Diário de Leitura: Mulheres que correm com os lobos #5 [O medo de amar, a rejeição e a relação com o corpo]

Como está ficando difícil fichar e comentar os capítulos, estou restringindo o diário de leitura a posts no Instagram. A cada três posts publicados lá, junto tudo aqui, incluindo alguns trechos que não cabem naquele espaço.
Os capítulos comentados abaixo são o cinco, o seis e o sete (p. 153-245). Para acompanhar o diário de leitura no Instagram, basta seguir a hashtag #ProsacomLobos.


Capítulo 5: A Mulher-esqueleto: Encarando a natureza de vida-morte-vida do amor
O capítulo 5 do livro trata, basicamente, do medo de amar e do não saber amar. Segundo a autora, quando as pessoas não compreendem o ciclo vida-morte-vida dos relacionamentos, a tendência é que ou não consigam nem mesmo começar a se envolver com alguém ou que não consigam desenvolver uma relação duradoura, uma vez que não conseguem aceitar o fim de suas ilusões e encaram o fim do encantamento e da alegria como o fim do amor. Em outros casos, as feridas trazidas de experiências anteriores fazem com que a pessoa se feche em uma zona de conforto controlada, em que não há espaço para nenhum sentimento florescer, sendo uma morte em si mesma.
Usando os simbolismos presentes na história da Mulher-Esqueleto, Estés vai discorrer sobre a importância de não fugir ao se deparar com a oportunidade de amar mas encarar de frente o medo do compromisso, entendendo que estar em um relacionamento é como dançar com a morte: haverá altos e baixos, vontade de compartilhar e desejo de solidão, alegria, raiva, tédio e tentações mas só será possível que o amor permaneça se for superado o desejo do prazer acima de tudo (o que leva a uma harmonia forçada, frágil e superficial) e houver a aceitação de que o novo só pode surgir se o velho morrer - ou seja, há de se ter a paciência de permanecer e a resistência para enfrentar todos os ciclos de vida, morte e renascimento que fazem parte de uma relação sólida. A autora ainda vai além do estágio inicial e escreve sobre a necessidade de amadurecimento dos inexperientes e de que os feridos admitam suas dores e encontrem a cura em si mesmos. Só assim será possível recuperar a inocência perdida e se entregar de bom grado, sem temer o desconhecido mas se atirar nele, enfrentando a morte pelo caminho e sendo capaz de se regenerar.
Esse é um capítulo bem longo (40 páginas), que eu li e reli, comentei com um amigo*, e que ativou lembranças e deixou muitas reflexões e entendimento sobre muito do que vivi até aqui e do que vi viver. Quem dera ter lido 10, 15 anos atrás.

***

"Uma parte de cada mulher e de cada homem resiste ao reconhecimento de que a morte deve participar de todos os relacionamentos de amor. Nós fingimos que podemos amar sem que morram nossas ilusões acerca do amor, fingimos que podemos prosseguir sem que morram nossas expectativas superficiais, fingimos que podemos ir em frente e que nossas emoções preferidas nunca morrerão. No amor, porém, em termos psíquicos, tudo é dissecado. O ego não quer que isso ocorra (...).

O que morre? As ilusões, as expectativas, a voracidade de querer tudo, de querer que tudo seja lindo, tudo isso morre. Como o amor sempre provoca uma descida até a natureza da morte, podemos perceber por que é preciso grande poder sobre si mesmo e plenitude da alma para assumir esse compromisso. (...)

Sabemos que os relacionamentos às vezes vacilam quando passam do estágio esperançoso para o estágio de encarar o que realmente está preso no anzol. (...) A ligação iniciada com toda a boa vontade oscila e balança, às vezes até cambaleia, quando o estágio de 'enamoramento' se encerra. Depois, em vez da encenação de uma fantasia, começa a sério um relacionamento mais desafiador, e toda a nossa experiência e habilidade precisam ser postas em ação.

