Hoje nos [Drops] resgato as resenhas que escrevi sobre os dois primeiros volumes de O árabe do futuro, lançados respectivamente em 2015 e 2016 pela editora Intrínseca, e minha impressão de leitura sobre o terceiro volume, que chegou por aqui no ano passado.
O árabe do futuro #1 (1978-1984)
Tradução: Debora Fleck
Em O árabe do futuro -- Uma juventude no Oriente Médio (1978-1984), Sattouf reconta sua história desde o encontro entre seus pais, um sírio e uma francesa, na Universidade Sorbonne, na Paris dos anos 70, até suas experiências passando pelas ditaduras de Hafez al-Assad, na síria, e de Muamar Kadafi, na Líbia, quando criança. Fugindo do panfleto, não são os fatos históricos ou a ideologia que interessam o autor; antes, as impressões, cheiros e sensações que ficaram registradas em sua memória. "Queria fazer algo fiel ao que tenho na cabeça. As lembranças de quando se é criança não se referem apenas a ações, mas a sensações, odores, luzes, sons. Queria fazer um relato completo disso, das coisas fortes que sentimos quando se é criança.Trata-se de uma história de infância em meio ao contexto da época do mundo árabe", contou o autor em entrevista ao Globo.
A escolha por tomar esta direção talvez seja o grande acerto do livro. Sem julgamentos, percebemos o choque cultural entre ocidente e oriente através dos olhos infantis do pequeno Riad, que tem em seu pai, o sunita Abdel-Razak Sattouf, seu grande herói. Defensor do pan-arabismo, o pai de Sattouf é uma figura interessante, mas não exatamente cativante, e contraditória: por um lado, sente-se inferiorizado no mundo ocidental, em que oito anos de trabalho em uma tese de doutorado o levam a ser "apenas" aprovado, não "com louvor", o que em sua visão seria um sintoma de racismo. Ele rejeita um cargo de professor assistente na Universidade de Oxford quando percebe que escreveram seu nome errado, e se candidata a um cargo de professor adjunto em Tripóli, na Líbia, onde é aceito. Sonhando em levar educação ao Oriente Médio, caminho que identificava essencial para que a região saísse do obscurantismo em que vivia, Abdel-Razak demonstra uma inclinação para o negacionismo, não percebendo, ou não assumindo, a hipocrisia, o atraso e a violência a qual ele expõe sua família.
Resenha completa aqui.
O árabe do futuro #2 (1984-1985)
Tradução: Carolina Selvatici
A segunda parte da história sobre a infância de Riad Sattouf no Oriente Médio é ainda melhor que a primeira. Se O árabe do futuro #1 abarca a primeira infância do quadrinista, entre os anos de 1978 e 1984, mostrando como seus pais se conheceram enquanto estudavam na França, o choque sócio-político-cultural entre a democracia francesa e a ditadura que se instalava na Líbia e na Síria, focando no nacionalismo e lealdade às raízes cultivados por seu pai, aqui, ele conta sobre o ano em que sua família retorna novamente ao Oriente, após um breve período de férias na França, e se estabelece no vilarejo de Ter Maaleh, interior da Síria, onde vivia a família do seu pai. Agora, Riad já está na idade escolar (seis anos) e tem um irmãozinho mais novo, Yahya, de quem sente ciúmes - embora este esteja longe de ser o maior dos problemas de sua infância.
Embora o ponto de vista seja o de Sattouf enquanto criança, o livro está longe de ser infantil ou ingênuo; antes, possibilita ao leitor que não está familiarizado com os costumes locais que empatize com o espanto do pequeno Riad, crescendo em uma sociedade com valores diferentes daqueles que ele conhece em casa - e ainda mais diferentes daqueles que vê na França. Mas para o leitor brasileiro, principalmente aquele que conhece a periferia e a favela e aquele com mais de trinta anos, muitas das situações, algumas beirando à barbaridade, não estão tão distantes assim: a pobreza, a falta de saneamento, o machismo, a baixa escolaridade, a discriminação, a desigualdade social, o desprezo ambiental, fazem parte da rotina de um povo cujo traço mais marcante é o fanatismo religioso. Dentro daquele vilarejo, naquela época, durante o regime de Hafez al-Assad, aliado da União Soviética, as pessoas convivem diariamente com uma violência que embrutece muito mais que choca, uma falta de recursos que leva crianças a trabalharem desde cedo para ajudar suas famílias e pessoas a viverem sem itens básicos como um fogão, por exemplo, e uma falta de informação que faz com que mães procurem métodos alternativos antes de levarem seus filhos ao médico, fazendo com que a grande maioria morra por falta de assistência.
