonha". (p. 125)

"Algumas mulheres receiam que esse profundo conhecimento por meio do instinto e da intuição irá torná-las irresponsáveis ou desmioladas, mas esse é um medo infundado. Vale o contrário. A falta de intuição, a falta de sensibilidade para com os ciclos ou a negação a seguir o próprio conhecimento dão origem a escolhas que acabam se revelando infelizes e até mesmo desastrosas". (p. 125)

Se a psique instintiva disser "Cuidado!", a mulher deve prestar atenção. Se a intuição profunda disser "Faça isso, faça aquilo, vá por esse lado, pare aqui, siga em frente", a mulher deverá corrigir seus planos conforme seja necessário. Ela não é descartável. Ela deve ser consultada a cada passo do caminho, quer o trabalho da mulher seja o de enfrentar um demônio interior, quer seja o de completar alguma tarefa no mundo externo.
"Assim, lá vai Vasalisa pela floresta escura adentro com a caveira na vara. Ela perambulou um pouco para chegar até Yaga, mas agora volta para casa com maior segurança, maior certeza, com a postura ereta, voltada para a frente". (p. 126)

"Ela conseguiu transpor as trevas ao ouvir sua voz interior e foi capaz de suportar o rosto da Megera, que é um aspecto da sua própria natureza, mas também da poderosa natureza da Mulher Selvagem. Ela está, portanto, capacitada para compreender poderes espantosos e conscientes, dela mesma e de outros. Nada mais de 'mas estou com medo'. (...) Ela não precisa mais sentir falta de confiança ou de potência. (...) Segue adiante na vida, com os pés firmes, um atrás do outro, como uma mulher. Ela aglutinou todo o seu poder e agora vê o mundo e sua vida através desse novo enfoque". (p. 126-127)

9ª tarefa: reformular a sombra

No último estágio, estas são as tarefas psíquicas: "usar a própria visão aguçada para reconhecer a sombra negativa da nossa própria psique e/ou os aspectos negativos das pessoas e acontecimentos do mundo exterior bem como para reagir a eles".

Este último estágio ocupa 9 páginas do livro e talvez seja a parte mais importante - eu marquei quase inteiras todas as páginas. O fichamento está longo e faço alguns comentários no caminho, mas acredito que valha a pena a leitura. Editei o texto para a leitura fluir melhor. Grifos meus.

Resgatada a intuição
"Vasalisa traz a caveira incandescente numa vara diante de si enquanto atravessa a pé a floresta, e sua boneca indica o caminho de volta. Uma luz ardente emana dos olhos, ouvidos, nariz e boca da caveira. Ela é a representação de todos os processos psíquicos que estão ligados à discriminação. Pois a caveira é uma representação da intuição - ela não faz mal nem a Yaga nem a Vasalisa e dispõe de uma poder de discriminação exclusivo. Vasalisa agora leva a chama do conhecimento.Ela é dona do seu próprio Self.

Com esse poder formidável às suas ordens, não é de surpreender que ocorra ao seu ego que talvez fosse melhor, mais fácil e mais seguro, livrar-se dessa luz ardente. No entanto, uma voz sobrenatural de dentro da caveira recomenda que ela fique calma e siga em frente. E isso ela consegue fazer.

Cada mulher que resgate a sua intuição chega ao ponto em que se sente tentada a se desfazer deles, pois de que adianta ver e saber todas essas coisas? Essa luz da caveira não perdoa. É uma patrulha de reconhecimento perpétua.

No entanto, quando a pessoa dispõe dessa capacidade de ver e de pressentir, é preciso fazer algo a respeito do que se viu. Possuir uma boa intuição e um poder considerável gera trabalho. Gera trabalho, a princípio, pela observação e compreensão das forças e desequilíbrios negativos tanto de fora pra dentro quanto de dentro pra fora.

É mais fácil jogar fora a luz e ir dormir. É verdade que é bem difícil segurar a luz da caveira à nossa frente em algumas ocasiões. Pois, com ela, vemos nitidamente todos aspectos de nós mesmas e dos outros, tanto os deformados quanto os divinos, além de todas as condições intermediárias. (...) Pode-se entender muito em vez de apenas sentir perplexidade.

Não obstante, há horas em que suas informações são dolorosas e quase insuportáveis, pois a caveira aponta para o lugar onde se trama a traição, onde a coragem falta àqueles que dizem o contrário. Ela denuncia a inveja oculta como gordura fria por trás de um sorriso de carinho. Ela indica os olhares que são meras máscaras para a aversão. No que diz respeito a nós mesmas, sua luz brilha com a mesma intensidade: ela ilumina nossos tesouros bem como nossas fraquezas.

São esses conhecimentos que são mais difíceis de encarar. É nesse ponto que sempre temos vontade de jogar fora essa maldita perspicácia nossa." (127-129)

Discriminando situações e pessoas tóxicas
"Não podemos manter a conscientização adquirida se convivermos com seres cruéis interna ou externamente. Se estivermos cercadas de pessoas que reviram os olhos e olham para o teto demonstrando repulsa quando estamos por perto, quando falamos, agimos e reagimos, isso é um sinal de que estamos com pessoas que abafam as paixões - as nossas e provavelmente as delas mesmas. Não são pessoas que liguem para nós, para nosso trabalho, para nossa vida.

