Para relembrar:
Diário de leitura #1: A Mulher Selvagem
Diário de leitura #2: Barba Azul e o predador psíquico
O terceiro capítulo é um capítulo longo e importante, que deve ser lido com atenção. Resolvi dividir o fichamento desse capítulo em duas partes, para que o post não fique tão cansativo.
Clarissa Pinkóla Estes resgata o conto de fadas russo sobre a menina Vasalisa (ou Vasilisa) que após a morte da mãe, se vê cercada pela família perversa da madrasta, que a despreza, humilha e obriga a fazer as vezes de empregada. Um dia, a mulher e suas filhas vão além e bolam um plano para que Vasalisa morra: acabam com toda a lenha e fazem com que a menina se embrenhe na floresta atrás da bruxa Baba Yaga atrás de fogo, com a intenção de que Vasalisa seja devorada pela criatura. Ocorre que Vasalisa possui uma boneca abençoada por sua mãe em seu leito de morte e é essa boneca que vai guiá-la pelos caminhos da floresta e em seu encontro com Baba Yaga. Seguindo os conselhos da boneca, Vasalisa consegue sair vitoriosa das tarefas exigidas pela bruxa e volta para casa carregando um cetro com um crânio incandescente: o fogo mágico cedido por Baba Yaga. Ao retornar, a caveira percebe o quanto a família da madrasta da menina é maléfica e faz com que elas se reduzam a pó.
Segundo a autora, "Vasalisa é a história praticamente intacta da iniciação de uma mulher. Ela trata da percepção de que a maioria das coisas não é o que parece. (...)É um conto que traz um mapeamento psíquico antiquíssimo acerca da indução no mundo subterrâneo do selvagem Deus-fêmea. (...)Ele fala de como infundir nas mulheres o poder instintivo básico da Mulher Selvagem: a intuição".
Para compreender uma história dessas, consideramos que todos os seus componentes representam a psique de uma única mulher. Dessa modo, todos os aspectos da história pertencem a uma única psique que passa por um processo de iniciação. A iniciação é representada pelo cumprimento de certas tarefas. Nesse conto, há nove tarefas a serem cumpridas pela psique.
Ou seja, no início do conto temos uma menina ainda inocente, protegida dos males do mundo pelo amor de sua mãe, que se mantém em uma condição de submissão e bondade ingênua até que o fogo - seu fogo vital - se apaga, ou melhor, é sugado por pressões externas (e internas). Para conseguir resgatar este fogo e ter domínio sobre si mesma e sua própria vida, é necessário que a menina tenha coragem de sair da sua zona de conforto, enfrentar o desconhecido e aceitar o processo (as tarefas) sem os quais seu crescimento será impossível. Para isso, ela precisa confiar na boneca - ou seja, uma versão de si mesma, que representa sua intuição. Vamos ao livro:
1ª tarefa: Permitir a morte da mãe-boa-demais
É o momento em que a mulher deve "assumir a realidade de estar só, de desenvolver a própria conscientização quanto ao perigo; deixar morrer o que deve morrer; aceitar o fato de que a mãe psíquica protetora, sempre vigilante, não é adequada para ser um guia para a futura vida instintiva da pessoa".
"O processo de iniciação começa quando a mãe boa e amada morre. Na vida de todas nós, como filhas, surge uma hora em que a boa mãe da psique transforma-se numa mãe-boa-demais, aquela que, em virtude dos seus valores de proteção, começa a nos impedir de reagir a novos desafios e, portanto, de atingir um desenvolvimento mais profundo". (p. 99)
"Esse dramático definhamento psicológico da mãe ocorre pela primeira vez quando a menina passa do ninho acolchoado da pré-adolescência para a selva frenética da adolescência". (p. 99)
"A iniciação de Vasalisa começa quando ela aprende a deixar morrer o que precisa morrer. Isso significa deixar morrer os valores e atitudes de dentro da psique que não mais se sustentam. (...) aqueles dogmas há muito aceitos que tornam a vida segura demais, que superprotegem, que fazem a mulher andar com passinhos rápidos em vez de com longas passadas". (p.100)
"Se ficarmos mais tempo do que o normal com a mãe protetora dentro da nossa psique, vamos nos descobrir impedindo todos os desafios de nos atingirem, o que prejudica o desenvolvimento futuro. Embora eu não esteja de modo algum querendo dizer que uma mulher deva mergulhar numa situação violenta ou torturante, quero dizer, sim, que ela deve fixar para si mesma alguma coisa na vida que ela se disponha a alcançar e, portanto, a assumir os riscos para conseguir". (p. 100)
Eu tenho uma amiga que diz que desde o ginásio seus amigos falam que ela parece uma mãezona para eles e ela mesma admite que gosta de estar em uma posição de cuidar e zelar pelas pessoas que ama. Ela transmite, de forma não intencional, a imagem de uma figura materna. Ela costuma compartilhar muitos dos seus sonhos, sempre histórias emocionantes que muitas vezes são interrompidas antes de chegar ao final. Curiosamente, ela sonha bastante com perseguições. Os trechos seguintes me lembraram bastante desta minha amiga.
