Diário de Leitura: Mulheres que correm com os lobos #2 [Barba Azul e o predador psíquico]



"O conto do Barba-azul é útil para todas as mulheres, independentemente de serem jovens e terem acabado de saber da existência do predador ou de terem sido acossadas e acuadas por ele décadas a fio, encontrando-se, afinal, preparadas para um confronto final e decisivo com ele."

Este segundo capítulo é especialmente tocante pra mim. Aqui, Clarissa Pinkola Estés vai utilizar o conto Barba Azul para tratar de um tema bem conhecido a todas as mulheres: os predadores e a ingenuidade feminina. O interesse da autora está nos efeitos psicológicos causados pelo envolvimento com predadores, e nas razões que levam mulheres a se envolver com eles ou a fugir.

É um assunto que esteve bastante em voga nas últimas semanas nas redes sociais ao ter sido requentada a polêmica que envolveu o relacionamento entre um casal de músicos para discutir desigualdade de equilíbrio em relações amorosas, autonomia feminina e relacionamentos abusivos e eu creio que o capítulo esteja cheio de contribuições interessantes para o debate, principalmente no que diz respeito ao empoderamento:

"Todas as criaturas precisam aprender que existem predadores. Sem esse conhecimento, a mulher será incapaz de se movimentar com segurança dentro de sua própria floresta sem ser devorada. Compreender o predador significa tornar-se um animal maduro pouco vulnerável à ingenuidade, inexperiência ou insensatez."

Este post em especial ficará maior do que o anterior, e provavelmente dos próximos, porque resolvi extrair não apenas os trechos principais e fazer um panorama geral, mas trechos de cada tópico tratado no capítulo, que considero os mais caros a mim e que podem ajudar outras mulheres a refletirem acerca de suas condições.

Admitir que se está em um relacionamento abusivo é complicado: demora e dói muito. Sair dele exige muita clareza, esforço e energia e no final, costumamos ficar isoladas, feridas e desgastadas. Mal é possível acreditar pelo que passamos. Mas todas um dia passamos, seja por ingenuidade de acreditar no amor romântico, por ingenuidade juvenil que nos faz querer lustrar nossos egos acreditando que temos maturidade para lidar com  situação, pela ingenuidade da inexperiência ou, como a autora diz, pela ingenuidade de achar que se pode 'curar' ou 'consertar' o predador. Ou tudo junto. Os trechos que destaquei trazem um certo alento pela compreensão da autora sobre o assunto, e podem ajudar a trazer também alguma força para as que passaram ou estão passando por essa situação.

Em tempo: está claro que a autora usa a fábula como metáfora não somente dos predadores externos, como também internos. As relações desgasntes podem ser tanto amorosas, quanto profissionais, familiares, religiosas, com uma cultura destrutiva ou os próprios complexos de uma pessoa. No diário, priorizei o foco no relacionamento amoroso heteronormativo por ser aquele com o qual mais me identifico.

"O Barba-azul é uma fábula muito importante para as mulheres jovens, não necessariamente na idade cronológica, mas em alguma parte da sua mente. É uma história sobre a ingenuidade psíquica, mas também sobre o vigoroso desrespeito à proibição de 'olhar' e de afinal trucidar e reduzir a pedaços o predador natural da psique."

O Barba Azul
Para quem não conhece ou não se lembra da história, que a autora usa em uma versão antiga na qual a francesa e a eslava estão fundidas, um breve resumo (ela aparece na íntgra no livro): o Barba Azul era conhecido por ser um homem terrível, o qual todos temiam. Ele cortejava três irmãs ao mesmo tempo que, como todo mundo, morriam de medo dele. Para desfazer essa impressão, Barba Azul leva as três irmãs e sua mãe a um passeio de cavalo e se revela um homem gentil e educado, e tudo sai perfeito. As duas irmãs mais velhas, embora tenham adorado o passeio, permanecem sentindo um medo intuitivo do homem. A mais nova se encanta e aceita se casar com ele. E então os dois vivem muito bem no castelo, até que um dia a família da jovem vai visitá-la, mas o Barba-azul precisa fazer uma viagem. Ele, então, entrega um molho de chaves à esposa e faz uma orientação: ela pode entrar em todos os cômodos e fazer o que quisesse, menos utilizar uma pequena chavinha.

A esposa aceita a ordem com tranquilidade; suas irmãs, porém, ficam curiosas e fazem um jogo para descobrir que porta aquela chavinha abre. Quando finalmente encontram, o horror: o cômodo está cheio dos ossos das ex-esposas de Barba Azul. Assustada, a jovem esposa sai do aposento, mas para seu espanto, a chavinha começa a sangrar sem parar e suja seu vestido. Ela tenta limpar a chave de todas as maneiras, mas é impossível; assim, a esposa esconde a chave no armário, onde mancha todas as roupas.

