Inspirada pela lista do ótimo Mulher no Cinema, resolvi elencar os 10 melhores filmes dirigidos por mulheres que assisti este ano. Foi um ano bem flop para o projeto #52FilmsByWomen, fechando com apenas 17 filmes assistidos -- 4 a menos que no ano passado. Mesmo assim, deu para fazer uma listinha bacana com o que eu considero os destaques do ano:
Toni Erdmann (Maren Ade, Alemanha)
O filme é apresentado como uma comédia, mas seu humor não é convencional: na verdade, se trata de um estudo de personagens que se desenvolve de forma lenta, mostrando pouco a pouco que por baixo da bizarrice, o humor é uma casca frágil que tenta esconder a solidão e a tristeza. É muito tocante assistir a esse pai tentando se reconciliar com a filha através de uma espontaneidade já há muito perdida, enquanto na relação deles a dinâmica é invertida: é ela que deixa a família, é ela que é a mulher de negócios que não tem tempo e nem humor para nada. Apesar disso, a personagem não é unidimensional e se à primeira vista parece simplesmente insensível, um pouco mais de atenção nos mostra uma mulher travando uma luta interna para sufocar uma sensibilidade para conseguir ser bem-sucedida em um universo complexo e masculino. Um dos momentos mais engraçados do filme, uma Naked Party, é também o auge de um surto interno e silencioso, como uma vontade de se libertar. Belíssimo.
Detroit em rebelião (Kathryn Bigelow, EUA)
Mais longo que o necessário, o longa pretende mostrar o período em que rebeliões da comunidade negra norte-americana estouraram em Detroit no fim dos anos 1960. O foco, porém, é o arrepiante incidente ocorrido no Algiers Motel, em que uma batida policial se transforma em um violento episódio de racismo explícito, resultando na morte de vários jovens negros inocentes. Kathryn Bigelow parece não se decidir entre a atmosfera documental e o ficcional, fazendo com que o filme às vezes pareça dois longas distintos. Apesar disso, a história brutal é mostrada de forma muito correta e contribui para as discussões sobre racismo estrutural e violência policial deliberada contra a população negra.
Como nossos pais (Laís Bodanzky, Brasil)
O filme tem seus probleminhas e se utiliza de alguns recursos simbólicos bem clichês, mas funciona ao mostrar o machismo presente até mesmo em famílias esclarecidas, burguesas e de esquerda, que supostamente deveriam prezar por relações mais igualitárias. Me identifiquei bastante com a personagem de Maria Ribeiro, uma redatora freelancer e mãe que se divide em mil e se vê sempre relegada ao segundo plano, até começar a querer viver a própria vida.
Era o hotel Cambridge (Elianne Caffé, Brasil)
Ficção com ares de documentário, que mostra a rotina e a luta das pessoas sem moradia, que vivem em ocupações irregulares, principalmente os refugiados de países do Oriente Médio, África e América do Sul, que são aceitos no Brasil e depois entregues à própria sorte. Apesar do tema, a perspectiva não é vitimista, e é interessante notar a tensão que acontece entre os próprios moradores e ativistas, principalmente através do desconforto de acreditar que os estrangeiros são tratados de forma melhor que, por exemplo, os nordestinos, maioria no prédio. É um filme bastante eficiente em verossimilhança e importante para entender as ocupações por dentro do movimento.
Corpo e alma (Ildikó Enyedi, Hungria)
Vencedor do Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim e um dos finalistas entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Corpo e Alma é um filme delicado, que embora demore uma longa hora para engatar, esse tempo é necessário para que a gente possa entender como funcionam esses personagens e o ambiente em que convivem. Se encontrando em um espaço brutal como são os abatedouros, ambos são pessoas com algum tipo de desajuste que os faz se abrir muito pouco ao amor - e em seus sonhos, eles veem a si mesmos como cervos, presas por natureza. E é a partir destes sonhos que eles vão despertar a vida um no outro.