(...) Se os amantes insistem numa vida de alegria forçada, de um perpétuo desenrolar de prazeres e de outras formas de sensações intensas e entorpecedoras; se eles insistem numa tempestade sexual de trovões e relâmpagos, ou num excesso de delícias sem nenhum tipo de luta, lá se vai a natureza da vida-morte-vida penhasco abaixo, de volta ao fundo do mar.

A recusa a permitir a presença de todos os ciclos da vida-morte-vida no relacionamento amoroso faz com que a natureza da Mulher-esqueleto seja arrancada de seu habitat para se afogar. O relacionamento amoroso assume, então, uma expressão forçada de "...não vamos nunca ficar tristes, vamos sempre ter prazer", expressão a ser mantida a qualquer custo. A alma do relacionamento desaparece de vista e sai a vaguear debaixo d'água, sem sentido e inútil.

A  Mulher-esqueleto é sempre jogada penhasco abaixo quando um dos parceiros, ou mesmo os dois, não consegue suportá-la ou compreendê-la. Ela é atirada de cima do penhasco quando não compreendemos bem seus ciclos de transformação: quando algo precisa morrer e ser substituído. Se os parceiros não puderem suportar esses processos de vida-morte-vida, não poderão se amar além das aspirações hormonais.

(...) Já que a pouca vida nova pode surgir sem que ocorra um declínio na que havia antes, os amantes que insistirem em tentar manter tudo num apogeu psíquico cintilante passarão seus dias num relacionamento cada vez mais mumificado. O desejo de forçar o amor a prosseguir somente no seu aspecto mais positivo é o que faz com que o amor acabe morrendo, e para sempre".

***

*Meu amigo fez um comentário sobre seu ex que me marcou bastante, e com o qual me identifiquei (grifo meu): "Às vezes eu me sentia refém da positividade do X. Ele não sabia lidar com emoções ou humores negativos. Nem com os dele e nem com os dos outros".


Capítulo 6: O patinho feio: A descoberta daquilo a que pertencemos
O sexto capítulo fala sobre as mulheres que, de alguma forma, foram rejeitadas pela própria família ao se mostrarem diferentes daquele grupo. As ovelhas negras. O conto que a autora vai usar para tratar sobre o tema não poderia ser outra que não "O patinho feio". Apesar de toda a moral da história que já conhecemos, Estés vai esmiuçar o arquétipo da criança órfã, falar sobre a rejeição e as "repetidas tentativas dos pais no sentido de realizar uma cirurgia psíquica, pois estarão tentando remodelar a criança e, mais do que isso, alterar o que a alma da criança exige dela mesma" no caso dos filhos rebeldes, o desespero por ser aceito que leva à procura pelas pessoas erradas nos lugares errados, o congelamento dos sentimentos (em que uma mulher pode achar que ser fria pode ser um grande feito, mas na verdade está se tornando estéril), o desgaste de tentar pertencer a um grupo do qual não se faz parte e a importância de se superar o rótulo de "sobrevivente", por mais duro que tenha sido o passado, já que "essa atitude cria uma disposição mental que pode ser limitadora. Não é bom basear a identidade da alma exclusivamente nos feitos, nas derrotas e nas vitórias dos tempos difíceis.
Quando a mulher insiste em repetir que é uma 'sobrevivente', quando já se passou o tempo em que isso seria útil, o trabalho adiante de nós é óbvio. Devemos fazer com que a pessoa solte das mãos o arquétipo do sobrevivente. Se não o fizermos, nada mais poderá crescer. (...) É melhor que nos demos nomes que nos desafiem a crescer como criaturas livres. Isso é vicejar". Mas o que pra mim foi mais interessante mesmo foi o tópico a respeito dos tipos de mães (a ambivalente, a prostrada, a mãe-criança, a mãe sem mãe e a mãe forte), em que ela vai tratar do complexo materno e suas consequências, e defender que é o relacionamento entre mulheres que cuidam umas das outras que vai consistir no remédio para a cura da mãe interior, aquela internalizada pela psique.