"Às vezes, a mulher está tão enredada sendo a mãe-boa-demais de outros adultos que eles se grudaram às suas tetas e não pretendem deixar que ela os abandone. Nesse caso, a mulher tem de afastá-los a coices e continuar assim mesmo". (p. 102)
"Como a psique sonhadora procura compensar aquilo que o ego não quer ou não pode reconhecer, entre outras coisas, os sonhos da mulher durante uma luta dessas serão compensatoriamente cheios de perseguições, becos sem saída, automóveis que não pegam, gravidezes interrompidas e outros símbolos de que a vida não prossegue. Nas suas entranhas, a mulher sabe que existe um toque de morte ao insistir em ser aquela pessoa boa demais por muito tempo". (p. 102)
2ª tarefa: Denunciar a natureza sombria
As tarefas psíquicas deste estágio são: "Descobrir que ser boazinha, que ser gentil, não fará a vida florir (Vasalisa torna-se escrava). Criar o melhor relacionamento possível com as piores partes de si mesma".
"A madrasta e as filhas representam elementos pouco desenvolvidos mas provocativamente perversos da psique. (...)No entanto, o material sombrio negativo também pode ser útil pois quando ele irrompe e nós finalmente identificamos esses aspectos e suas fontes, tornamo-nos mais fortes e mais sábias". (p. 103)
"A obediência provoca uma descoberta chocante que deve ser registrada por todas as mulheres. Ou seja, a de que ser nós mesmas faz com que nos isolemos de muitos outros e, entretanto, ceder aos desejos dos outros faz com que nos isolemos de nós mesmas. É uma tensão angustiante e que precisa ser suportada, mas a escolha é clara". (p. 103)
"A família da madrasta de Vasalisa é um gânglio intrapsíquico que intercepta o nervo da vitalidade. Elas se apresentam como um coro de megeras irredutíveis que provocam a menina. 'Você não sabe fazer isso. Você não é boa nisso. Você não tem a coragem necessária. Você é tola, sem graça, vazia. Você não tem tempo. Você só é boa para as coisas simples. Desista enquanto ainda pode'. Como Vasalisa ainda não tem consciência plena do seu poder, ela permite esse obstáculo perverso na sua vida. Para que ela reconquiste sua vida, algo de diferente, algo de revigorante precisa acontecer". (p. 104)
"Nós também sofremos interceptação quando a madrasta que existe em nós e/ou à nossa volta nos diz que, para começar, não valemos muito e insiste em que nos concentremos nas nossas falhas, em vez de perceber a crueldade que gira ao redor - seja dentro da psique, seja dentro da cultura. Mesmo assim, ver alguma coisa a fundo ou perceber tudo o que possa estar oculto exige intuição bem como força para suportar o que se vê". (p. 104)
"Contudo, a recompensa por ser boazinha, em circunstâncias repressoras, é a de ser mais maltratada. Embora a mulher sinta que, se for ela mesma, estará se afastando dos outros, é exatamente essa tensão psíquica que é necessária para criar alma e promover mudanças". (p. 104)
"As mulheres que tentam tornar invisíveis seus sentimentos mais profundos estão se entorpecendo. A luz se extingue. É uma forma dolorosa de vida latente". (p. 105)
Me lembrei de muitas pessoas lendo este trecho do capítulo, inclusive uma versão adolescente de mim mesma. Acredito que muitas mulheres conseguem fazer essa reflexão e chegar a estas conclusões conforme vão amadurecendo, mas é verdade que muitas outras chegam à fase madura ainda presas a velhos modelos femininos. Já fui cobrada por mulheres adultas para ser "fofa" (quando jamais cobrariam um homem do mesmo), principalmente em situações em que ser "fofa" significaria ser submissa. Sempre me lembro do filme "Dogville" em casos como esse.
3ª tarefa: Navegar nas trevas
Aqui as tarefas psíquicas são: "Consentir em se aventurar a penetrar no local de iniciação profunda (entrada na floresta). Confiar exclusivamente nos próprios sentidos interiores. Aprender a nutrir a intuição. Deixar que a mocinha frágil e ingênua morra ainda mais".
"Durante séculos, os seres humanos tiveram a sensação de que das bonecas emanava algo de sagrado e de maná. (...)Acredita-se que as bonecas sejam impregnadas de vida por quem as criou. Elas são usadas em ritos, rituais, vodus, feitiços de amor e de maldade. Elas são empregadas como símbolos de autoridade e talismãs para lembrar à pessoa da sua própria força". (p. 106)
"Dessa forma, a boneca representa o espírito interior das mulheres: a voz da razão, do conhecimento, a conscientização íntima". (p. 107)
"Como alimentar a intuição para que ela seja bem nutrida e responda aos nossos pedidos de que esquadrinhe as cercanias? (...)Já ouvi mulheres que disseram estas palavras, se não centenas, então milhares de vezes: 'Eu sabia que devia ter seguido minha intuição. Pressenti que devia ou não devia ter feito isso ou aquilo, mas não lhe dei ouvidos'. Nutrimos o profundo self intuitivo ao prestar atenção a ele ao agir de acordo com sua orientação". (p.108)
"Nós, à semelhança de Vasalisa, fortalecemos nossos laços com a natureza intuitiva quando prestamos atenção à voz interior a cada curva da estrada. 'Devo ir para esse lado ou para outro? Devo ficar ou partir? Devo resistir ou ser flexível? Devo fugir disso ou correr na sua direção? Essa pessoa, esse acontecimento, essa empreitada, é verdadeira ou falsa?'". (p. 109)
4ª tarefa: Encarar a Megera Selvagem
Uma das tarefas representadas pelo encontro de Vasalisa com, Baba Yaga, a Megera Selvagem, é a seguinte: "Permitir que a criança frágil e boazinha em excesso vá definhando ainda mais".