O que mais chama a atenção neste segundo volume, porém, é o lugar das mulheres dentro desta sociedade. A começar pela mãe de Sattouf, uma cidadã francesa, que ainda que não seja necessariamente oprimida pelo marido, se vê obrigada a aturar os mandos e desmandos dele para que este não se sinta humilhado perante os seus. Ela é uma mulher inteligente, politicamente consciente, que deixa de investir na própria carreira e deixa a família e o país para trás para seguir o marido, que se candidata a posições acadêmicas na Síria com a crença de que os talentos do próprio país devem produzir dentro do país e o sonho de que a educação e a informação serão as armas para que o tal "árabe do futuro" possa se desenvolver e prosperar. Neste volume, o pai de Sattouf começa a se deparar com uma realidade muito diferente daquela que ele imagina.
O mais interessante na abordagem que Riad Sattouf faz da sociedade síria é que nenhuma das pessoas com quem ele convive ou com quem cruza parecem se considerar oprimidas. Todas confiam bastante no governo e seguem fervorosamente sua religião, sendo absurdo pensar em termos como "desigualdade", "empoderamento", "justiça", "libertação". Não que a questão política seja central na obra - o olhar do quadrinista é muito mais voltado para suas experiências pessoais, sempre se sentindo um peixe fora d'água por mais que tentasse se enturmar, que em discutir questões complexas. Mas elas estão lá, para que o leitor julgue por si mesmo.
Resenha completa aqui.
O árabe do futuro #3 (1985-1987)
Tradução: Debora Fleck
A terceira parte de O Árabe do Futuro cobre um curto período de dois anos e funciona como uma extensão da segunda parte, de forma que seria possível juntar os volumes 2 e 3 em um só. Aqui, Riad está bem adaptado à escola e à cultura local e apesar de privilegiado, não se sente diferente de seus amigos sírios. Em contrapartida, está cada vez mais difícil para sua mãe viver em um vilarejo economicamente atrasado, ainda mais quando ela se descobre grávida do terceiro filho, e seu desejo de voltar pra a França faz com que o relacionamento entre ela e o marido ganhe rachaduras.
O pai de Riad, a figura principal dos livros, sente ambivalência entre ser uma pessoa moderna e respeitar a tradição, e ainda que tenha sérias falhas de caráter, zela pela família e não a coloca em uma situação de privações por autoritarismo: se sentindo um estrangeiro na Europa, ele tem a crença de que na Síria será respeitado e, sendo doutor pela Sorbonne, pra ele é importante trazer os conhecimentos que adquiriu de volta e investir na educação do próprio país. Sua visão é a de que a situação em que vivem é temporária e logo ele irá enriquecer e dar à família tudo o que merece.
É enquanto o pai trabalha para conseguir isso e Riad cresce que se passa este terceiro volume, e Riad Sattouf, enquanto autor, acerta em mostrar os acontecimentos de sua infância pela sua ótica de criança, que não julga aquilo que vê e não tem um olhar contaminado pelo orientalismo.
Continua sendo pra lá de interessante ver como era crescer em um vilarejo no interior da Síria durante os anos 80 e como Sattouf não poupa o pai de parecer um sujeito machista, racista, elitista, nacionalista, egoísta e hipócrita, ainda que sua versão infantil o idolatre.
O volume termina com Sattouf pai declarando que a família vai se mudar para a Arábia Saudita e estou curiosa para saber o que vai acontecer com todos a partir de então.
O quarto volume de "O árabe do futuro" está previsto para ser lançado em agosto de 2018 na França e deve chegar ao Brasil pela editora Intrínseca posteriormente, ainda sem previsão de data.
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