"Se você tentou se adaptar a qualquer tipo de forma e não conseguiu, talvez você tenha muita sorte. É verdade que você pode ser um exilado de alguma espécie, mas sua alma está abrigada. Ocorre um estranho fenômeno quando a pessoa tenta se adequar e não consegue. Muito embora a criatura diferente seja rejeitada, ela ao mesmo tempo é empurrada para os braços dos seus verdadeiros companheiros psíquicos, quer se trate de uma linha de estudo, de uma forma de arte, quer de um grupo de pessoas. É pior ficar ali onde não nos sentimos bem do que vaguear perdida por um período em busca da afinidade psíquica e profunda de que precisamos. Nunca é errado ir à procura do que necessitamos. Nunca mesmo".
"Se você já foi chamada de desafiadora, incorrigível, saliente, esperta, insubmissa, indisciplinada, rebelde, você está no caminho certo".
Imagem do documentário "Embrace", disponível na Netflix

Capítulo 7: O corpo jubiloso: A carne selvagem
O capítulo 7 fala sobre o relacionamento da mulher com o seu corpo. Estés defende que o corpo não é uma escultura nem um peso morto que somos obrigadas a carregar ou uma besta de carga que nos carrega, mas um instrumento de proteção, de sensações e sentimentos, um "repositório para as recordações" cuja finalidade é a de "nos elevar e nos impulsionar". Um detonador de experiências. Segundo ela,"a questão não é a do formato, do tamanho, da cor, da idade; mas sim, se existe sensação, se funciona como deveria, se temos reações, se temos todo um leque, todo um espectro de sentimentos. Ele tem medo, está paralisado pela dor ou pelo receio? Está anestesiado por traumas antigos?". Ela ainda vai criticar o endosso dos teóricos da psicanálise, como Freud, na patologização da variação dos corpos femininos, mencionando como o psicanalista desprezava as pessoas corpulentas e refutando a premissa psicológica que diz que todas mulheres gordas têm fome de alguma coisa, de que "dentro delas existe uma pessoa magra que grita para sair". Ainda que reconheça os distúrbios alimentares como uma realidade, ela aponta para o fato de que o mais provável é que as mulheres tenham configurações corporais distintas devido à herança genética e que as difamações e julgamentos criam apenas gerações de mulheres ansiosas e neuróticas, privadas do orgulho pela sua herança física e desvinculadas de suas identidades.

"O que acontece é que críticas ásperas a respeito da aceitabilidade do corpo criam uma nação de garotas altas corcundas, de baixinhas sobre pernas de pau, de mulheres avantajadas vestidas como se estivessem de luto, de outras muito magras que tentam se inflar como serpentes e vários outros tipos de mulheres que se escondem. Destruir o vínculo instintivo da mulher com seu corpo natural subtrai-lhe a confiança. Faz com que ela insista em descobrir se é uma boa pessoa ou não, e baseia sua autoestima na sua aparência em vez de na sua essência".

"Faz total sentido manter-se saudável e forte, cuidar do corpo da melhor forma possível. No entanto, devo admitir que muitas mulheres têm uma 'faminta' dentro de si. Em vez de 'famintas' por se adequar ao estereótipo, as mulheres têm fome de consideração básica por parte da cultura que as cerca. A mulher 'faminta' ali dentro anseia por ser tratada com respeito, anseia por ser aceita, e no mínimo anseia por ser vista sem preconceitos. Se realmente existe uma mulher que está 'gritando para sair', ela está pedindo aos gritos que terminem as projeções desrespeitosas que os outros lançam sobre seu corpo, seu rosto, sua idade".

"O corpo é como um planeta. Ele é uma terra por si só. Como qualquer paisagem, ele é vulnerável ao excesso de construções, a ser retalhado em lotes, a se ver isolado, esgotado e alijado do seu poder. A mulher mais selvagem não será facilmente influenciada por tentativas de urbanização. Para ela, as questões não são de forma, mas de sensação. O seio em todos os seus formatos têm a função de sentir e de amamentar. Ele amamenta? Ele é sensível? Então é um seio bom".

O capítulo é curtinho e, embora pincele, não desenvolve questões complexas como traumas físicos, transtornos alimentares ou corpos com deficiência, mas incentiva as mulheres a priorizarem o bom funcionamento do corpo e manterem com ele uma relação de alegria e prazer.

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