A mulher deve escolher seus amigos e companheiros com prudência pois tanto uns quanto os outros podem se tornar parecidos com a madrasta má e sus filhas perversas. No caso dos companheiros, costumamos investi-los com o poder de um grande mago. É fácil que isso aconteça, pois, se realmente conquistamos intimidade, é como se estivéssemos abrindo um lugar mágico, ou pelo menos é o que nos parece. Um companheiro pode gerar e/ou destruir até mesmo nossos vínculos mais duradouros com nossos próprios ciclos e ideias. O companheiro destrutivo deve ser evitado.

Ter um companheiro/amigo que a considere como uma criatura viva, em crescimento, um companheiro e amigos que apoiem a criatura que existe em você...são essas as pessoas por quem você está procurando. A escolha criteriosa de amigos e companheiros, para não falar nos mestres, é de importância crítica para continuar consciente, para continuar intuitiva, para manter o controle sobre a luz incandescente que você vê e sabe." (p. 129-131)

Aprendendo a fazer escolhas
"Nos perguntarmos exatamente o que desejamos é o que separa a semente do estrume. Funciona da seguinte maneira:

Imaginemos um bufê com muitos, muitos quitutes colocados em mesa após mesa. Imaginemos que examinamos tudo e vemos algumas coisas que nos agradam. Podemos comentar com nossos botões, 'Ah! Eu realmente gostaria de comer um pouco daquilo, e disso aqui, e um pouco mais daquele outro prato'.

Alguns homens e mulheres tomam as decisões da vida dessa forma. Existe ao nosso redor um universo que acena constantemente, que se insinua na nossa vida, despertando e criando o apetite onde antes havia pouco ou nenhum. Nesse tipo de escolha, optamos por algo só porque aconteceu de ele estar debaixo do nosso nariz naquele exato momento. Não é necessariamente o que queremos, mas é interessante; e, quanto mais examinamos, mais irresistível ele nos parece.

Quando estamos ligados ao self instintivo, em vez de examinar o que por acaso esteja em exibição, dizemos a nós mesmas: 'Estou com fome de quê? Sem olhar para nada no mundo externo, nos voltamos para dentro e perguntamos: 'Do que sinto falta? O que desejo agora?' Perguntas alternativas seriam: 'Anseio por ter o quê? Estou morrendo de vontade do quê?'

Isso está no bufê? Talvez sim, talvez não. Na maioria dos casos, provavelmente não. Teremos de ir à sua procura por algum tempo, às vezes por muito tempo. No final, porém, iremos encontrar o que procuramos e ficaremos felizes por termos feito sondagens acerca dos nossos anseios mais profundos.

Essa discriminação é uma das lições mais difíceis de aprender, já que ela exige ânimo, determinação e dedicação, e muitas vezes implica esperar pelo que se quer. Em nenhuma outra atividade isso dica mais nítido do que na escolha de companheiros e parceiros. Um companheiro não pode ser escolhido como num bufê. O companheiro deve ser escolhido pelo profundo anseio da alma. Escolher só porque algo apetitoso está à sua frente não irá satisfazer nunca a fome do Self da alma. É para isso que serve a intuição."

Uma vez, conversando com uma amiga que estava vendo poucas perspectivas profissionais no horizonte, mas tinha juntado um bom dinheiro e estava pensando em realizar a viagem dos sonhos, eu sugeri que talvez fosse mais proveitoso investir em algum curso de reciclagem profissional para traçar um objetivo e, a longo prazo, conseguir realizar ambas as coisas. Ela me perguntou "Você abriria mão de um sonho que tá prestes a realizar se aparecesse um curso pra você fazer?" e eu respondi "depende do curso e depende do sonho". Se eu soubesse que ficaria numa situação confortável após realizar o sonho, escolheria o sonho. Se não, talvez não arriscasse. Ela arriscou e foi um dos momentos mais gratificantes da sua vida. Eu, em um passado não tão distante, talvez também tivesse aproveitado a vida e não pensado no amanhã. Hoje em dia, esta não é a minha prioridade. Não escolheria o que está em exibição no bufê, porque apenas me deixaria mais distante do que eu realmente quero. Lembrei dessa história ao ler essa parte do capítulo. Pessoas têm prioridades completamente diferentes, é impossível aconselhar o outro não estando na pele dele, assim como também não é indicado seguir conselhos sem fazer um reflexão profunda daquilo que você realmente quer, independente das tentações que apareçam pelo caminho.

"Outra maneira de reforçar o vínculo com a intuição consiste em não permitir que ninguém reprima nossas energias de vida...ou seja, nossas opiniões, pensamentos, ideias, valores, conceitos morais, nossos ideais. Neste mundo existem muito poucos exemplos de certo/errado ou de bom/mau. Existe, porém, o útil e o inútil. Também existem coisas que às vezes são destrutivas, bem como outras que são construtivas. Devemos, por isso, permitir que nossos ciclos inatos, não uma outra pessoa externa a nós mesmas, determinem as curvas de ascensão e de mergulho na nossa vida." (p.131-133)

Deixar morrer é o tema final da história. Vasalisa aprendeu sua lição. Ela cai numa crise histérica quando a caveira faz arder as mulheres perversas? Não. O que deve morrer morre.
"Para a maioria das mulheres, deixar morrer não é contra a sua natureza, é contra sua criação. Isso pode ser modificado. Todas nós sabemos no fundo de los ovarios quando chegou a hora da vida, quando chegou a hora da morte. Podemos tentar nos enganar por vários motivos, mas sabemos". (p.135)

Leia também: 
Diário de leitura #1: A Mulher Selvagem
Diário de leitura #2: Barba Azul e o predador psíquico


















































































































































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