Neste ponto do livro, somos apresentados a Manawee, o Homem Selvagem que seria o arquétipo do parceiro ideal da mulher em pleno equilíbrio com sua dualidade.
Manawee é uma lenda afro-americana em que o personagem-título corteja duas irmãs gêmeas, na esperança de desposá-las mas é impedido por um obstáculo: o pai das gêmeas só permitirá o casamento caso Manawee consiga adivinhar o nome das mulheres. O que ele não conseguia fazer. Um dia Manawee vai visitar a família acompanhado de seu cachorro, que percebe que as irmãs se complementam: enquanto uma é mais bela, a outra seria mais meiga, com nenhuma delas tendo todas as virtudes. O cão se afeiçoa às irmãs e, ao ouvir a conversa delas, consegue descobrir seus nomes. Porém, toda vez que o animal tenta voltar para contar os nomes ao seu dono, ele é distraído por alguma tentação apetitosa e acaba esquecendo. Até que um dia, ele conseguiu retornar com sucesso, mesmo com todos os contratempos em seu caminho e revelar os nomes a Manawee. Quando o homem chega até o pai com os nomes das filhas, elas já estavam prontas esperando por ele.
Segundo Clarissa Pinkóla Estes, esta história "responde à questão antiquíssima acerca da natureza da mulher", ou seja, ensina aos potenciais parceiros o velho enigma do que realmente uma mulher deseja. Mas antes que isso aconteça, é necessário que a própria mulher saiba quem ela é e o que ela quer, e essa lenda também aponta para isso.
Não há ninguém que a Mulher Selvagem ame mais do que um parceiro que seja seu igual. No entanto, talvez desde o início dos tempos, incessantemente aqueles que queriam ser seus parceiros não estão muito seguros de compreender a verdadeira natureza da mulher. (p. 136)A autora defende que por mais que se possa "encarar as duas mulheres como noivas numa cultura polígama, a partir de uma perspectiva arquetípica, essa história fala do mistério de duas poderosas forças femininas numa única mulher". Ou seja, por baixo da superfície há uma criatura diferente, que habita um universo não acessível facilmente. O próprio homem possui também seu lado dual - nesse caso, o lado homem e o lado cão, mas vamos chegar nisso mais adiante. Por ora, quero aproveitar para comentar que eu achei interessante chegar neste capítulo justamente porque eu costumo fazer uma brincadeira com fundo de verdade toda vez que engato em um relacionamento sério, que é dizer ao parceiro que ele ainda não conhece a "verdadeira Renata", aquela que nada tem a ver com a imagem que as pessoas que não convivem comigo costumam ter: a de uma pessoa pacífica (porque quieta), tranquila (porque simpática), melindrosa e frágil (porque pequena e porque tímida). Ninguém me dá muito crédito quando eu digo isso, para depois os conflitos começarem a surgir, já que com toda certeza minha personalidade íntima não corresponde à ideia que fazem de mim. E não é que eu vista uma máscara proposital, é apenas o fato de ser uma pessoa introspectiva, que só consegue ficar à vontade com pessoas com as quais eu convivo, e ter horror a chamar atenção ou criar constrangimentos desnecessários no dia a dia. Uma vez, uma conhecida criou uma brincadeira de usar títulos de livros para se definir, e uma das minhas escolhas foi "Como ser as duas coisas", da Ali Smith. Sempre achei difícil lidar com meus dois lados, um muito 8 e outro muito 80, um totalmente água (peixes) e outro totalmente fogo (áries) e esse capítulo me mostrou como essa dualidade intrínseca é comum e desejada. Vamos voltar a ele:
Qualquer um que seja íntimo de uma Mulher Selvagem está de fato na presença de duas mulheres: um ser exterior e uma criatura interior, um que habita o mundo terreno, e outro que vive num mundo não tão visível. O ser exterior vive à luz do dia e é observado com facilidade. Muitas vezes é uma pessoa pragmática, aculturada e muito humana. Já a criatura costuma chegar à superfície vindo de muito longe (...), embora sempre deixe uma sensação: algo de surpreendente, original, sagaz. (p. 140)
O problema, de acordo com o capítulo, acontece quando um dos lados é privilegiado em detrimento do outro, levando ao desequilíbrio. "A mulher tem enormes poderes quando os aspectos duais individuais são reconhecidos conscientemente e considerados unidade; mantidos unidos em vez de separados. O poder de ser dois é muito forte, e nenhum dos dois lados deve ser negligenciado. (...) Sozinho, o self mais civilizado vive bem...mas sente uma certa solidão. Sozinho, o self selvagem também vive bem, mas anseia pelo relacionamento com outro".