"Baba Yaga mora numa casa que descansa sobre pernas de galinha. Ela gira e dá voltas quando bem entende. Nos sonhos, o símbolo da casa reflete a organização do espaço psíquico habitado por uma pessoa, tanto no consciente quanto no inconsciente. (...)A casa da Yaga pertence ao mundo animal e Vasalisa precisa desse elemento em sua personalidade". (p. 110)
"Vasalisa começou com o que poderíamos chamar de personalidade normal nivelada. É exatamente esse 'excesso de normalidade' que vai nos contaminando até que tenhamos uma vida rotineira e sem vida, sem que fosse isso o que realmente pretendêssemos. Essa situação estimula a negligência para com a intuição". (p. 110)
"Muitas mulheres estão se recuperando dos seus complexos de 'ser boazinhas', nos quais, independentemente de como se sentissem, independentemente do que as acossasse, elas reagiam de uma forma tão doce a ponto de ser praticamente humilhante. Emboras elas pudessem sorrir gentis durante o dia, à noite rangiam os dentes como bestas. (...) Esse excesso de adaptação na mulher 'boa demais' ocorre muitas vezes quando ela tem um medo desesperado de se ver privada dos seus direitos ou de que a considerem 'desnecessária'". (p. 111)
"Boa parte da literatura sobre o tema do poder das mulheres afirma que os homens têm medo desse poder. (...)São tantas as mulheres que têm, elas mesmas, medo do poder das mulheres". (p. 112)
"Ser forte significa encontrar nossa própria numinosidade sem fugir, convivendo ativamente com a natureza selvagem ao nosso próprio modo. Significa ser capaz de aprender, e ser capaz de aguentar o que sabemos. Significa manter-se firme e viver". (p. 113)
5ª tarefa: Servir o não racional
Neste período de aprendizado, a tarefa inclui: "Chegar a reconhecer o poder da psique feminina e os poderes das purificações interiores: limpar, escolher, alimentar, criar energia e ideias".
"Lavar as roupas da Yaga é um símbolo lendário. Nos países primitivos, e ainda hoje em da, para lavar a roupa a pessoa descia até o rio e lá fazia as abluções rituais feitas desde o princípio dos tempos para renovar o tecido. Trata-se de um belo símbolo da limpeza e da purificação de toda a imagem da psique". (p. 114)
"Lavar alguma coisa é um ritual de purificação atemporal. Ele também significa, como o batismo, empapar, impregnar com uma força e um mistério numinosos. No conto, a lavagem das roupas é a primeira tarefa. Ela simboliza repor em boas condições aquilo que perdeu a forma com o desgaste. As roupas são como nós, que nos desgastamos cada vez mais até que nossas ideias e valores ficam frouxos com o passar do tempo. A renovação, a revivificação, ocorre na água, na redescoberta daquilo que realmente consideramos verdadeiro, daquilo que realmente consideramos sagrado". (p. 114)
"A tarefa seguinte é a de varrer o casebre e o quintal. (...)A mulher sábia mantém seu ambiente psíquico organizado. Ela consegue isso mantendo a cabeça limpa, mantendo um local limpo para seu trabalho e se dedicando a completar suas ideias e projetos". (p. 115)
"Para muitas mulheres, essa tarefa exige que elas separem todos os dias algum tempo para a contemplação, que abram um espaço para habitar que seja nitidamente seu (...). Para muitas delas, a psicanálise e outras experiências de mergulho e transformação fornecem o local e o tempo especiais para esse trabalho. Cada mulher tem suas próprias preferências, seu próprio estilo". (p. 115)
"Os ciclos das mulheres de acordo com as tarefas de Vasalisa são os seguintes: limpar nosso pensamento, renovando nosso valores com regularidade; eliminar da nossa psique as insignificâncias, varrê-las, purificar nossos estados de pensamento e sentimento com regularidade. Acender a fogueira criativa e cozinhar ideias num ritmo sistemático e especialmente cozinhar muito para alimentar o relacionamento entre nós mesmas e a natureza selvagem". (p. 117)
Acho muito bonita a simbologia do lavar, batizar, purificar, renovar, que pode acontecer de várias maneiras. Acredito que este seja o estágio em que eu me encontro neste momento da vida.
Veja também quatro últimas tarefas psíquicas do processo de resgate da intuição, na segunda parte aqui
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