Ao voltar de viagem, o homem procura saber se suas ordem foram obedecidas. Ao descobrir a "traição", ele diz a esposa que ela será a próxima, mas ela pede 15 minutos para se reconciliar com Deus antes da morte. Com esse tempo, ela consegue ajuda e seus irmãos enfim matam o Barba Azul e ela fica livre.



A seguir, dividirei os tópicos do capítulo, com trechos do livro:

O predador natural da psique
"A história do Barba-azul fala desse carcereiro, o homem sinistro que habita a psique de todas as mulheres, o predador inato. (...)
Vemos que os predadores (...) desejam a superioridade e o poder sobre os outros. Eles sofrem de uma espécie de inflação psicológica pela qual desejam ser mais sublimes do que o Inefável, tão importantes quanto ele ou iguais a ele."

"Em vez de alimentar a luz das jovens forças femininas da psique, ele,prefere encher-se de ódio e deseja extinguir as luzes da psique. (...) Podemos imaginar que sua esperança seja a de que, se ele conseguisse reunir uma quantidade suficiente de almas, poderia acender uma chama de luz que afinal erradicaria as trevas e corrigiria sua solidão."

"Como um rastreador sagaz, o Barba-azul percebe que a filha mais nova está interessada nele, ou seja, que se dispõe a ser sua presa. Ele a pede em casamento e, num momento de exuberância juvenil, que é muitas vezes uma mistura de loucura, prazer, felicidade e interesse sexual, ela diz sim. Que mulher não reconhece esse enredo?"

A mulher ingênua como presa
"A irmã mais nova, a menos desenvolvida, cumpre o roteiro tipicamente humano da mulher ingênua. Ela será capturada temporariamente pelo seu próprio inimigo interior. Mesmo assim, no final escapará mais sábia, mais forte, e sabendo à primeira vista o astucioso predador da sua própria psique."

"Do ponto de vista psicológico, as meninas e meninos são como que dormentes para o fato de que eles próprios possam ser as presas. Embora às vezes nos pareça que a vida seria muito mais fácil e menoa dolorida se todos os seres humanos nascessem totalmente em estado de alerta, isso não acontece."

"A jovem esposa se iludiu. A princípio, ela sentia medo do Barba-azul. Estava desconfiada. Um pouco de diversão no bosque faz com que ela descarte essa intuição. Quase todas as mulheres já passaram por essa experiência pelo menos uma vez. Consequentemente, ela se convence de que o Barba-azul não é perigoso, mas só excêntrico e cheio de idiossincrasias."

Bem, poderíamos nos perguntar se haveria como evitar tudo isso.
"Mesmo com uma criação criteriosa por parte dos pais, a jovem pode, especialmente a partir dos 12 anos de idade, ser seduzida de modo a se afastar de suas verdades por grupos de colegas, forças culturais ou pressões psíquicas, começando assim a assumir riscos com bastante imprudência no esforço de descobrir as coisas por si mesma."

"O problema é que o ego deseja sentir-se fantástico, enquanto um anseio pelo paradisíaco, quando aliado à ingenuidade, não nos deixa realizadas, mas nos transforma, sim, em alvo para o predador."

"Essa aceitação do casamento com o monstro é na realidade decidida quando as meninas são muito novas, geralmente antes dos 5 anos de idade. Elas são ensinadas a não enxergar e, em vez disso, a 'dourar' todo tipo de esquisitice, quer seja agradável, quer não. (...) Esse treinamento básico para que as mulheres 'sejam boazinhas' faz com que elas ignorem sua intuição. Nesse sentido, elas de fato recebem lições específicas para que se submetam ao predador. Imaginem uma loba ensinando seua filhos a 'serem bonzinhos' diante de uma doninha enfurecida ou de uma astuciosa cascavel."

[ O próximo trecho talvez seja o que tenha me atingido mais fundo]

"Muitas mulheres vivem literalmente o conto do Barba-Azul. Elas se casam enquanto ainda são ingênuas a respeito de predadores, e escolhem um parceiro que é destrutivo para com a sua vida. Elas se sentem determinadas a 'curar' aquele a quem amam. Estão, sob certo aspecto, 'brincando de casinha'. Poderíamos dizer que elas passaram muito tempo dizendo que a barba dele afinal não é tão azul assim.

Uma mulher capturada desse modo acaba percebendo que suas esperanças de uma vida razoável para si mesma e para seus filhos diminuem cada vez mais. É de esperar que ela abra a porta do quarto onde jaz toda a destruição da sua vida. Embora possa ser o parceiro físico da mulher quem a prejudique e arrase sua vida, o predador inato dentro da sua própria psique concorda com isso. Enquanto a mulher for forçada a acreditar que é indefesa e/ou for treinada para não registrar no consciente o que sabe ser verdade, os impulsos e dons femininos da sua psique continuarão a ser erradicados. (...)
A promessa enganosa do predador diz que a mulher será rainha de algum modo, quando de fato o que se planeja é seu assassinato."