A energia dual masculina
No caso do homem, a sua natureza dual é representada, na história, pelo lado humano e pelo lado cachorro. "Sua natureza humana, embora simpática e carinhosa, não lhe basta para ter sucesso na corte", é a natureza instintiva que tem a tenacidade e a audição apurada, os instintos para encontrar, perseguir e resgatar ideias valiosas.
É aqui que devemos tomar cuidado. As forças masculinas podem incluir energias bem distantes do que representa Manawee, e que está mais próxima do predador de Barba-azul. São aqueles que "tentam demolir a estrutura dual das mulheres. Esse tipo de pretendente não consegue tolerar a dualidade e procura perfeição, procura verdade única, a substância feminina imutável, inalterável, encarnada na única mulher perfeita. Cuidado! Se você encontrar esse tipo de pessoa, fuja para o outro lado com a maior rapidez possível".
Já o pretendente do tipo de Manawee "deseja tocar essa combinação [o poder de ser dois em uma entidade una] misteriosíssima e onipresente da vida da alma na mulher, e ele dispõe de uma soberania própria. Já que ele próprio é um homem natural, ligado ao selvagem, tem uma sintonia com a mulher selvagem e sente atração por ela, (...) que procura e reivindica a dualidade da mulher, que a considera valiosa, acessível, desejável, em vez de diabólica, feia e desprezível".
O poder do nome
Entendida a importância de aceitar conscientemente os lados opostos e deixar com que se complementem, além de perceber que o homem desejável é aquele que deseja esta dualidade e procura compreendê-la, Estes mostra a importância de dar às coisas os nomes delas. Dar nome às coisas é uma das principais bandeiras do feminismo: dizer o que é assédio sexual, o que é estupro, o que é feminicídio, o que é lesbofobia, o que é mansplaining (man [homem] + explaining [explicando], a mania dos homens de explicarem tudo para a gente, até quando se trata do nosso campo de trabalho, nossa personalidade, feminismo ou o que eles mesmos não dominam. Em português, uma pessoa cunhou o termo Doutor Pica Explica, que é perfeito), sem eufemismos, tratando as coisas pelo que elas são. Também é uma arma poderosa (e controversa) do feminismo a prática de dar nome aos bois, ou seja, fazer relatos e denúncias sem esconder a identidade dos agressores. Enfim, nomear é um ato que não deve ser subestimado.
Na história, a procura pelo nome tem como objetivo invocar uma força, ou uma pessoa, chamá-la para que se aproxime e entrar num relacionamento com ela. Manawee "está interessado em descobrir seus nomes não para se apoderar do poder delas, mas, sim, para conquistar um poder pessoal igual ao delas. Conhecer os nomes representa adquirir consciência acerca da natureza dual e retê-la".
Quando nomeamos, descobrimos significados pessoais e ocultos bem como a beleza selvagem de ser mulher, não importando as personalidades dos aspectos opostos. Essa identificação e esse vínculo são chamados, em termos humanos, de amor a si mesmo. Quando ele ocorre entre dois indivíduos, é chamado de amor pelo outro. (p.144)A sedução furtiva dos apetites
Nesta parte do capítulo Estes vai tratar das distrações, dos desvios no caminho que nos impedem de alcançar nossos objetivos. Pode ser aquele momento em que parece que nada dá certo na vida, ou aquele em que perdemos o desejo no meio da estrada. Mas, na maioria das vezes, se tratam de prazeres diversos (o que lembra um pouco o capítulo anterior e a questão do que está disponível no bufê X o que realmente se deseja). "Alguns tornam-se dependentes dessas preferências e ficam para sempre enredados nelas, sem conseguir jamais continuar seu trabalho".
Esse é um tópico que particularmente me toca, por ter sido sempre a pessoa impulsiva, que se desmotiva com facilidade e que está sempre buscando algo mais apetitoso quando algo perde o sabor. Muitas decisões precipitadas, das quais me arrependo, foram tomadas com essa mentalidade, e muitos projetos ficaram pelo meio do caminho também. O trecho a seguir resume bem:
Os pretendentes (...) podem, como o cachorro, perder sua determinação quando são tentados a sair do caminho. Isso pode ocorrer especialmente se eles próprios forem criaturas ferozes ou esfaimadas. Além do mais, eles podem se esquecer do que os motivava a agir. Eles podem ser tentados/atacados por algum aspecto do seu próprio inconsciente que deseja se impor às mulheres para tirar vantagens, seduzir as mulheres para seu próprio prazer ou num esforço no sentido de acabar com uma sensação de vazio típica do caçador. (p.147)A autora conta que, em sua prática clínica, ela não passa um mês sem ouvir alguma queixa de pessoas que se desviaram do que estavam fazendo por impulsos e desmotivações do tipo "entrei em sete novas iniciativas criativas, adorei o que estava fazendo e depois concluí que nenhuma delas realmente ia dar em nada e joguei tudo para o alto". [Esse cara sou eu] Ela faz uma analogia entre a excitação sexual e o que chama de "trabalho profundo": ambos começam do nada, se aceleram em platôs e chegam a um estágio uniforme e intenso. Caso a excitação seja interrompida no meio por algum motivo qualquer, teremos que começar de novo tudo do zero. Assim também o é com nossos objetivos. Uma vez que desviemos do caminho, podemos não só esquecer de onde estávamos, como esquecer do que o trabalho se trava, pra início de conversa.
