[Drops] Canção de ninar | O amor dos homens avulsos | Clube da luta

O amor dos homens avulsos, Victor Heringer
Companhia das Letras
Eu conhecia o trabalho de Victor Heringer pelos textos que ele publicava em alguns veículos e pelo Twitter, mas ainda não havia tido a oportunidade de conhecer sua literatura. Tinha muita curiosidade, não apenas por nutrir simpatia pelo autor, como também pelas críticas emocionadas que li sobre O amor dos homens avulsos e pelas indicações de amigos, e agora posso me juntar ao coro: é tudo isso mesmo. Mas não significa que seja perfeito e há pontos que me pareceram desvios do caminho, como o trecho que contou com a contribuição do público e que a mim pareceu longo demais. Já o epílogo, ou a segunda parte, na minha cabeça de leitora, era desnecessária, mais bonito teria sido se o romance terminasse antes. Mas reconheço que se trata de uma questão de gosto, que em nada depõe contra o livro e seu autor.
Já os pontos positivos são muitos: a prosa poética, recheada de neologismos e com pleno domínio da linguagem, o olho clínico para decifrar as coisas, captar seus detalhes, conferir poesia a situações cotidianas sem sacrificar a naturalidade. É um livro cheio de insights, narrado por um personagem com um quê de niilista, que não se deslumbra com nada, que não supera a perda brutal e violenta do seu primeiro amor. Aliás, a história dos dois meninos que se apaixonam em um subúrbio carioca durante os anos 70, um romance improvável entre dois sujeitos improváveis, não é necessariamente o foco, não adentramos a intimidade do casal, não vivemos os momentos de romance que eles viveram. O foco está mais nos sentimentos do narrador, no quanto aquela breve experiência impactou todo o resto de sua vida. É um livro curto e bonito de ler, que mostra todo o potencial de um autor que nos deixou cedo demais. Não sei o quanto de autor se misturou ao romance, mas é curioso que tenha deixado como última obra um livro tão permeado por vazio, mortes e uma noção desoladora da realidade. Talvez daí se explique a necessidade de uma segunda parte, com um pouco mais de leveza e ternura.

Canção de Ninar, Leïla Slimani
Tradução de Sandra M. Stropano
Tusquets Editores

Canção de Ninar venceu o prêmio Goncourt e, desde que a autora, a franco-marroquina Leïla Slimani foi anunciada como convidada da FLIP esse ano, não se parou mais de falar sobre esse livro que já começa de maneira brutal: duas crianças assassinadas pela babá, que jaz ao lado delas com uma faca na garganta. Mas não se deve esperar um livro policial, em que vamos acompanhar uma investigação sobre o caso e reconstituir o crime -- o que interessa é voltar no tempo e procurar examinar o que levou com que uma mulher aparentemente exemplar cometesse crime um tão violento. Mas o mais interessante é que a autora não isenta a babá de culpa, tendo a habilidade de fazer com que a narração de eventos cotidianos pareçam sempre trazer a sombra de alguma ameaça, como se tudo não passasse de uma máscara que a gente não consegue decifrar bem. Nesse sentido, o livro pende um pouco mais para o suspense gótico, em que há sempre um mal com pitadas de loucura à espreita, mas que nem sempre conseguimos alcançá-lo e dizer o que ele é.
O que temos, então, é uma mulher de meia idade, abusada pelo marido falecido, explorada e desumanizada em sua vida profissional e é aqui que o romance demonstra maior força, ao escancarar todo o preconceito de classe a forma como a classe média, seja ela na França ou em qualquer outro lugar, trata as mulheres que prestam serviços domésticos, como seres desprovidos de vida própria, de vontade, de personalidade. Lendo isso, me lembrei de uma conversa que tive uma vez com uma advogada bastante rica, que dizia que a maternidade não precisava ser um fardo para as mulheres bem-sucedidas porque, óbvio, elas podiam pagar uma babá até para acompanhá-las em suas viagens de férias. O que ela não levava em consideração é que o fardo apenas estava sendo colocado nas costas de outra pessoa, que estava deixando de viver a própria vida e cuidar dos próprios filhos em prol do conforto e do sucesso da patroa. Essa é uma tensão complexa entre mulheres que também é abordada no livro: de um lado, a mulher que acaba de se tornar mãe e quer voltar a trabalhar (coincidentemente, advogada também) e encontra resistência do marido, culpa, amigos que se incomodam com a presença das crianças etc.; do outro, a forma como esta mesma mulher acaba explorando e inferiorizando outras, as mais pobres, as imigrantes, as que não conseguiram ser bem-sucedidas. É um baita soco no estômago que Slimani nos oferece, com a habilidade, inclusive, de você sentir empatia por uma assassina. Recomendo.

Clube da luta, Chuck Palahniuk
Tradução de Cassius Medauar
LeYa Brasil
O enredo é simples, a linguagem é simples mas rapaz, esse livro abre possibilidades infinitas de discussões.
Uma frase que chamou a minha atenção durante a leitura é a que diz que os participantes do clube da luta eram homens criados por mulheres. No posfácio o autor comenta que enquanto escrevia o conto que deu origem ao livro ele assistiu a um programa sobre como as gangues de rua eram formadas por jovens criados sem pais, "apenas tentando ajudar uns aos outros para que virassem homens". Eles se organizam de forma militar, com regras, disciplinas, ordens, desafios e premiações. Em determinado ponto, o narrador compara um homem sem pai a um homem que se sente abandonado por Deus. E isso me pegou, me deixou refletindo sobre a relação entre modelos de masculinade, a ausência de paternidade, a naturalização e reprodução de comportamentos e etc.
Também no posfácio, Palahniuk diz que a primeira regra do clube da luta é que "não há nada que um zé ninguém de Oregon com uma educação de escola pública possa imaginar que um bilhão de pessoas já não tenham feito". É uma repetição de algo que ele comenta antes, mas também é uma síntese do livro: homens, pobres, doentes ou que levam uma vida sem sentido ditada pelo consumismo, que se sentem desvalorizados e impotentes e que encontram na luta, na anarquia e no terrorismo uma forma de fazerem parte de algo importante. Não tem nada mais atual que isso.

[Drops] é uma série de impressões de leitura sobre livros, quadrinhos e mangás que não tem a pretensão de funcionar como resenhas formais. Geralmente são comentados 3 livros em cada publicação. Para ver as outras obras comentadas, clique 
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