O Rei de Amarelo, Robert W. Chambers

"O mar quebra pela orla, vago,
Os sóis gêmeos afundam sob o lago,
As sombras se alongam,
Em Carcosa."

Com o sucesso da série True Detective, transmitida no Brasil pela HBO, que explora a relação entre os opostos detetives Rust Cohle (Matthew McConaughey) e Martin Hart (Woody Harrelson), que enquanto investigam um obscuro crime na Louisiana descobrem uma intricada história que mistura misoginia, pedofilia e religião, onde se deparam com os nomes "Carcosa" e "Rei Amarelo", em uma clara referência ao livro de Robert W. Chambers, a editora Intrínseca resolveu relançar no início deste ano o livro de contos O Rei de Amarelo, em uma caprichada edição prefaciada e comentada por Carlos Orsi.

Mantendo-se fiel à edição original, o livro é dividido em duas partes: a primeira, com quatro contos entre o sobrenatural e o terror, onde estão concentradas as histórias sobre "O Rei de Amarelo" -- um volume de capa amarela, que contém uma sinistra peça de teatro que todos evitam ler e cujos aqueles que leem, têm suas vidas transformadas. Ou, em alguns casos, eventos estranhos ocorrem e o volume costuma aparecer misteriosamente por perto. Segundo Orsi explica, a capa amarela do volume - assim como os trajes do rei -, seria uma referência à chamada literatura amarela do final do século XIX, em que o amarelo simbolizava o pecado, a doença e a arte moderna (!). Orsi conta que a principal revista literária de Londres chamava-se O Livro Amarelo e que os livros dos autores decadentistas franceses chegavam à Inglaterra encadernados e amarelo. Ele conta uma história curiosa:

"O horror que a literatura 'amarela' francesa causava ao establishment anglo-saxão pode ser visto nesta crítica do jornal Daily Chronicle à primeira edição de O Retrato de Dorian Gray, publicada em 1890, cinco anos antes de O Rei de Amarelo:
'Trata-se de um livro gerado pela literatura leprosa dos decadentes francesas -- um livro venenoso, cuja atmosfera está carregada dos odores mefíticos da putrefação moral e espiritual.'"

Na segunda parte, Chambers envereda por um caminho mais realista, no chamado Quarteto das Ruas, que aparentemente nada têm a ver com os primeiros. As duas partes são dividas pelas histórias "A Demoiselle d'Ys" e "O paraíso do profeta", consideradas de transição por marcarem a passagem do universo fantástico dos primeiros contos, para o realismo dos últimos.

Algumas edições optam por trazer somente os primeiros contos e outros de terror do mesmo autor. Uma outra, também lançada recentemente, inclui o conto "O habitante de Carcosa", de Ambrose Bierce (disponível em português aqui), que inspirou Chambers a criar as histórias de O Rei de Amarelo. Porém, o grande acerto em manter os textos da edição original foi a sensibilidade de perceber que ainda que as histórias da primeira e segunda parte guardem poucas semelhanças, há uma reincidência de nomes de personagens e referências que remetem uma à outra, criando uma espécie de unidade e que fazem suspeitar que não foram incluídos na mesma edição pelo próprio autor à toa.

Um parênteses se faz necessário: o conto original de Ambrose Bierce, que merece ser lido antes de se conferir o livro de Chambers, é todo focado na cidade fictícia de Carcosa e é um daqueles que ficam na mente não pelo terror que inspira - já que este tipo de história foi trabalhada tantas vezes, principalmente no cinema, que hoje se tornou banal -, mas pela ambientação desoladora do lugar, de visual desértico poderoso, certamente uma influência também para o cenário da série de TV.

Na parte um, referente ao Rei de Amarelo, o conjunto lembra a narrativa de filmes como Babel, com vários núcleos que se passam em diferentes locais (e, no caso, até épocas) mas que estão interligados de alguma maneira, complexa. O fato, é que se tratam de quatro situações que se tornam estranhas a medida que a peça amaldiçoada se faz presente. Deste bloco, "O Emblema Amarelo", onde toda noite um certo vigia da rua aparece como cocheiro fúnebre em um sonho, certamente é o mais sinistro dos quatro.

Na parte dois, cada um dos quatro contos tem um nome de rua, como se em cada uma se encerrassem pequenos universos.  Assim como no bloco anterior, nesta parte do livro as referências se cruzam, aparecendo diversas variações dos mesmos personagens (ou talvez vários personagens com nomes iguais, inclusive alguns vistos na parte um). Chambers usa sua própria história como americano estudante de artes em Paris neste quarteto de contos, mais realistas mas de alto teor romântico. Ainda assim, cada um deles deixa no ar a impressão de um mistério não revelado, que muitas vezes podemos adivinhar ou intuir mas que não chega a ser dito. "A Rua dos Quatro Ventos" é aquele em que o autor se sai melhor, criando uma trama que se desenvolve lentamente, mostrando os horrores da guerra.

Muitas vezes algumas obras mal chegam às livrarias e logo são adaptadas para as telas, de maneira a forçar uma grande venda casada de livros com ingressos de cinema/ibope de TV. Neste caso, estamos lidando com uma obra de 1895 que influenciou de Lovecraft a Neil Gaiman e cujo resgate promovido por Nic Pizzolatto em sua True Detective é mais que bem-vindo.

O Rei de Amarelo
Robert W. Chambers
Tradução de Edmundo Barreiros
256 páginas
Editora Intrínseca

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