A chave do conhecimento: A importância de farejar
"O Barba-azul prossegue em seu plano destrutivo ao instruir a esposa a se comprometer psiquicamente. "Faça o que quiser", diz ele. Ele sugere à mulher uma falsa sensação de liberdade."
"A mulher ingênua ou magoada, pode então, com extrema facilidade, ser seduzida com promessas de conforto, diversão e arte, promessas de inúmeros prazeres, de uma ascensão social aos olhos da família, das colegas, ou de maior segurança, amor eterno ou sexo ardente."

"Pensadores no campo da psicologia, como Freud e Bettelheim, interpretaram episódios semelhantes aos encontrados no conto do Barba-Azul como uma punição psicológica pela curiosidade sexual das mulheres. Foi atribuída à curiosidade feminina uma conotação negativa, enquanto a masculina era chamada curiosidade investigativa. As mulheres eram abelhudas enquanto os homens eram indagadores. Na realidade, a trivialização da curiosidade das mulheres (...), representa uma negação do insight, da intuição e dos pressentimentos das mulheres. Ela nega todos os seus sentidos. Ela tenta atacar sua força fundamental."

"Encontrar a mínima porta é importante; desobedecer às ordens do predador é importante; descobrir o que esse quarto abriga de especial é fundamental".

"As perguntas são as chaves que fazem com que as portas secretas da psique se escancarem. (...) Onde você acha que fica essa porta, e o que poderia estar atrá dela?.
É a essa altura que a natureza ingênua começa a amadurecer, a questionar."



O noivo animal
"Uma mulher pode tentar se esconder para não ver as devastações da sua vida, mas o sangramento, a perda da energia da vida, continuará até que ela reconheça a real natureza do predador e o domine.

Quando as mulheres abrem as portas das suas próprias vidas e examinam o massacre nesses cantos remotos, na maior parte das vezes elas descobrem que estiveram permitindo o assassinato de seus sonhos, objetivos e esperanças mais cruciais. Encontram sem vida ideias, sentimentos e desejos; aquilo que um dia foi gracioso e promissor está agora esgotado até sua última gota de sangue. Se esses sonhos e esperanças estiverem vinculados ao desejo de um relacionamento, de uma realização, de obter sucesso, ou de uma obra de arte, quando ocorre essa apavorante descoberta na psique, podemos ter certeza de que o predador animal (...), esteve trabalhando metodicamente na destruição dos desejos mais caros à mulher."

Cheiro de sangue
"O sangue nesse conto não é o sangue menstrual, mas sangue arterial, da alma. Ele não mancha só a chave; ele escorre pela persona inteira. (...) E ver a verdade faz com que esgotemos nossa energia ainda mais."

"E as palavras de que as mulheres mais precisam em situações semelhantes às descritas na história do Barba-azul são as seguintes: O que está atrás da porta? O que não é como aparenta ser? O que eu sei no fundo de mim mesma que preferia não saber? Que parte de mim foi morta ou está agonizando?"
"Uma vez que ela abra aquele aposento na psique que mostra como está morta e retalhada, ela perceberá como diversas partes da sua natureza feminina e de sua psique instintiva foram extirpadas e tiveram uma morte indigna por trás de uma fachada de prosperidade."

Recuar e dar a volta
"Na realidade externa, encontramos mulheres planejando suas fugas, seja de um antigo estilo destrutivo, de um amante, seja de um emprego. Ela para a fim de ganhar tempo, ela espera a hora certa, ela planeja sua estratégia e reúne suas forças interiores antes de realizar uma mudança externa. Às vezes é exatamente esse tipo de ameaça imensa do predador que faz com que a mulher deixe de ser um amor de pessoa que se adapta a tudo e passa a ter o olhar suspeito dos desconfiados."

"No entanto, mesmo uma mulher que esteja morta de cansaço com suas lutas infelizes, não importa quais sejam, muito embora ela esteja com a alma exausta, ela ainda assim precisa planejar sua fuga. (...) Para sobreviver, não se pode ceder à fadiga. Ir dormir significa morte certa.

Essa é a iniciação mais profunda, a iniciação de uma mulher nos sentidos instintivos corretos através dos quais o predador é identificado e banido. É esse o momento no qual a mulher cativa passa de condição de vítima para a condição de alguém com a mente afiada, os olhos astuciosos, a audição apurada."

