[Drops] A mãe de todas as perguntas | Argonautas | Todo dia a mesma noite — a história não contada da boate Kiss


A mãe de todas as perguntas, Rebecca Solnit
200 páginas
Companhia das Letras
Esse livro é uma pancadaria - eu parei e voltei do início várias vezes até engatar. Alguns ensaios eu já havia lido em inglês na internet (aqueles sobre literatura são bem famosos), mas ler tudo reunido assim exigiu um pouco de fôlego, porque incomoda. Quem acompanha a produção feminista contemporânea através das redes está familiarizado com todos os temas tratados aqui pela Rebecca Solnit, o diferencial é que ela procura fazer análises bem ponderadas, sérias mas com bom humor, munida de dados e bagagem teórica em uma linguagem acessível. A primeira parte do livro é a mais afiada; a segunda, um pouco menos, discordo bastante da perspectiva dela sobre literatura, mas entendo que sua provocação seja necessária.
É um bom ponto de partida para quem quer entender melhor de onde vem e o que deseja o feminismo contemporâneo, principalmente pelos ensaios estarem recheados de referências que valem a pena ser pesquisadas.

Argonautas, Maggie Nelson
176 páginas
Autêntica Editora
Embora seja um livro curto, não li "Argonautas" rapidamente. Isso porque procurei digerir com calma, voltando a trechos, fazendo marcações, refletindo em muitas coisas. As memórias de Maggie Nelson são entrelaçadas a reflexões derivadas de suas leituras sobre filosofia e psicologia, tudo partindo da experiência queer, da relação com o corpo e das transformações de um corpo: em seu caso, uma gravidez há muito almejada; do outro lado, a transição de seu marido Harry de mulher a homem trans. A autora procura fugir dos clichês em seus questionamentos e são muitas as chacoalhadas intelectuais que ela oferece ao leitor. Apesar disso, não se trata de um livro acadêmico, mas uma "carta de amor" (como definiu a crítica Camila v. Holdefer) a seu marido, a seu filho e à família que construiu.
A impressão que tive é a de que a configuração familiar de Maggie Nelson (mulher não hétero casada com uma pessoa de gênero fluido, madrasta do filho dessa pessoa e mãe de um garotinho concebido por inseminação artificial) é o que a leva a escrever, tentando dar um sentido e se colocar perante a uma sociedade em que até feministas e LGBTs encontram dificuldades de se livrar do binarismo.
E é daí que surge o título, a partir de uma citação de Barthes sobre o amor: o Argonauta é aquele que "renova seu navio durante a viagem, sem lhe mudar o nome. (...) as partes do Argo são trocadas com o tempo sem que o barco deixe de se chamar Argo". A sua condição enquanto mãe também a leva a fazer reflexões riquíssimas sobre maternidade, infância e a presença das crianças na sociedade e o relato do seu parto, intercalado com um depoimento sobre morte, é um dos mais bonitos e próximos da realidade que já li.
É muito difícil resumir esse livro ou dizer o que ele é, o que por si mostra a maestria da autora em escapar dos enquadramentos até mesmo no que diz respeito ao gênero literário. É uma leitura muito rica, que recomendo a todos.

Todo dia a mesma noite  A história não contada da boate Kiss, Daniela Arbex
248 páginas
Intrínseca
Livro devastador. Procura manter viva a memória das vítimas e humanizar os pais e profissionais que prestaram socorro durante a tragédia através de suas histórias particulares.
Acompanhando pelos jornais, a gente costuma ter uma versão objetiva dos fatos e não têm muita noção do impacto de tudo aquilo nos envolvidos. Neste livro-reportagem, Daniela Arbex (autora do best-seller Holocausto Brasileiro) vai mostrar não apenas o desespero das famílias que não sabiam o que havia acontecido com seus filhos, mas também o ponto de vista daqueles que atenderam a ocorrência, o que viram e sentiram os profissionais de socorro e voluntários, o que aconteceu nos hospitais que receberam as vítimas, todos absolutamente perplexos e completamente despreparados para lidar com uma verdadeira situação de guerra. O cenário visto dentro da boate era pós-apocalíptico, de forma que muitos profissionais não aguentavam o ambiente e começavam a chorar quando entravam lá para retirar os corpos. Os médicos desabafavam em choque - um deles precisou atender o próprio filho semimorto. Mas o mais desolador mesmo são os capítulos sobre os pais precisando entrar no centro esportivo para reconhecer os corpos dos seus filhos, em meio a mais de 200 cadáveres enfileirados.
O que eu não me lembrava é que a maioria daquelas pessoas não morreu em decorrência do incêndio em si, mas da inalação do cianeto que foi produzido quando as chamas atingiram o teto forrado com material irregular - para se ter uma ideia, o cianeto foi a substância usada nas câmaras de gás.
Além de tudo isso, também há os episódios revoltantes, como o funcionário da funerária fotografando o corpo de uma menina com os seios à mostra ou os fiéis de uma igreja culpando os pais por deixarem o filho ir a um lugar tão mundano. Ou, ainda, os promotores que processaram pais por difamação.
Apesar da experiência de leitura ser difícil e dolorosa, o livro é o resultado de um esforço sério, responsável e sensível, que em momento algum busca explorar ou se aproveitar da dor alheia - é um trabalho importante e necessário sobre um capítulo triste da nossa história recente.

"Acompanhada de um policial militar que segurava uma lanterna, Liliane precisou desviar para não pisar em nenhuma das pessoas. Por um segundo, teve a impressão de que muitos dos jovens pelo chão apenas dormiam, embora a morte deles já tivesse sido constatada pelo médico Carlos Dornelles. Quando a enfermeira se ateve ao rosto de cada um, percebeu que a maioria exibia uma fuligem preta na entrada do nariz e uma espécie de espuma branca saindo pela boca, sinais de intoxicação por fumaça.

A capitã da brigada caminhou pela Kiss atordoada não só com o que viu, mas com o barulho dos celulares das vítimas. Os aparelhos tocavam juntos e cada telefone tinha um som diferente. (...) Na maioria dos casos, porém, o visor indicava a mesma legenda: "mãe", "mamãe", "vó", "casa", "pai", "mana". Aquela sinfonia da tragédia era tão insuportável quanto a cena que Liliane presenciava. Como lidar com um evento dessa proporção?"

[Drops] é uma série de impressões de leitura sobre livros, quadrinhos e mangás que não tem a pretensão de funcionar como resenhas formais. Geralmente são comentados 3 livros em cada publicação. Para ver as outras obras comentadas, clique 
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