A 13ª emenda (Ava DuVernay, EUA)
Em 100 eloquentes minutos, Ava Duvernay mostra como ocorreu a criminalização da população negra americana desde o fim da escravidão: a tal emenda permite que criminosos sejam submetidos a trabalhos análogos ao trabalho escravo. Dessa forma, desde o mito do negro estuprador de mulheres brancas, perpetuado pelo filme "O nascimento de uma nação", até uma arbitrária guerra às drogas (o combate ao crack, utilizado majoritariamente pela população negra e pobre, sendo muito mais violento que o combate à cocaína, utilizada por brancos burgueses, sendo praticamente a mesma droga), passando por um sistema prisional que lucra com a quantidade de pessoas presas, DuVernay mostra como a elite política conservadora consegue manter seus privilégios às custas do racismo estrutural que encarcera negros pobres (muitos que estão presos apenas por não ter o dinheiro para pagar a fiança), os explora e mata, enquanto absolve as pessoas brancas.
Apesar de brutal, a diretora toma o cuidado de não explorar o sofrimento alheio e ainda dá oportunidade para que o outro lado exponha seu ponto de vista. Um dos momentos mais pungentes é quando o doc toca no ponto de nunca ter havido uma única liderança negra que não tenha sido criminalizada, perseguida, presa, tratada como marginal. Isso por si só já reforça a importância e a urgência do Movimento Negro.
O estranho que nós amamos (Sofia Coppola, EUA)
Na versão de Sofia Coppola para o livro de Thomas Cullinan (que não li), a perspectiva é feminina. Se no filme anterior Clint Eastwood criava um clima de terror masculino, aqui a intenção parece ser a de fazer com que o soldado da União, que aparece ferido no território Confederado onde fica uma escola para meninas, seja o elemento ameaçador. Por mais cativante que aparenta ser, parece haver sempre uma tensão pairando ao redor do personagem de Colin Farrel, como se planejasse alguma emboscada. Mas é ele que acaba pagando um preço por instigar e manipular aquelas mulheres, que não abrem mão da sua união e sororidade. O filme peca pela falta de tensão, o que deixa o ritmo bastante lento para um suspense, mas brilha em todo o resto.
Grave (Julia Ducournau, Bélgica)
Grave é um longa de horror que perturba mais que assusta, apostando no gore pesado para criar uma metáfora poderosa sobre amadurecimento e empoderamento feminino. Não indicado para estômagos fracos.
Mulher-Maravilha (Patty Jenkins, EUA)
Preciso confessar que não sou grande fã do filme: me impressionou muito pouco, com a atuação de Gal Gadot se resumindo a olhar ao redor com cara de "hum, sei", uma trama convencional como grande parte dos filmes de super-heróis, acrescida de uma ênfase no poder do amor que eu talvez não tenha visto da mesma forma em filmes protagonizados por heróis masculinos. Apesar disso, é necessário olhar para o quadro todo: é um filme de ação, competente em sua proposta, protagonizado por uma mulher que toma suas próprias decisões, que salva em vez de ser salva, que mete a porrada em quem merece e capaz de divertir, empolgar e fazer com que meninas e mulheres se sintam representadas. Tudo isso comandado por uma diretora, que entregou o melhor filme feito para um personagem da DC e que foi um enorme sucesso de bilheteria. O que eu espero é que com Mulher-Maravilha, não apenas os estúdios entendam que filmes de ação protagonizados por mulheres funcionam, que há um público interessado em vê-los, mas também que passem a entregar esses filmes cada vez mais nas mãos de diretoras.
Com amor, Van Gogh (Dorota Kobiela e Hugh Welchman, Reino Unido)
Teria sido preferível escolher um filme dirigido somente por uma mulher, não um em que ela divide a direção com um homem. Mas Com amor, Van Gogh me tocou tanto que não podia deixar de fora desta lista. O roteiro em si é convencional: de posse de uma carta que Van Gogh escrevera a seu irmão Theo e que nunca chegou ao destinatário, o filho do carteiro sai em busca de Theo, apenas para descobrir que este morreu pouco tempo após o suicídio do pintor. Assim, enquanto busca entregar a carta a um destinatário adequado, ele recria os passos de Van Gogh durante seus últimos dias, fazendo uma espécie de investigação para descobrir se a morte foi, de fato, suicídio ou um homicídio abafado.
A grande beleza do longa está no fato de ser uma animação toda pintada à mão com tinta a óleo, emulando as pinceladas grossas de Van Gogh e recriando alguns de seus quadros mais famosos. Além disso, o filme é de uma sensibilidade ímpar e é impossível não sentir empatia pelo pintor atormentado.
Se quiser saber quais os filmes dirigidos por mulheres eu assisti desde o início do projeto e pegar algumas dicas, estou colocando tudo na lista do Letterbox e do FIlmow.











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