Esse processo de nos mantermos conscientes, e em especial de não ceder a apetites perturbadores enquanto tentamos realizar a conexão psíquica, é longo e que é difícil manter a fidelidade a ele. É longo o caminho desde o inconsciente profundo dos arquétipos até a mente consciente. É demorado o mergulho até os nomes lá no fundo, e demorada a volta até a superfície. Manter o conhecimento no consciente é difícil quando há armadilhas ao longo do caminho. (p. 148)
Essas distrações, segundo a autora, são versões do "estranho sinistro", aquele mesmo predador natural da psique que se opõe à consciência, como explicado no capítulo do Barba-azul. O estranho sinistro pode ser encarnado por uma pessoa ou por um complexo negativo interno, ambos tendo os mesmos efeitos devastadores. "Isso pode ocorrer na vida objetiva quando um incidente, um lapso, algum acontecimento estranho de qualquer natureza, surge de repente e tenta nos fazer esquecer quem nós somos". São os ladrões dos nossos nomes.
Porém, ela lembra que muitas vezes a única maneira de aprendermos a nos mantermos fieis ao nosso conhecimento profundo é com o aparecimento desse estranho à nossa frente. Em vez de nos colocarmos na posição de vítimas, somos obrigadas a lutar pelo que prezamos, "lutar para ter firmeza naquilo a que nos dedicamos, lutar para superar nossas motivações espirituais mais superficiais, lutar para terminar o que iniciamos". A isso ela chama de conquista da ferocidade.
Guarde os nomes; Os nomes são tudo.
A mulher interior
A última parte do capítulo repete o que já foi tratado aqui. Então tomei a liberdade de editar os melhores trechos em um único texto, para oferecer uma conclusão.
"Às vezes as mulheres ficam cansadas e irritadas à espera de que seus parceiros a compreendam. 'Por que ele não consegue saber o que eu penso, o que eu quero?' Elas ficam exaustas de fazer essa pergunta. No entanto, existe uma solução prática e eficaz.
A primeira pergunta [que a mulher deve ensinar seu parceiro a fazer] é a seguinte: 'O que você quer?' Quase todo mundo faz alguma versão dessa pergunta, mas de forma automática. Existe, porém, uma pergunta ainda mais essencial: 'O que deseja o seu self mais profundo?'
Quando se ignora a natureza dual da mulher e se julgar a mulher pelo que ela aparenta ser, pode-se vir a ter uma grande surpresa, pois, quando a natureza primitiva da mulher emerge das profundezas e começa a se afirmar, é frequente que ela tenha interesses, sentimentos e ideias muito diferentes dos que manifestava antes.
Para amar uma mulher, o parceiro deve também amar sua natureza primitiva. Se a mulher aceitar um companheiro que não possa amar ou que não ame esse seu outro lado, ela sem dúvida acabará arrasada sob algum aspecto e deixada a vaguear cambaleante, em desmazelo.
Portanto, os homens, tanto quanto as mulheres, devem identificar suas naturezas duais. O amante mais querido, o pai mais valorizado, o amigo mais valioso é aquele que deseja aprender. Se existe uma força que alimenta a raiz da dor, ela é a recusa a aprender além do momento presente. Com medo ou não, é um ato de profundo amor o de se permitir ser perturbado pela alma primitiva dos outros.
O companheiro certo para a Mulher Selvagem é aquele que tem uma profunda tenacidade e resistência de alma, aquele que sabe mandar sua própria natureza instintiva ir espiar por baixo da cabana da alma de uma mulher e compreender o que vir e ouvir por lá. O bom partido é o homem que insiste em voltar para tentar entender, é o que não se deixa dissuadir.
Portanto, a tarefa primitiva do homem consiste em descobrir os nomes verdadeiros da mulher, não em usar indevidamente esse conhecimento para ganhar controle sobre ela, mas sim, para captar e compreender a substância numinosa do que é feita, para deixar que ela o inunde, o surpreenda, o espante e até mesmo o assuste. Também para ficar com ela". (p. 150-151)
Leia também:
Diário de leitura #1: A Mulher Selvagem
Diário de leitura #2: Barba-azul e o predador psíquico
Diário de leitura #3: A corajosa Vasalisa e o resgate da intuição - Parte I
Diário de leitura #3: A corajosa Vasalisa e o resgate da intuição - Parte II

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