Como dar o grito
"A mulher convoca seus irmãos psíquicos. O que eles representam na psique de uma mulher? Eles são os propulsores mais musculosos, os elementos de natureza mais agressiva da psique. São a força interior à mulher que sabe agir quando chega a hora de matar. Embora essa qualidade seja retratada nessa história por meio do sexo masculino, ela poderia ser atribuída a qualquer um dos sexos -- bem como a objetos que são neutros como, por exemplo, a montanha que se fecha sobre o intruso, ou o sol que desce por um instante a fim de torrar o saqueador."

"Quando as mulheres conseguem emergir da ingenuidade, elas trazem consigo mesmas e para si mesmas algo de inexplorado. Nesse caso, a mulher agora mais sábia procura auxílio de uma energia masculina interna. (...) Essa figura psíquica tem valor especial por ser investida de qualidades que a criação tradicionalmente extirpa das mulheres, sendo a agressividade uma das mais comuns."

Os devoradores de pecados
"Desarmamos o predador ao manter nossas intuições e instintos e resistindo à sua sedução. Se fôssemos fazer uma lista de todas as nossas perdas até o momento atual nas nossas vidas, lembrando-nos de ocasiões em que nos decepcionamos, em que estivemos indefesas diante do suplício, em que tivemos uma fantasia cheia de glacê e fru-fru, compreenderíamos que esses são pontos vulneráveis na nossa psique. É a esses aspectos carentes e desprestigiados que o predador recorre a fim de esconder o fato de que sua única intenção é a de arrastá-la para o subterrâneo e sugar sua energia como numa transfusão de sangue."

***
No tópico seguinte, Clarissa Pinkola Estés irá falar sobre "o homem sinistro nos sonhos das mulheres. Geralmente um sonho que a maioria das mulheres têm, cujo padrão é estar sozinha e do lado de fora, no escuro, há um ou mais homens. Ela não consegue ajuda e de repente percebe que o homem está cada vez mais perto, até acordar assustada.

Quando li essa descrição, imediatamente me lembrei de um sonho parecido, que tive quando era adolescente: eu estava em casa sozinha, era noite e estava escuro..Eu olhava a rua pela janela e havia algumas pessoas do lado de fora. Um homem desconhecido virava pra mim e apontava uma longa arma. No momento em que ele atira, eu acordo.

Segundo a autora, há várias interpretações para este tipo de sonho, dependendo das circunstâncias de vida e dramas interiores de quem sonha. Mas muitaas vezes o sonho é "um indicador confiável de que a consciência de uma mulher, como no caso de uma mulher muito jovem, está começando a perceber a existência do predador psíquico inato." Em outros casos, ele pode indicar uma situação intolerável, que ela precisa combater ou da qual precisa fugir. Ou seja, o homem sinistro aparece quando é iminente uma iniciação.

"Portanto, quando as mulheres sonham com o predador natural, bem sempre se trata exclusivamente de uma mensagem sobre a vida interior. Às vezes é uma mensagem sobre os aspectos da cultura em que vivemos (...)".

E uma reflexão (grifos meus):

"Embora uma grande vertente da psicologia dê ênfase às causas familiares na angústia dos seres humanos, o componente cultural tem o mesmo peso, pois a cultura é a família da família. Se a família da família sofre de várias enfermidades, todas as famílias dentro daquela cultura terão de lutar com os mesmos inconvenientes. Há um ditado que diz que a cultura cura. Se a cultura tem essa propriedade medicinal, as famílias aprendem a curar. Elas lutarão menos, serão maia reparadoras, ferirão muito menos, serão muito mais gentis e carinhosas. Numa cultura dominada pelo predador, toda nova vida que precisa nascer, bem como toda velha vida que precisa partir, é incapaz de se movimentar, e a vida espiritual dos seus cidadãos sofre um congelamento tanto pelo medo quanto pela inanição espiritual. (...)

Contudo, mesmo numa cultura opressora, em qualquer mulher na qual a Mulher Selvagem ainda viva (...), haverá perguntas sendo feitas (...). Uma vez examinadas essas questões, a mulher está capacitada para agir de acordo com sua própria competência, com seu próprio talento. Tomar o mundo nas mãos e agir com ele de um modo inspirado e fortalecedor da alma é um poderoso ato do espírito selvagem."

***


"Talvez o mais importante seja o fato do Barba-azul trazer ao nível do consciente a chave psíquica, a capacidade de fazer qualquer pergunta a respeito de nós mesmos, da nossa família, dos nossos projetos e da vida como um todo. Depois, como um ser selvagem que tudo fareja, que cheira em volta, debaixo e dentro para descobrir o que uma coisa é, a mulher está livre para encontrar respostas verdadeiras para suas perguntas mais profundas e mais sombrias. Ela está livre para arrancar os poderes daquilo que a assolou e para voltar eases poderes, que antes foram empregados contra ela, para os excelentes usos que lhe forem maia convenientes." (p.82)

Diário de Leitura: Mulheres que correm com os lobos #1 

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